Rita
Bassan
Espirais no mundo urbano
A exposição Urbe, da artista
plástica Rita Bassan, convida a uma breve reflexão sobre as
possibilidades das formas para expressar algum tema, seja ele urbano,
rural, fantástico ou numa linha abstrata em que a pintura se debruça
sobre si mesma em pesquisas que prescindem da figuração.
Se pensarmos
que a obra de arte surge de um tripé entre um determinado material, um
assunto específico e a forma como esses dois elementos são tratados,
podemos refletir sobre cada trabalho como um universo em que são
geradas indagações e buscadas respostas para o fazer de cada artista.
Nesse
aspecto, Rita Bassan encontrou, em seus personagens construídos com
formas espiraladas na vertical, uma resposta própria para a representação
da complexidade do ser humano. O desafio é a colocação desses seres
em diferentes cenários, situações e momentos.
Em Festa
na avenida, por exemplo, ao trabalhar os espirais com a cor, opta
por um fundo em que elementos se mesclam num jogo de serpentinas. O
resultado é surpreendente pela empatia visual criada no observador. Há
ali uma vibração pictórica que constrói uma atmosfera.
Na série Infância
na rua, em contrapartida, em que fundos de várias cores se mesclam
e sobrepõem, o resultado, embora agradável, não se revela tão
original ou cativante. A espontaneidade do primeiro trabalho parece ser
um caminho possível a ser percorrido em busca de uma linguagem cada vez
mais diferenciada.
Outro
percurso ocorre em telas como O porto. O geometrismo ganha a
maior parte da tela e a figura humana se faz presente de maneira
diminuta. Trata-se de um caminho dos mais interessantes, já presente no
painel Sampa, de 2003, que rendeu a Rita o Prêmio Soft Travel
Internacional de viagem a Nova Iorque.
Formada em
Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo, a artista,
nesta primeira exposição individual pode – e talvez até deva –
trabalhar com as várias vertentes, que surgem como possibilidades de
diversos novos trabalhos. Grande mérito é ter caminhos próprios,
desafiador é saber qual escolher a cada novo passo na carreira.
Cãoportado
é um trabalho que, nas três figuras centrais, com destaque para a
moça do centro que leva o cão pela coleira, aponta para uma
alternativa das mais curiosas, pois as personagens ganham um cenário
realista, que, talvez, no futuro, possa sair cada vez mais de cena.
Seres
diminutos em ambientes geométricos ou personagens em primeiro plano em
cenários indefinidos parecem articular uma encruzilhada conceitual,
pois levam às escolhas que já mencionamos: material, tema e forma de
combinar esses dois elementos. Dentro do universo urbano (tema) e da
tinta acrílica o técnicas mistas bidimensionais (material), fica variável
da maneira de compor seus trabalhos.
As trajetórias
apontadas pela exposição Urbe são igualmente prolíficas. Seja
no destaque ao cenário ou à figura, Rita Bassan pode firmar seu nome a
partir desta primeira jornada. Para acertar os próximos passos, basta
confiar na sua sensibilidade e capacidade técnica. Poderá assim sair
das encruzilhadas que seu próprio trabalho sugere e motiva como ponto
de partida para futuras reflexões e produções estéticas.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor,
entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América)
e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).