Roberta
Fialho
O
prazer de pintar
Carlos
Drummond, em O avesso das coisas, enunciava que “o
jardim, convite à preguiça, exige trabalho constante”. Algo
semelhante ocorre com o fazer do artista plástico. Enquanto
cada vez mais pessoas buscam na arte uma forma de terapia
ocupacional ou de relaxamento, os portadores de talento artístico
transformam a atividade – que poderia ser um lazer – num
trabalho extenuante.
A
produção de Roberta Fialho vai por esse caminho árduo. O
desenho, matriz de sua criação, pouco a pouco, deixa de ser
uma diversão, como era na infância, e se torna um projeto de
vida, esboço de exposição, busca de uma nova linguagem.
Gradativamente, é no desenho que ela encontra a sua resposta ao
mundo.
Nascida
em 9 de maio de 1977, em Santo André, SP, a artista, que cursa
Educação Artística no Instituto de Artes da Unesp, campus
de São Paulo, vem progressivamente desenvolvendo uma pesquisa
com a escrita japonesa e com o kendô, luta marcial oriental em
que os movimentos precisos são fundamentais.
Quando
está sem seus “jardins”, seja o cinema de Akira Kurosawa ou
o tênis ou as lutas orientais, Roberta os transforma em
trabalho. Fez desenhos de atletas e daqueles que participam das
artes marciais. Há neles movimento, intensidade e mistério,
ingredientes básicos de qualquer expressão plástica.
Nos
seus quadros, a cor fala muito alto, não pela intensidade em si
mesma, mas pelo seu uso para reger as composições. A presença
da figura humana é essencial, mas, mais do que uma pessoa, lá
está um objeto tecnicamente desenhado. Isso não significa carência
de humanidade.
Pelo
contrário, a técnica apurada e exercitada é colocada a serviço
da arte e da sensibilidade. As imagens que surgem têm a sua
alma revelada seja nos movimentos precisos ou no amor ao desenho
como forma de expressão. É no ato de criar que o mundo ganha
significado.
Ao
participar, em 2005, da exposição Corpos pintados, com
a pintura de três modelos em dois dias, e exercitar a sua arte,
ao vivo, com a Orquestra de Câmara da Unesp, a artista caminha
para um rápido processo de visitação de si mesma e do mundo
circundante.
Como
apontava o poeta mineiro, Roberta Fialho cada vez mais verá o
mundo como um jardim, mas está agradavelmente condenada, pelo
ofício que escolheu, a não estar ali para descansar, mas para
mostrar o seu talento, com cores intensas, estudos de
desenho e um olhar renovado a cada instante. Conservando
o prazer de pintar, o futuro trará jardins cada vez mais
complexos.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo
Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte
(AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a
arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp
e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).