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Roberto Dante
A liberdade da palheta
Em 1963, discursando em homenagem ao
90º aniversário da tradicional Universidade Vanderbilt, o
presidente norte-americano John Fitzgerald Kennedy (1917-1963)
disse: "A liberdade sem o estudo está sempre em perigo, e o
estudo sem a liberdade é sempre vão".
Embora venha de um político, não de um crítico de arte, a frase
ilustra bem o trabalho do artista plástico Roberto Dante, cujo
trabalho é uma defesa permanente da liberdade de criação e do
aprimoramento individual, vinculado a estudos cuidadosos de
materiais e a uma pesquisa das melhores soluções formais para as
idéias que deseja expressar.
Nascido em Suzano, SP, em 1956, Dante começou a pintar com tinta
a óleo aos 16 anos e, embora tenha realizado alguns cursos para
conhecer e aprimorar técnicas, afirma que 90% do que sabe
aprendeu sozinho. "Nesse aspecto, me considero um
autodidata", afirma.
A busca constante pela melhoria da própria técnica começou
ainda adolescente. "Namorava uma menina cujo irmão pintava
muito bem. Achei que devia desenhar melhor do que ele. Treinei,
insisti e consegui. Hoje vejo como essa análise do meu próprio
trabalho foi importante", conta.
Persistente, Dante sempre precisou provar que acreditava nele
mesmo. O pai dizia que ele copiava os desenhos que lhe mostrava e
um professor no colégio o aconselhou a desistir da arte, porque
não tinha a menor aptidão. "Trabalhei duro e levei novos
desenhos para ele avaliar. Quando os viu, não acreditou que
fossem meus. Percebi então que o importante mesmo era eu ter
mostrado a mim mesmo a minha capacidade de superação",
lembra.
O maior problema de Dante era não saber como prosseguir sua
carreira de artista. No começo dos anos 1970, viu os pintores
Nerival Rodrigues e Rubens Cavalcanti carregando umas telas em
frente à sua casa e resolveu conversar com eles. "Passei a
me informar como aquilo funcionava e a participar de exposições.
"Antes trabalhei numa fábrica de tecidos, no setor de
tintas, mas há 15 anos que vivo só de arte, dando aulas de
desenho, pintura e velas artesanais", diz.
A arte de Dante, até o final dos anos 1990, enveredava pelo
surrealismo. "Queria criar, mas não sabia o quê e como. Li
então bastante sobre tendências de arte e fiquei fascinado pelo
gênio do espanhol Salvador Dali", conta. Participou assim de
cerca de 50 exposições, obtendo diversos prêmios e tendo sua
obra exibida, em 1987, numa coletiva de artistas brasileiros, em
Toronto, Canadá.
No final da década de 1990, Dante começou a buscar novas
técnicas, pesquisando uma linguagem mais voltada para a arte
contemporânea. "Tinha diversas idéias e estava à procura
da melhor forma de realizá-las. Não queria mais a solução
unidimensional da tinta chapada no quarto. Desejava colocar nele
uma escultura real", afirma. "Pensei até em parar com
tudo e aposentar a palheta."
Num momento que isso estava prestes a acontecer, em 1999, Dante
ganhou o Grande Troféu de Artes Plásticas do CCAA, em Mogi das
Cruzes, SP. Isso renovou seu desejo de dar expressão a sua
convicção de que a arte vem de dentro para fora. "É a
essência da vida, um dom, uma fonte de conhecimento que está
dentro de cada um", define.
Um trabalho que ilustra exatamente isso é Barreiras de ouro I.
Uma cabeça de manequim é colocada dentro de uma janela aberta em
meio a uma parede de tijolos, enquanto o corpo é sugerido por uma
silhueta na tela. O boneco tem um buraco de fechadura na testa e,
ao seu redor, a disposição de dezenas de chaves sugere que uma
delas permitirá abrir aquela mente e libertar as idéias lá
enclausuradas pelas barreiras sociais.
Pouco abaixo da cabeça, numa abertura da parede de tijolos,
localizado à altura do coração do corpo desenhado, está a
chave que provavelmente encaixa na fechadura. O conceito expresso
é o de que cada ser humano possui uma chave interior, que lhe é
única e singular. O resultado estético impressiona pela
composição vigorosa, em que o tijolo funciona como símbolo do
cerceamento e a chave com todo seu poder de libertação.
A partir dessa convicção de que cabe ao artista levar
conhecimento às pessoas, Dante realizou a série de três obras
Rompendo Barreiras, em que deixa claro seu conceito de arte como
forma de libertação. Na primeira, vemos a cabeça de um manequim
dentro de uma tela de eucatex pintada como uma parede de tijolos.
Escultura e pintura começam a assim a se relacionar
artisticamente em função de um conceito mental: a defesa da
liberdade de criação. Ao seu lado, uma palheta, símbolo da
arte, dialoga com a cor dourada da tela, índice da essência e da
busca interior que permeiam toda a obra.
No segundo trabalho da série, é uma figura humana que se projeta
em relevo para fora da tela de tijolos. Ainda mais próxima do
observador, surge o coração da silhueta, visto como uma palheta.
Assim como a sede da vida, ela representa a força vital do
artista, capaz de romper o emparedamento a que o ser humano é
submetido.
O último trabalho da série possui maior liberdade espacial. A
tela, que representa uma parede de tijolos, está fendida do lado
direito em forma de triângulo, com um vértice próximo ao meio
do quadro. Dentro desse triângulo, três palhetas, de tamanhos
diferentes, ocupam o espaço. São elas que têm o saber e o poder
que permitem romper as barreiras de tijolos que a sociedade impõe
aos artistas.
Assim, pelo seu poder criador o artista se eterniza. E essa
transformação de idéias em obras de arte exige esforço e
domínio técnico. "Veja meu caso. Demorei 45 dias para
realizar a primeira obra, desde que ela surgiu até definir os
materiais adequados, mas, na segunda e na terceira, consumi
respectivamente, apenas uma semana e quatro dias", conta.
O grande desafio do artista, para Dante, é transformar a idéia
em realidade. Se o ponto de partida é um momento de inspiração
e de criatividade, a busca dos materiais disponíveis para
concretizar essa idéia, sejam eles tijolos, gesso, acrílico,
madeira ou chapas de eucatex pintadas é um segundo momento, que
exige reflexão.
De acordo com Roberto Dante, "todo esse processo eterniza o
artista". "Van Gogh é um exemplo. Desenvolveu uma
técnica própria, mas vendeu apenas um quadro em vida. Porém,
quantos não se inspiraram nele para se aventuram no mundo da arte
e da liberdade da criação?, indaga.
O conceito de Kennedy de que liberdade e estudo devem caminhar
juntos surge com muita forca no trabalho do artista plástico
Roberto Dante. Se em suas telas surrealistas, é o mergulho no
inconsciente e nos arquétipos que ilustra as telas, seus
trabalhos mais contemporâneos defendem a liberdade como a
mensagem maior que o artista deve transmitir à sociedade.
Para concretizar esse desafio de tornar conceito em obra e idéia
em ação, é necessário estudo e conhecimento dos materiais a
serem utilizados. Somente assim o artista pode, com a força de
sua palheta, romper as barreiras de tijolos da sociedade e
transmitir sua mensagem, livre, por ser única; e densa, por ser o
resultado de um intenso processo de experimentação estética.
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Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).
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