Ricardo
Davino
O retrato
sumido
Um dos
grandes segredos da arte é saber onde está a fronteira, se ela
existe, entre aquilo que o artista deseja
dizer e aquilo que ele consegue dizer sem desejar. A questão,
já colocada, por exemplo, por Marcel Duchamp, em seu texto O ato
criador, em 1957, encontra ressonância na forma como o artista
Ricardo Davino conduz o seu processo de criação.
Há nele
uma veia criativa que comporta tanto a pesquisa estética como um
pensamento filosófico sobre aquilo que se propõe a fazer. Seu
trabalho de conclusão de curso, em 2005, para o bacharelado em Artes
Plásticas do Instituto de Artes da Unesp, campus de São Paulo, traz
à tona uma dualidade rica em conotações.
Intitulado
(Re)parados, o trabalho lida com o estático em duas dimensões.
A primeira diz respeito ao poder do registro fotográfico de congelar
e imortalizar o tempo. A segunda consiste no fato de as imagens
selecionadas mostrarem pessoas igualmente paradas, olhando o vazio,
uma paisagem ou, na maioria dos casos, mergulhadas em si mesmas.
A questão
que surge dessas dimensões é a impossibilidade de parar o tempo, mas
a possibilidade de reparar nele. Se o tempo não estaciona, ele pode
ser, de alguma forma, dominado pela arte. E não é à toa que a
associação do criador plástico com um demiurgo ou mesmo um Deus é
tão recorrente entre artistas e críticos.
Ao
reprocessar em serigrafia fotos originais, Davino dilui a imagem
primeiro e explora, à exaustão, os silêncios e os brancos. Captar a
imagem e imprimi-la em serigrafia é muito mais que um exercício técnico.
Torna-se uma prática artística e existencial, pois o tempo se dilui
em cada imagem.
A importância
do uso do branco ultrapassa o plástico para atingir o metafísico.
Torna-se a grande alegoria de desmanche da realidade em nome de uma
outra dimensão. Não se trata do onírico, mas da diluição dos
limites entre o ser e o não-ser para uma categoria intermediária em
que é possível “não ser sendo”.
A
serigrafia, pela forma como é tratada pelo artista, foge do realismo
fotográfico. O ser da fotografia original torna-se um não-ser, ou
seja, arte. Esse não-ser, porém, também é algo, impresso no
suporte papel. E o mais significativo que esse “não ser sendo”
constitui um momento de reflexão sobre o que é a arte e sobre o que
é a vida.
As oito
fotos utilizadas como ponto de partida apresentam pessoas em posições
passivas, sentadas ou recostadas em sofás. Imersas nelas mesmas ou
observando a natureza, mostram a contemplação, o estático, a reflexão.
São um momento de parada em meio à maratona de cada um para
sobreviver.
Podem
ser vistas como portais para uma nova dimensão de tempo, marcada pela
diluição apontada no relógio derretido de Dali, um ícone da arte
contemporânea, muitas vezes relegado a planos menos importantes pelo
certo preconceito que circunda o artista espanhol pelo seu desejo de
auto-promoção.
Um
senão dos trabalhos, que termina por coibir as leituras possíveis
dos observadores, está na escolha de títulos de alguma maneira
pomposos e literários, que pouco parecem contribuir para o resultado
final, pois indicam um caminho de leitura, algo feito com mais
propriedade na escolha do nome do projeto.
Davino
aponta como referências Edward Hopper, por partir da realidade em
seus trabalhos, Lucian Freud, pelo fato de desenvolver uma pintura em
que o processo técnico chama mais atenção do que o próprio objeto
retratado, e o escultor Antony Gormley, pelo pensamento visual que seu
trabalho comporta, tendo no corpo um índice da reflexão sobre o
tempo e o espaço.
Os
retratos fotografados somem nas serigrafias. As figuras são diluídas
num processo derrisório em que permanecem marcas do que foi o retrato
original. A poesia e o lirismo surgem num novo mundo visual para
aqueles retratos. Eles deixam de ser o que eram para se tornar uma
outra coisa, nova e instigante, retrato de um tempo em que o não-ser
prevalece perante a dificuldade de cada pessoa ter o seu próprio espaço
de reflexão e de inserção no mundo perante a globalização e a
comunhão compulsiva.
Sozinho
na multidão, como já apontava Poe, o homem moderno, quando se pega
num instante de reflexão solitária, começa a desaparecer. Passa a
ser mais um anônimo, um ser sem lenço e sem documento na rotina do
existir e de caminhar do nada para lugar algum, às vezes sem sequer
se dar conta disso.
Torna-se
um vazio, quase uma abstração de si mesmo a se buscar no espaço,
onde nem para ele há lugar. Sem alternativa, esquece-se de si mesmo
e, pela arte, em seus melhores momentos, pode expressar esse
sentimento desejado e, talvez, dizer o que sequer pretendia, mas que
um trabalho plástico consistente, como o de Ricardo Davino, indica,
sem espetáculos pirotécnicos, mas com delicadeza e sutil maturidade.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes da Unesp e integra a Associação Internacional de Críticos de
Arte (AICA – Seção Brasil)