por Oscar D'Ambrosio


 

 



Renata Cazzani

A tríade artística

Grafismo, cor e traço são, para o crítico de arte Frederico Morais, os três constituintes básicos da obra pictórica da artista plástica carioca Renata Cazzani. Expostas no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e na Mônica Filgueiras Galeria de Arte, em São Paulo, em abril e maio de 2001, ilustram bem como a arte não tem limites em gerar reflexões sobre formas, tonalidades e garatujas.

Nascida em 1954, Renata realizou sua primeira exposição coletiva, em 1976, e a primeira individual, em 1990. Na década passada, trocou a escultura pela pintura, apresentando um trabalho que incita a uma contemplação ativa. Diversas tonalidades de azul, por exemplo, separadas por traços brancos sobre os quais correm grafismos evocam o desenvolvimento da arte desde os seus primórdios.

Esses grafismos também ocorrem no interior da tela e indagam o observador, que busca neles algum sentido discursivo. No entanto, seu significado é puramente estético, pois eles surgem e desaparecem aparentemente de forma arbitrária, mas com uma lógica interna em cada composição. Por isso, as telas atraem o olhar.

Seu impacto cromático se acentua nos verdes e vermelhos. As composições em forma de díptico, embora de posição intercambiável entre si e na vertical ou na horizontal, em certos momentos, também podem dialogar com os ideogramas da escrita oriental. Nesse momento, não se busca um sentido explícito para os traços feitos nas obras, mas passa-se a observar o que há neles de mais importante: sua interação com o resto da tela.

Há pinturas em que retângulos pretos, azuis e vermelhos são demarcados por linhas que estabelecem fronteiras. As cores interagem pela proximidade, não pela penetração e constituem ilhas de impacto visual. Quando esse mesmo efeito ocorre com diversos tons de verde, a tela parece uma fotografia de satélite de plantações.

Essa analogia abre novas possibilidades de interpretação e leva a uma fuga do objeto artístico enquanto elemento autônomo, trazendo à mente novas imagens que se articulam em novas visões de mundo. O mesmo pode ser feito em termos das telas com vários tons de azul e as variedades presentes no mar ou no céu.

O essencial na arte de Renata Cazzani, no entanto, está dentro dela mesma, não em eventuais referenciais externos. Grafismos que evocam as cavernas pré-históricas, cores bem definidas em diversos tons e nuanças, e um traço seguro e consciente de composição tornam o seu trabalho uma expressão de um modo muito particular de ver o mundo.

Enquanto a Santíssima Trindade é composta de Pai, Filho e Espírito Santo, o universo pictórico de Renata Cazzani tem na tríade grafismo, cor e traço seus maiores pilares. Os grafismos pontuam a tela com precisão, as cores se articulam num jogo fascinante e envolvente e o traço define retângulos das mais variadas proporções, com um ludismo encantatório, que conduz, assim como a Trindade bíblica, a um Paraíso, não o do Céu cristão, mas ao da arte de qualidade.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

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