por Oscar D'Ambrosio


 

 


Rita Braga

 

            A arte de voar

 

            “Não vemos as coisas como elas são e sim como nos parecem”. Esse pensamento do Talmud pode ser aplicado ao trabalho plástico de Rita Braga. Suas colagens, apropriações e desenhos com nanquim revelam justamente a capacidade de ver o mundo sob um prisma original, oferecendo ao observador de seu trabalho a possibilidade de refletir sobre a realidade de uma maneira renovada.

            Entre as técnicas apresentadas pela jovem artista, a sua habilidade com a colagem logo desperta atenção. Suas obras evocam o mestre Henri Matisse, que chamava o seu processo criativo de “desenho com tesouras”. É exatamente o que Rita faz. Corta figuras em papéis coloridos e cria as mais diversas imagens, com numerosas leituras, geralmente ambíguas em jogos de integração entre a figura e o fundo.

            Suas composições impressionam pela habilidade de resolver questões de composição em poucos movimentos. A idéia geralmente já surge bem nascida, bastando encontrar a melhor forma de concretizá-la – o que é feito com admirável regularidade na qualidade do material apresentado.

            Nascida em Guarulhos, SP, Rita reside na cidade de São Paulo desde 2001 e teve seus primeiros contatos com arte no ateliê de Tigr Orlow e na Viveka Escola de Artes. Com licenciatura em Hebraico e Português na USP, além de disciplinas na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e na Escola de Comunicações e Artes, todas na USP, foi  criando um repertório visual e literário que inclui por exemplo o estudo de Literatura Infantil e Juvenil, o que desenvolve a possibilidade de ilustrações na área.

            As ilustrações em pequenos cartões, com nanquim, lápis de cor e grafite, em boa parte realizadas nas performances “Arte Postal Itinerante”, em que, com Sidnei Akiyoshi, abordavam pessoas na região da Avenida Paulista, em São Paulo, SP, com trabalhos em pequeno formato, mostram ampla capacidade de tratar de diversos temas de formas bem distintas.

            De modo geral, a temática das janelas surge  em sucessivas manifestações. Seja com uma imagem por trás ou como uma alternativa de escape para variados personagens. As janelas aparecem como um universo em que podem surgir novas possibilidades de visualizar o mundo.

A imagem de seres urbanos também se faz bastante presente, seja em cenas noturnas ou em colagens em que sucessivos perfis metropolitanos são associados de modo a oferecer diversas paisagens da cidade, tanto dos edifícios como da movimentação de pessoas, principalmente com o fundo em papel preto.

            Figuras que parecem despegar do solo também aparecem, seja nas colagens ou nos desenhos em nanquim. Um caso característico é Menino árvore, em que as pernas/tronco firmemente presas ao chão contrastam com os braços/galhos em busca do céu.

Esse movimento verticalizado que lembra o sonho do mítico personagem grego Ícaro de atingir o sol, que terminou em tragédia devido a sua incapacidade de seguir o conselho paterno de voar entre a água salgada e o sol escaldante ambos igualmente perigosos para suas asas de penas grudadas com cera e sua mente jovem e desmedidamente ambiciosa.

Acumuladora por natureza, Rita se vale dos recortes e da colagem também para a critica social, principalmente nas imagens que constrói com caixas de anticoncepcionais na figura de homens segurando cruzes nas mãos. A combinação das imagens com as palavras das próprias embalagens constroem um universo em que a apropriação da realidade para fins poéticos se torna evidente.

Saber ver as coisas como lhe parecem é o grande mérito de Rita Braga. Ela não acredita naquilo que está ao seu redor e que a maioria enxerga. Recorta, cola, desenha, pinta, desmonta/monta e cria o próprio mundo. Como artista plástica que é, busca o ilimitado. Tal qual Ícaro, busca os céus, mas, ao contrário dele, se mantiver o cérebro livre para criar e as mãos livres para recortar, desenhar e pintar, poderá permanecer voando ao longo de sua promissora carreira.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

 
 Diane 35 
apropriação/colagem sobre papel 10cm x15,5 cm 2005

 Rita Braga  

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio