Renan
Cruz
O desejo
de voar
Uma das
grandes maravilhas do mundo da arte é que pela sua característica
intrínseca de trabalhar com a liberdade de criação, ela propicia o
surgimento de talentos sucessivos com os mais variados nascimentos,
formações culturais, influências e
resultados plásticos.
Renan Cruz
é justamente a comprovação de que o talento, quando nasce com a
pessoa e é desenvolvido, fornece possibilidades praticamente
ilimitadas de construir imagens que tenham impacto tanto pelo assunto
como pela esmerada técnica e pela sofisticação de linguagem.
Os
desenhos mostrados na Galeria Choque Cultural, de 13 de janeiro a 28
de fevereiro de 2007, mostram a recorrência de certos temas, como a
presença, em numerosos trabalhos, de dois elementos principais: asas
e totens. Às vezes, até combinados, ilustram um desejo de
ultrapassar limites e de buscar novos caminhos de expressão.
Quanto às
asas, há duas imagens paradigmáticas do talento de composição do
jovem artista: a de um homem pássaro e de uma coruja. Tomam-se ícones
de como uma certa representação, embora estática, tem
potencialmente a indicação de que pode partir para vôos cada vez
mais altos.
A sábia
coruja e o desejo de conquista de novas paragens do personagem que
mescla elementos humanos com asas norteia um movimento ascensional que
se faz presente em boa parte das imagens de Renan. Há nelas todo um
movimento gráfico que indica superação constante.
Os totens
que surgem das mãos e da mente do artista confirmam a constante busca
de uma evolução, já que o principal receio do verdadeiro artista,
como Renan aponta ser, é o de não estagnar nunca, em hipótese
alguma. Para isso, é necessário se alimentar sempre das mais
variadas influências, venham elas do mundo do grafite, da arte
popular ou de mestres reconhecidos pelo status
quo como Aldemir Martins.
O curioso
é que, além de um certo virtuosismo no desenho, o que mais encanta
na produção de Renan, é a profunda humanidade daquilo que
apresenta. Estão ali pessoas ou as mais variadas imagens
transfiguradas por uma necessidade, certamente inata, de buscar a
superação constante.
Como um
autêntico olho egípcio que tudo vê, Renan apresenta o seu mundo
visual. Talvez o grande mérito dos principais desenhistas seja
justamente esse: sentir – e não ver o mundo – para dar-lhe a
conformação visual que julga mais adequada. Trata-se de um processo,
hoje talvez, até inconsciente, mas que pode resultar na criação de
atmosferas cada vez mais requintadas, em que as fronteiras, como deve
ser na melhor arte, entre o que é e o que deve ser torna-se
progressivamente tênue.
Os totens, nesse contexto, em sua riqueza de detalhes, revelam,
além dessa capacidade de se desvencilhar do real, a potencialidade de
um trabalho com um número cada vez maior de linhas, sulcos e recursos
gráficos, estabelecendo um labirinto que pode ser, como as gravuras
do mestre Marcelo Grassmann, um caminho para a libertação da mente.
Assim, o
desejo de voar de
diversas imagens do artista é, em última análise, uma vontade de
ultrapassar as fronteiras de si mesmo. A liberdade de criar ganha então
cada vez mais espaço rumo à consolidação de uma pesquisa visual
intensa, visceral que, ao que tudo indica, leva para construção de
uma jornada imaginária rica e infinita.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista e crítico de arte, é mestre em Artes
Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA - Seção Brasil).