por Oscar D'Ambrosio


 

 


Ritmos de Antônio Hélio Cabral

 

            Uma das palavras mais utilizadas na arte chamada contemporânea é a apropriação, ou seja, a utilização de um determinado elemento dentro de outro contexto, com novos usos e valores. O recurso pode ser utilizado de diversas maneiras, sempre levando em conta a criação de uma relação inusitada entre o objeto e o observador.

            O artista plástico Antônio Hélio Cabral mostra, em Algo-ritmo, exposição com curadoria de Antonio Peticov, na Galeria IQ, em agosto e setembro de 2006, em São Paulo, SP, um trabalho de apropriação e de interferências. Ele toma páginas de livros de matemática, de onde vem os algoritmos que intitulam a exposição, e de história universal para realizar desenhos e pinturas.

            As obras apontam como rigorosamente qualquer tipo de suporte pode ser o marco inicial de um trabalho plástico. O importante é ter um pensamento, uma coerência naquilo que o artista se propõe a fazer. Nesse sentido, Cabral segue, em sua lógica interna, a própria definição de logaritmo, a de um conjunto de operações matemáticas simples, que, juntas, na ordem certa, constituem uma operação matemática complexa.

De fato, Cabral realiza intervenções aparentemente simples nos livros, mas elas ganham em complexidade ao serem dispostas em conjuntos. Tão importante como se apropriar de um objeto é saber a intervenção que se deseja fazer nele. Esse é o segredo que o artista, nascido em Marília, SP, procura dominar.

Principalmente ao trabalhar sobre as obras de história universal, Cabral incorpora algumas ilustrações, fazendo traços sobre elas, tomando-as como um guia espacial do que deseja fazer na página. As imagens já existentes são apropriadas para se tornar algo distinto, parte de um conjunto plástico.

Quando o objeto de interferência é a matemática, ocorre uma liberdade maior, com o uso da mancha em diversas situações. Os próprios números e códigos matemáticos perdem, nesse mecanismo de apropriação, o seu sentido de um elemento das ciências exatas e se tornam sinais com valor plástico.

Passam então a interagir com as intervenções do artista paulista. Cabral extrai de cada página um aspecto lírico e mesmo poético. Um traço ou figura, por mais simples que seja, numa página de um livro, torna-se um elo diferenciado com o mundo, uma porta para a incerteza. A certeira matemática passa a participar do mundo da arte – e ali se encaixa com poesia.

Nos resultados mais expressivos, optou-se apenas pelo desenho de um detalhe, às vezes na lateral, revelando como o uso de menos tinta pode significar um melhor desempenho. A folha retirada de um livro ou mantida nele com interferências mais ou menos usadas de acordo com a ocasião, torna-se o suporte de um novo objeto, agora plástico, diferente do primeiro, com ritmos, expressões e lirismo renovados.

           

Oscar D’Ambrosio, mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 
 



 

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