por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

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R. Godá

 

            A máquina do mundo

 

            Entender o funcionamento da mente do artista plástico  goiano R. Godá é o primeiro desafio que vem à tona ao se observar seus desenhos e pinturas com tinta acrílica. Cada obra funciona como uma autêntica máquina do mundo, ou seja, um universo bem acabado, mas que desperta múltiplas questões sobre o seu funcionamento.

            A própria expressão “máquina do mundo” vem à tona porque o processo construtivo de Godá é, em alguns aspectos, semelhante a dois artistas da palavra que se valem explicitamente da metáfora constante da capacidade humana de inventar: o português Luís Vaz de Camões, no século XVI, em Os lusíadas, e o mineiro Carlos Drummond de Andrade, em 1951, no poema “A máquina do mundo”, inserido no livro de poemas Claro enigma, pleno de resignação diante da condição humana e de interrogações de cunho existencial.

            No canto X de seu texto épico, Camões coloca a nereida Tétis apresentando a  Vasco da Gama a miniatura do universo. Trata-se de um prenúncio das glórias futuras a que estariam destinados os portugueses. Do alto de um cume, após a chegada às Índias e a recompensa na Ilha dos Amores, o  navegador contempla um todo deslumbrante, sublime, de intenso brilho.

            Em contrapartida, nos versos drummondianos, repletos de angústia existencial, a máquina do mundo é encontrada por acaso por alguém que vaga, sem rumo, por uma cidadezinha qualquer. Ela surge numa atmosfera desértica, solitária, sem som e brilho. O homem que a encontra, por sua vez, está exausto e cético, sem perspectiva de glórias. Por isso, já sequer tem forças ou interesse por aquilo que a máquina possa revelar.

            A arte de R. Godá mescla essas duas vertentes. Por um lado, suas máquinas e invenções pictóricas e gráficas revelam o otimismo de quem se alimenta de experiências pessoais, desenhos animados, brinquedos artesanais e manifestações populares. Por outro, obriga a pensar por que a realidade em que vivemos não é melhor, mais pura e criativamente mais rica, como a da infância

            Nascido em Goiânia, GO, em 1980, o artista, com admirável dedicação ao trabalho e grande liberdade criativa, encanta principalmente pela quantidade de informação que cada obra proporciona. Premiações em eventos diversos, como a Bienal de Arte Naïf de Piracicaba, SP, em 1998 e 2004, e eventos ligados à arte contemporânea, como integrar a Coleção Gilberto Chateaubriand e os prêmios aquisição no Museu de Arte Moderna da Bahia (2006) e no Museu de Arte da Pampulha (2000), comprovam a dificuldade de classificar a sua produção.

            De fato, colocar o jovem artista em uma caixa com nomenclatura não vai auxiliar muito a conhecer melhor a sua forma de composição. Há ali uma grandiloqüência camoniana e renascentista, no sentido de acreditar na capacidade humana de fazer, refazer e reinventar. Mas existem também infinitas questões existenciais e inquietações que coloca ao mostrar que o mundo que oferece por intermédio de sua arte é muito mais interessante que aquele no qual vivemos.

            O diferencial de Godá está na capacidade de articular o fato de ser autodidata com uma capacidade erudita e ímpar de olhar ao seu redor. O que coloca sobre telas e papéis são interpretações daquilo que o rodeia com uma originalidade difícil de encontrar no panorama contemporâneo das artes plásticas, onde algumas mesmas idéias são repetidas à exaustão.

            Se a máquina de Camões é uma exaltação das capacidades do ser humano e a de Carlos Drummond de Andrade, uma desilusão com esse poderio, a de R. Godá põe a própria habilidade de criar as mais diferentes máquinas, via pensamento e manipulação de materiais, no centro do cenário.

            O artista cria o seu universo com sutis variações, seja no trabalho em colorido ou em preto e branco, e, principalmente, na criação de estruturas marcadas pela riqueza de composição de linhas. Elas constroem, acima de tudo, um panegírico da capacidade humana de criar.

            A máquina do mundo de R. Godá é a do encantamento. O artista nos faz voltar à infância, no sentido de trazer o prazer de simplesmente inventar, sem compromisso com explicações, retóricas ou poéticas. Dando vazão aos seus desejos e memórias, ergue um castelo de inventividade, no qual o ser humano sai valorizado, pois, mesmo quando decepcionado, mantém a capacidade de manifestação e, quando isso ocorre por meio da arte, a fé no potencial humano se mantém, apesar de tudo, de pé.           

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

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 Engenhoca Mágica II
acrílica sobre tela 69 x 69 cm 2004

R. Godá

 

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