Ricardo Sanzi
A representação
ilimitada
Goethe (1749-1832), o
grande mestre da poesia alemã, aponta que “É na limitação
que se revela o mestre”. Justamente pela extrema consciência da
função do artista – o mergulho em constantes pesquisas em
busca do melhor resultado – que Ricardo Valery Sanzi obtém
imagens de rara qualidade, fruto de um talento somado a um
trabalho árduo constante.
Nascido em 31 de maio de
1956, Sanzi tem contato com artes plásticas desde criança.
Cresce junto com o artista Rubens Matuck, com quem se aprofunda no
aprendizado da aquarela, desenho, nanquim, ponta de prata, pastel,
guache e história da arte. O estudo dessas numerosas técnicas
lhe dará a versatilidade necessária para a reflexão e a
prática artística.
Formado em arquitetura
pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Santos, em 1981, faz
projetos de residências unifamiliares e edifícios comerciais em
São Paulo e Guarujá, mas seu talento artístico falou bem mais
alto na atividade que desenvolveu, nos anos 1970, ao trabalhar com
ilustrações ao vivo de entrevistados de programas da TV Cultura.
Entre 1985 e 1990, Sanzi
atuou ainda como ilustrador dos jornais O Estado de S. Paulo e
Jornal da Tarde, podendo aplicar nessa atividade aspectos
constantes de sua obra: a criatividade, a capacidade de
desenvolvimento gráfico de qualquer tema e o desenho. Fez nesse
período grande número de trabalhos, que revelam fluidez e um
traço marcante.
Entre 2000 e 2003,
ministra cursos de História da Arte – Pintura Italiana (Dos
etruscos ao renascimento); Arte, Natureza e Paisagem; e o curso
Pintura, história e técnica. Nesse percurso em que a faceta de
artista se une à de professor e estudioso, foi curador da Mostra
Aquarela na Ilustração, realizada dentro da programação da 1ª
Quadrienal Internacional de Aquarela, em São Paulo, em 2003.
Num primeiro momento, a
obra de Sanzi parece marcada por pinceladas impressionistas, mas
uma análise mais atenta revela o uso de cores e traços próximos
ao expressionismo, o que gera um estilo bastante pessoal no uso de
diversas técnicas, como acrílica, nanquim e guache, aquarela e
nanquim ou óleo.
Quando trabalha com
figuras humanas, por exemplo, o artista se vale de cores terrosas
e do azul. Surgem elementos como livros, o mundo urbano, a janela,
a máscara. Ficam assim evidenciados alguns dos elementos que
alimentam o imaginário de Sanzi, como a sua formação acadêmica
de arquiteto, que o leva a adotar interessantes estruturas em suas
criações.
Em relação à janela, o
artista revela uma postura própria do voyeur. Espia realidade que
estuda em suas formas e linhas e no conteúdo daquilo que leu e
observou. No entanto, tudo isso é visto por um olhar irônico e
questionador, próprio da commedia dell’arte. As relações
humanas e do homem com o mundo que o cerca ganham assim uma nova
dimensão, em que as fronteiras entre o chamado real e a sua
representação vão se diluindo.
Obras como Andarilho, por
outro lado, mostra, o talento de Sanzi de lidar com as grisáceas,
em imagens muito próximas ao dadaísmo e ao surrealismo. Essa
dificuldade de classificar o seu estilo é justamente uma das
maiores riquezas do artista, pois ele não se rende a
classificações fáceis e questiona – e desafia – a nossa
capacidade de interpretação.
Elementos como árvores,
metáfora da energia vital, e janelas, a passagem e as
transformações do ser humano, são bastante presentes em sua
pintura, do mesmo modo que rosáceas que retomam o universo da
mencionada commedia dell’arte em sua infinita capacidade de
delinear aquilo que o ser humano tem – ao mesmo tempo – de
mais sublime e de mais grotesco.
Não é por acaso que um
dos artistas preferidos de Sanzi é o alemão Georg Grosz
(1893-1959), desenhista, gravador e pintor alemão ligado ao grupo
dadaísta de Berlim no final da década de 1910. O artista
germânico, com suas caricaturas ferozes e crítica social
corrosiva, foi obrigado a se exilar nos EUA, mas deixou um legado
que Sanz apreendeu muito bem: o amor à liberdade de criar, seja
em seus diversos estudos de formas e cores a partir de moringas ou
em gravuras de bordéis em que as imagens e traços encontram um
parentesco artístico nos trabalhos mais densos do imortal Goya.
As máscaras da commedia
dell’arte, os tons peculiares do azul e amarelo e as figuras
humanas enigmáticas, seja de braços cruzados ou junto a janelas,
são ícones da arte do artista paulista. Há nele uma
sensibilidade imensa e uma delicada humildade que vêm à tona em
suas criações com intensidade. Seu limite é ser Ricardo Sanzi.
E isso já lhe basta para assegurar seu nome como um dos artistas
mais talentosos e multifacetados e – infelizmente – ainda
menos conhecidos de sua geração.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de
Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de
Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do
pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial
do Estado de São Paulo).