por Oscar D'Ambrosio


 

 


Ricardo Akira Sanoki

 

            Entre a técnica e as vísceras    

 

            Olhar uma imagem bidimensional e ficar indeciso se aquilo se trata de uma pintura ou de uma colagem é um dos princípios que orienta a produção artística de Ricardo Akira Sanoki. Um sucessivo aperfeiçoamento da técnica conhecida como colagem digital o fez chegar ao estágio em que se torna difícil dizer se o resultado final é gerado diretamente pela  mão humana ou se aquilo se trata de efeito de computador.

            O trabalho de colagem digital, com florais, ganha destaque em sua produção, num universo em que a linguagem visual própria do design se destaca. Nesse aspecto, obras posteriores, em que começa a haver uma gradativa exploração das áreas não preenchidas como recurso estético, oferecem num produto final mais limpo, em que o lirismo ganha espaço.

            De fato, esse tom menos carregado já se faz presente em obras anteriores em diversos suportes, como acrílica sobre papel madeira e guache e grafiti sobre papel. Talvez o grande segredo para os caminhos futuros seja justamente a recuperação da leveza do sonho e seu trabalho em formato digital sem perder a espontaneidade, num sucessivo processo em que ocorra a somatória do conhecimento técnico e plástico do desenho com a utilização de programas computacionais.

            Bacharel em Artes Plásticas pelo Instituto de Artes da UNESP, campus de São Paulo,  Akira traz consigo diversas referências, explicitadas em seu trabalho de conclusão de curso, orientado pelo docente Pelópidas Cypriano de Oliveira. Entre eles, os recortes de papel de Matisse, feitos no final da vida do artista, já acamado.

            Outra referência obrigatória, principalmente nas colagens digitais, está nas composições de áreas marcadas por linhas horizontais e verticais, que, segundo Mondrian, indicavam a vitalidade e a tranqüilidade, além do uso das cores primárias (vermelho, azul e amarelo), com pouca presença do verde ou das neutras (branco, preto e cinza).

            A reprodutibilidade sem receio apontada por Andy Warhol, principalmente em suas serigrafias, os efeitos de luz impressionistas, que também não utilizavam o cinza e o preto, são outras referências importantes para a criação de uma linguagem própria, marcada pelo uso da cor e da composição como elementos fundamentais.

            A utilização da fotografia como ponto de partida para o trabalho plástico, assim como o aspecto visceral do expressionismo abstrato norte-americano e a apropriação de elementos da sociedade de consumo, como a história de quadrinhos, tem ainda um papel influenciador. Dürer, com suas gravuras, e Caravaggio, com sua biografia rebelde, são referenciais citados.

            Desse caldeirão, surgem, além de diversos trabalhos plásticos, com destaque para as colagens digitais, produções em vídeo arte, sendo uma delas, “Espelhos distantes”, a mais significativa em termos de um questionamento do fascinante processo que envolve esse objeto, tão essencial no mundo contemporâneo, pois o vídeo cria uma realidade impossível, na qual aquilo que o protagonista da ação e o público vêem no espelho é algo absolutamente improvável, no caso, as costas daquele que está de frente ao espelho.

            Esse estranhamento presente no vídeo pode, como opção estética, ser também levado para o trabalho bidimensional do artista. Quando utiliza imagens de flores, de uma ponte ou de amigos no processo de colagem digital, talvez seja saudável se valer da ousadia dos projetos em vídeo.

            O pensamento bidimensional poderia, assim, se afastar das fronteiras com o design e, sustentado pela técnica, alcançar um elevado cruzamento entre a habilidade aprimorada com o desenho e o domínio dos numerosos recursos gráficos que diversos programas de computador oferecem.

            O resultado desse processo pode ser, com sucessivo amadurecimento e constante pesquisa, uma mescla das principais qualidades dos artistas pelos quais Akira manifesta admiração: as cores de Matisse, o esmero de composição de Mondrian e o efeito transgressor de Caravaggio.

            Assim, as flores hoje justapostas em camadas sucessivas de cores poderão vir a ser o ponto de partida para o estabelecimento de uma jornada lírica e poética em que uma progressiva limpeza estética corresponderá a um adensamento e verticalização da visão da arte como a somatória entre o domínio técnico do fazer e o processo de realização visceral propriamente dito.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes Visuais da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil)

 

 
 

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 Série Flores II 
fotomontagem digital 127x90 cm 2005

Ricardo Akira

 

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