por Oscar D'Ambrosio


 

 


   Restos de um naufrágio

 

            O conjunto de 30 obras doadas pelo pintor e escultor Cipriano Souza ao Museu de Arte Popular de Diadema, SP, em abril de 2008, constitui um trabalho de expressiva realização plástica. Está ali a alma de um artista de matriz popular que soube transformar restos de objetos encontrados próximos a sua residência, na capital paulista, em uma prova de como os mais diversos materiais aparentemente sem uso podem ganhar uma nova conotação se organizados dentro de uma coerente poética visual.

            Nascido em 6 de novembro de 1970, no Arraial de São Domingos, município de Manoel Vitorino, no sertão do Estado da Bahia, Cipriano Souza é pintor de obras que criam áreas de cor semelhantes à chita, tecido de algodão com desenhos de grandes áreas coloridas. Ele mostra ainda, no conjunto doado, ser um denso mergulhador também na arte de se apropriar de objetos.

            Realiza assemblages, ou seja, justaposições a partir de pregos, madeira e outros materiais do cotidiano. O termo foi consagrado nas artes a partir da década de 1950, quando Jean Dubuffet começou a utilizá-lo  para descrever o conceito de que todo material pode ser incorporado a uma obra de arte. Além disso, essa soma de elementos  cria um novo conjunto, onde cada peça, embora possa ser identificada isoladamente, ganha um novo sentido.

            Além dessa questão conceitual, o uso de materiais como madeira permite a ultrapassagem das limitações do bidimensional rumo a um diálogo aberto com a escultura, que explora o espaço dimensional e interações variadas com questões de luz e sombra.

As assemblages de Cipriano expressam uma visão de mundo revelada pela libertação da dor do existir por meio da arte. Isso o leva a retomar memórias de infância e de adulto em busca dos caminhos que a vida o fez perseguir, percorrer, encontrar e perder. 

            O conjunto de trabalhos, realizado entre 2003 e 2008, remete a restos de um naufrágio que o artista faz ressurgir pela arte de dar formação plástica a objetos anteriormente dispersos, como chaves, garfos, arames, madeira e tampinhas de garrafa de refrigerante, entre muitos outros.

Se considerarmos um diário um universo de memórias, onde cada um organiza o que vivencia da maneira que julga melhor, Cipriano realiza essa jornada numa seleção de instantes, sensações e emoções que mais valoriza em determinados instantes da própria vida.

            A idéia da escolha de material associa-se com a condição de solidão do náufrago, que, perdido em local geralmente deserto, vale-se daquilo que tem para sobreviver. Além disso, lança suas mensagens desesperadas ao mar, confiante que seus apelos o levarão à salvação.

            No conjunto Restos de um naufrágio, destaca-se a peça Diário de um náufrago, que trabalha justamente com os conceitos de memória pessoal e de envio de mensagens. Ambos estão ligados pelas mais de 80 garrafas penduradas com arames entrelaçados, numa multiplicação de caminhos, em um suporte de metal que se assemelha a um grande livro aberto.

            Cada garrafa, tanto de bebida alcoólica como de refrigerante, tem, dentro, variados objetos. Há desenhos do artista de diversas épocas, contas a serem pagas e numerosos santinhos, enfim, relatos diversos da vida cotidiana de um cidadão brasileiro, imerso num grande oceano que conta tanto com ilhas de riqueza como mares de miséria.

            Acompanham esse livro aberto de mensagens em garrafas 29 esculturas. Elas funcionam como uma contundente crítica à sociedade, denunciando o progressivamente afastamento da natureza e da essência e a necessidade da reciclagem de materiais e de um maior respeito entre os seres humanos.

            Há nas obras evidências do sagrado, como se cada escultura fosse um oratório ou um deus a nos contemplar e a exigir observação atenta. A poética de Cipriano é justamente a de um panteísmo aos objetos que dá nova vida e conotação nas mais diferentes uniões de materiais e objetos.

            Há homenagens a pessoas, como o avô, amigos, um vaqueiro e um cantador que o marcou na sua infância no interior da Bahia. Isso acentua a idéia do conjunto de esculturas como um imenso diário de restos do naufrágio da existência humana. Cada obra tem assim a sua própria história e infinidade de visões tridimensionais e líricas.

