por Oscar D'Ambrosio


 

 


Renan Cruz

 

            O desejo de voar

 

            Uma das grandes maravilhas do mundo da arte é que pela sua característica intrínseca de trabalhar com a liberdade de criação, ela propicia o surgimento de talentos sucessivos com os mais variados nascimentos, formações culturais, influências e  resultados plásticos.

            Renan Cruz é justamente a comprovação de que o talento, quando nasce com a pessoa e é desenvolvido, fornece possibilidades praticamente ilimitadas de construir imagens que tenham impacto tanto pelo assunto como pela esmerada técnica e pela sofisticação de linguagem.

            Os desenhos mostrados na Galeria Choque Cultural, de 13 de janeiro a 28 de fevereiro de 2007, mostram a recorrência de certos temas, como a presença, em numerosos trabalhos, de dois elementos principais: asas e totens. Às vezes, até combinados, ilustram um desejo de ultrapassar limites e de buscar novos caminhos de expressão.

            Quanto às asas, há duas imagens paradigmáticas do talento de composição do jovem artista: a de um homem pássaro e de uma coruja. Tomam-se ícones de como uma certa representação, embora estática, tem potencialmente a indicação de que pode partir para vôos cada vez mais altos.

            A sábia coruja e o desejo de conquista de novas paragens do personagem que mescla elementos humanos com asas norteia um movimento ascensional que se faz presente em boa parte das imagens de Renan. Há nelas todo um movimento gráfico que indica superação constante.

            Os totens que surgem das mãos e da mente do artista confirmam a constante busca de uma evolução, já que o principal receio do verdadeiro artista, como Renan aponta ser, é o de não estagnar nunca, em hipótese alguma. Para isso, é necessário se alimentar sempre das mais variadas influências, venham elas do mundo do grafite, da arte popular ou de mestres reconhecidos pelo status quo como Aldemir Martins.

            O curioso é que, além de um certo virtuosismo no desenho, o que mais encanta na produção de Renan, é a profunda humanidade daquilo que apresenta. Estão ali pessoas ou as mais variadas imagens transfiguradas por uma necessidade, certamente inata, de buscar a superação constante.

            Como um autêntico olho egípcio que tudo vê, Renan apresenta o seu mundo visual. Talvez o grande mérito dos principais desenhistas seja justamente esse: sentir – e não ver o mundo – para dar-lhe a conformação visual que julga mais adequada. Trata-se de um processo, hoje talvez, até inconsciente, mas que pode resultar na criação de atmosferas cada vez mais requintadas, em que as fronteiras, como deve ser na melhor arte, entre o que é e o que deve ser torna-se progressivamente tênue.

            Os totens, nesse contexto, em sua riqueza de detalhes, revelam, além dessa capacidade de se desvencilhar do real, a potencialidade de um trabalho com um número cada vez maior de linhas, sulcos e recursos gráficos, estabelecendo um labirinto que pode ser, como as gravuras do mestre Marcelo Grassmann, um caminho para a libertação da mente.

            Assim, o desejo de  voar de diversas imagens do artista é, em última análise, uma vontade de ultrapassar as fronteiras de si mesmo. A liberdade de criar ganha então cada vez mais espaço rumo à consolidação de uma pesquisa visual intensa, visceral que, ao que tudo indica, leva para construção de uma jornada imaginária rica e infinita.

 

          Oscar D’Ambrosio, jornalista e crítico de arte, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA - Seção Brasil).

 

 
 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

 

grafite, 2006

Renan Cruz

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio