Rita
Rezende
Para ver e pensar
A arte apresenta
numerosas surpresas para quem a observa e para quem a pratica.
Muitas vezes, um criador passa por fases que ele mesmo nunca
poderia imaginar, surpreendendo a si mesmo e a todos aqueles que
admiram o seu talento e a sua obra.
Rita
Rezende exemplifica justamente uma transformação estética das
mais interessantes. Oriunda de uma arte mais acadêmica e
regionalista em diversos aspectos, passa hoje por um mergulho
nas cores e formas com marcado diálogo com as formas cubistas e
principalmente com as cores de Matisse.
Nascida
em Bom Jesus do Itabapoana, RJ, em 23 de maio de 1955, Rita
lembra que a sua primeira influência artística foi o pai, que
desenhava animas como bois, cavalos e cachorros em papel de
embrulhar pão. Encantada, ela lhe pedia que continuasse a criar
esse tipo de imagem e outras ligadas ao seu cotidiano.
Por volta dos sete anos, conheceu as primeiras bisnagas
de tinta a óleo. Do mesmo modo que lembra até hoje daquele
cheiro encantador, mantém a fascinação não só de pintar,
mas observar o trabalho de qualquer artista em frente a uma
tela. Esse amor pela arte a leva hoje a ser sócio-proprietária
do Arcobaleno Atelier, onde desenvolve pintura em tela,
porcelana e vidro, além de produzir painéis em azulejo, cenários
para ballet e numerosos trabalhos para eventos
Outra
referência da infância são os passeios em que aprendeu a
contemplar a natureza. Cipós retorcidos, flores silvestres e a
beleza das montanhas passaram
a ser imagens que levou mais tarde para suas telas. De certo
modo, elas a acompanham até hoje, só que não mais com a técnica
realista antes utilizada.
A
fonte de referências que Rita Rezende bebe inclui a
licenciatura em Desenho e Artes Plásticas pela Fundação
Universidade Mineira de Arte e o fato de ter morado em diversos
lugares do Brasil. Passou pela Amazônia, onde pintava as populações
ribeirinhas, por Porto Velho, Rondônia, onde começou a se
dedicar de fato à arte, e,a partir de 1993, reside em Cuiabá.
Toda
essa experiência biográfica possivelmente tem influência na
facilidade da artista para trabalhar com diversas tonalidades de
verde. Mesmo ao passar por diversos estilos, mantém algumas
características diferenciadoras em ternos de composição pictórica,
principalmente no que diz respeito a alguns elementos regionais.
Ao
tratar, por exemplo de Mãe Bonifácia, um ícone da cultura
cuiabana, revela sua capacidade de composição ao colocar a
imagem feminina, quase divina, em simetria a uma janela, numa
composição que aumenta
a dignidade da figura humana e a coloca numa certa perspectiva
transcendente.
A
mesma solenidade pode ser observada nos potes cuiabanos em
composições articuladas como naturezas-mortas ou junto a
janelas. Outros elementos simbólicos e regionais significativos
são a viola de cocho, instrumento próprio do Mato Grosso, e
diversas frutas da região norte e centro-oeste do país.
O
atual momento da carreira de Rita Rezende retoma esses temas sob
uma nova perspectiva. A fragmentação cubista mescla-se ao
exercício visual colorístico das colagens de Matisse numa solução
plástica que surpreende positivamente pelo resultado atingido e
pelo percurso anterior do artista.
Elementos
da fauna, como peixes e aves, e da cultura amazônica,
principalmente a infinita capacidade de desdobramento imagético
e colorístico de potes regionais, ganham na obra de Rita
Rezende uma mescla saudável e inquietante entre a o melhor do
modernismo europeu e o que há de mais belo na arte regional
brasileira.
Sempre
se valendo de sua capacidade artística para oferecer
criatividade somada a talento, Rita, com um trabalho em
constante mutação e pesquisa, mostra aquilo que a história da
arte já provou: somente quem conhece os ditames da arte mais
conservadora pode se atrever a desafiá-los, oferecendo repostas
estimulantes aos olhos e ao pensamento.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de
Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos
de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando
a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora
Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).