por Oscar D'Ambrosio


 

 


Rita Lessa

 

            A poética do simples

 

            Albert Einstein (1879-1955) acreditava que “tudo deveria ser tornado tão simples quanto possível, mas não mais simples que isso”. Nessa frase está a profunda sabedoria que combate a ignorância e vaidade que geralmente se escondem em discursos altamente rebuscados que procuram “entender” as artes plásticas.

            A artista plástica Rita Lessa, que mora e trabalha em Belo Horizonte , mas tem uma loja em Bichinho, distrito do município de Prados, próximo a Tiradentes, em Minas Gerais , aplica o pensamento do cientista alemão ao seu cotidiano, nas suas mais diversas criações.

            De fato, a criadora apresenta duas facetas que se complementam: a de criadora visual propriamente dita, com desenhos de características naïf  marcados pela presença da fauna e da flora brasileiras e ainda figuras humanas que funcionam como autênticos bonecos em sua construção simples e até esquemática.

            Ao pintar em tela e em linho, consegue evocar um universo infantil marcado por uma visão da realidade quase virgem. Seus trabalhos têm justamente essa pureza que conquista logo num primeiro olhar pela diversidade de representações que atinge sem banalizar as próprias construções visuais.

            A outra vertente inclui a criação de um sem-número de objetos artesanais de consumo, que incluem toalhas, jogos de cama, biombos, enfim, os mais diversos produtos que se multiplicam à frente do observador como uma cachoeira de referências visuais, com a forte presença de frutas, flores e plantas.

             É, porém, em seu desenho, que Rita Lessa se diferencia. Há ali uma força motriz de criação que parece brotar de um vínculo profundo com aquilo que mais nos torna humanos: as referências infantis e a valorização da memória pessoal. Talvez dali ela retire o frescor de sua lírica.

            A forma das árvores, com traços retos pintados no interior, com copas oblongas, achatadas na horizontal, constitui uma sutil marca registrada, assim como a divisão do espaço, que cria áreas diversas, bem delimitadas, cada uma com uma cor a dialogar com as vizinhas e as mais distantes, criando os mais variados efeitos de composição.

            A ocupação do espaço, mesmo nos trabalhos de estilo mais comercial, busca não seguir a regularidade acadêmica. Os propositais desequilíbrios constroem um equilíbrio próprio e inimitável. Está ali a unidade de um pensamento visual que surpreende em cada peça, que exige uma olhada atenta para não ser banalizada.

            O poeta Roberto Alvim Corrêa (1901-1983), quando, em Anteu e a crítica, afirmou que “o simples é o contrário do fácil”, não poderia imaginar como essa idéia se faz presente nas criações de Rita Lessa. O universo mental trabalha justamente com aquilo que parece simples à primeira vista, mas é possuidor de uma intensidade poética muito distante do que se poderia chamar de “fácil”.

            Rita Lessa oferece surpresas a cada nova criação pela multiplicidade de idéias que afloram em seu pensamento. Seja nas figuras de animais ou nas humanas, propicia uma relação com o mundo marcada pela fantasia, pela capacidade de ser simples, sem a simplicidade dos alienados ou o caráter simplório da falta de intencionalidade. Há nela a autenticidade que lhe confere um diferencial plástico que, esperamos, não seja perdido com o passar dos anos.      

             

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 
 
 

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