Entre a
técnica e as vísceras
Olhar
uma imagem bidimensional e ficar indeciso se aquilo se trata de uma
pintura ou de uma colagem é um dos princípios que orienta a produção
artística de Ricardo Akira Sanoki. Um sucessivo aperfeiçoamento da
técnica conhecida como colagem digital o fez chegar ao estágio em
que se torna difícil dizer se o resultado final é gerado
diretamente pela mão
humana ou se aquilo se trata de efeito de computador.
O
trabalho de colagem digital, com florais, ganha destaque em sua
produção, num universo em que a linguagem visual própria do design
se destaca. Nesse aspecto, obras posteriores, em que começa a haver
uma gradativa exploração das áreas não preenchidas como recurso
estético, oferecem num produto final mais limpo, em que o lirismo
ganha espaço.
De fato,
esse tom menos carregado já se faz presente em obras anteriores em
diversos suportes, como acrílica sobre papel madeira e guache e
grafiti sobre papel. Talvez o grande segredo para os caminhos
futuros seja justamente a recuperação da leveza do sonho e seu
trabalho em formato digital sem perder a espontaneidade, num
sucessivo processo em que ocorra a somatória do conhecimento técnico
e plástico do desenho com a utilização de programas
computacionais.
Bacharel
em Artes Plásticas pelo Instituto de Artes da UNESP, campus de São
Paulo, Akira traz
consigo diversas referências, explicitadas em seu trabalho de
conclusão de curso, orientado pelo docente Pelópidas Cypriano de
Oliveira. Entre eles, os recortes de papel de Matisse, feitos no
final da vida do artista, já acamado.
Outra
referência obrigatória, principalmente nas colagens digitais, está
nas composições de áreas marcadas por linhas horizontais e
verticais, que, segundo Mondrian, indicavam a vitalidade e a tranqüilidade,
além do uso das cores primárias (vermelho, azul e amarelo), com
pouca presença do verde ou das neutras (branco, preto e cinza).
A
reprodutibilidade sem receio apontada por Andy Warhol,
principalmente em suas serigrafias, os efeitos de luz
impressionistas, que também não utilizavam o cinza e o preto, são
outras referências importantes para a criação de uma linguagem própria,
marcada pelo uso da cor e da composição como elementos
fundamentais.
A
utilização da fotografia como ponto de partida para o trabalho plástico,
assim como o aspecto visceral do expressionismo abstrato
norte-americano e a apropriação de elementos da sociedade de
consumo, como a história de quadrinhos, tem ainda um papel
influenciador. Dürer, com suas gravuras, e Caravaggio, com sua
biografia rebelde, são referenciais citados.
Desse
caldeirão, surgem, além de diversos trabalhos plásticos, com
destaque para as colagens digitais, produções em vídeo arte,
sendo uma delas, “Espelhos distantes”, a mais significativa em
termos de um questionamento do fascinante processo que envolve esse
objeto, tão essencial no mundo contemporâneo, pois o vídeo cria
uma realidade impossível, na qual aquilo que o protagonista da ação
e o público vêem no espelho é algo absolutamente improvável, no
caso, as costas daquele que está de frente ao espelho.
Esse
estranhamento presente no vídeo pode, como opção estética, ser
também levado para o trabalho bidimensional do artista. Quando
utiliza imagens de flores, de uma ponte ou de amigos no processo de
colagem digital, talvez seja saudável se valer da ousadia dos
projetos em vídeo.
O
pensamento bidimensional poderia, assim, se afastar das fronteiras
com o design e,
sustentado pela técnica, alcançar um elevado cruzamento entre a
habilidade aprimorada com o desenho e o domínio dos numerosos
recursos gráficos que diversos programas de computador oferecem.
O
resultado desse processo pode ser, com sucessivo amadurecimento e
constante pesquisa, uma mescla das principais qualidades dos
artistas pelos quais Akira manifesta admiração: as cores de
Matisse, o esmero de composição de Mondrian e o efeito
transgressor de Caravaggio.
Assim,
as flores hoje justapostas em camadas sucessivas de cores poderão
vir a ser o ponto de partida para o estabelecimento de uma jornada lírica
e poética em que uma progressiva limpeza estética corresponderá a
um adensamento e verticalização da visão da arte como a somatória
entre o domínio técnico do fazer e o processo de realização
visceral propriamente dito.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes Visuais da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos
de Arte (AICA-Seção Brasil)