            Algumas peças têm ainda a característica de serem sonoras, já que podem ser manuseadas e delas podem ser extraídos sons, principalmente associados à percussão. Essa musicalidade está ligada ao próprio artista, que toca sanfona e mantém o ouvido atento não só para música no sentido  mais tradicional, mas também para as possibilidades sonoras que os materiais oferecem na sua interação com o público, que deixa de ser observador para se tornar participante do trabalho.

            Arthur Bispo do Rosário (1909 ou 1911 - 1989) também é homenageado com uma das cartas a ser lançadas ao mar. A escultura remete ao parentesco entre alguns aspectos da obra do artista sergipano com Cipriano.  Isso ocorre de maneira mais marcante na idéia de produzir uma obra a partir dos restos da sociedade. Se o Bispo fazia isso por falta de opção no manicômio em que estava internado, no caso de Cipriano ocorre por perceber nos restos da civilização uma beleza plástica que a maioria das pessoas não vê.

Caso mais conhecido de arte bruta no Brasil, o Bispo era descendente de escravos africanos, marinheiro na juventude, vindo a tornar-se empregado de uma tradicional família carioca. Dia 22 de dezembro de 1938, despertou com alucinações e, no Mosteiro de São Bento, anunciou a um grupo de monges que era um enviado de Deus, encarregado de julgar aos vivos e aos mortos.

            Dois dias depois, detido e fichado pela polícia, foi conduzido ao Asilo D. Pedro II, nome oficial do hospício que ficava na Praia Vermelha. Um mês depois, foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, no subúrbio de Jacarepaguá, onde permaneceu por mais de 50 anos, sob o diagnóstico de “esquizofrênico-paranóico” junto a todos aqueles que a sociedade rejeitava, como negros, pobres, alcoólatras e homossexuais.

            Na Colônia, o Bispo passou a produzir objetos com diversos tipos de materiais oriundos do lixo e da sucata, posteriormente classificados como arte vanguardista e comparados à obra de ruptura de Marcel Duchamp. Entre seus temas, estão navios, estandartes, faixas de miss e objetos domésticos. A sua obra mais conhecida é o Manto da Apresentação, que Bispo deveria vestir no dia do Juízo Final.

            Vítima de eletrochoques, o Bispo nutriu uma paixão platônica pela estagiária de psicologia Rosangela Maria, que o acompanhou entre 1981 e 1982. Sua obra foi recuperada, porém, para o mundo da arte, pelo crítico de arte e curador Fernando Moraes, que organizou a primeira exposição do artista em 1989, no Rio de Janeiro. Posteriormente, ela foi mostrada em importantes locais como a Bienal de Veneza, a Mostra Brasil 500 Anos e em museus de Paris e Nova York.

            Cipriano vê a sociedade e a cultura despedaçadas e as reconstrói. Consegue assim sua libertação de um mundo que o aprisiona e do qual se sente náufrago. As garrafas alertam para o perigo da bebida e para a possibilidade de salvação em cada carta/escultura lançada ao mar. São mensagens em busca de um redentor talvez não existente, mas possível, já que cada garrafa/escultura tem dentro de si um forte conteúdo emotivo, uma jornada de memórias, afetividades e vivências.   

            Os restos da cidade ganham na mente e nas mãos de Cipriano o status de obras de arte. As esculturas nos obrigam a rever o cotidiano que vivemos. As garrafas penduradas por sua vez alertam para as esperanças perdidas e guardadas em espaços de nossa mente mais ou menos explicitados em cada um de nós. São todas mensagens lançadas em busca de um receptor atento.  

            À espera da devida valorização pela crítica especializada, o conjunto Restos de um naufrágio conta, em parte, a história de Cipriano Souza, mas, acima de tudo, narra o cotidiano do povo brasileiro, imerso num dia-a-dia marcado pelo desespero. Mas também há a fé de que é necessário um acreditar diário nos santos, nas suas mais variadas formas, e em si mesmo, para que o naufrágio existencial não aconteça.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 



 

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