por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

  Regina Silveira

 

            A força oculta da sombra

 

O raciocínio visual da criadora Regina Silveira está marcada pela devoção à luz e as compreensões dela de diversas manifestações artísticas, seja nos seus trabalhos iniciais em pintura e gravura como nos passos posteriores pelas mais diversas tecnologias, como fotografia, vídeo, xerox, mídia eletrônica e recursos digitais.

            Nascida em Porto Alegre em 1939, Regina Silveira é uma artista e arte-educadora que talvez tenha como assunto principal um grande mote: a força oculta da sombra. Somos enganados pela sua poética para observar sempre a forma como trabalha com a luz, mas esse encantamento costuma nos afastar do que nela existe de mais fascinante, a sombra.

            Seja na projeção de imagens digitais, como na célebre instalação Lúmen, de 2003, no Centro Cultural do Banco do Brasil, ou em trabalhos anteriores ou posteriores, ela constrói um apanágio da sombra, construindo um grande teatro do barroco urbano, pleno de mistérios e decodificações a serem desvendados.

            Regina Silveira talvez seja a melhor expressão visual do maravilhoso O Grande Teatro do Mundo, de Calderón de La Barca (1600-1681). Nada é o que parece ser, porque existe uma imersão contínua nas aparências que enganam e de onde a artista tira a sua força.

            Ao lidar, por exemplo, com projeções e dobras, joga o observador no universo daquilo que pode ser – e não é – e do que é – mas pode não ser. Salta, assim aos olhos, um teatro barroco no sentido de que as fronteiras entre o chamado real e o imaginário perdem o sentido.

            Aquilo que se observa se faz presente como um ilusório mundo de sombras e recortes. Ícones de sua trajetória, como cavalete, mão, revólver, cadeira ou lâmpada, são líricos pretextos para a construção de uma visualidade em que as mencionadas e as transparências dão as cartas de um lúdico caleidoscópio de significados.

            A fascinação do trabalho da artista está na forma como concebe a sombra não apenas como uma projeção de um objeto, mas como um universo à parte, com vida própria. Trata-se de um ente quase animado que dialoga com o seu referencial concreto e o ultrapassa em significação por ser um simulacro pleno de energia vital.

            Escadas, moscas, pegadas e janelas, assim como projeções e transparências, são alguns dos universos visuais de Regina Silveira ao longo de uma trajetória visual em que a sombra – o lado revelado pela luz – manifesta-se de forma quase onipresente. É a expressão de um pensamento que não se contenta com o que vê, mas busca sempre o que não é óbvio e evidente.

            Clarabóias e caleidoscópios são, nesse aspecto, essenciais, pois só existem enquanto objetos visuais pela existência da luz, que lhe dá vida. No entanto, nesses e em outros casos, é a sombra que nos interroga pelo seu poder de esconder e, ao mesmo tempo, de gerar curiosidade e revelar.

            Manter esse mistério, trabalhando numa fronteira em que concessões ao simples ou óbvio podem ser fatais ao sucesso visual e conceitual, é o desafio da artista plástica gaúcha. Ao vencê-lo com talento e criatividade, assegura seu nome como uma dama da luz que nos faz repensar o mundo por meio das sombras que cria com seus trabalhos.  

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 

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 Lumen, 2003
intervenção na arquitetura projeção de imagem digital Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo, SP 2003

Regina Silveira

 

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