por Oscar D'Ambrosio


 

 


Regina Agrella

 

            O renascer de Ipanema

 

            O filósofo francês Voltaire dizia que “Um historiador é um tagarela que arrelia os mortos”. Essa é a nítida impressão que se tem quando se visita a Floresta Nacional (Flona) de Ipanema, retratada nas fotos de Regina Agrella. Localizada a 140 km da Capital Paulista, no município de Iperó, próximo a Sorocaba, a Flona abrange uma área de 5 mil hectares, 2 mil deles de cobertura florestal densa com vegetação representativa da Mata Atlântica.

            Ao atravessar o seu majestoso portal, símbolo de um passado de glória há muito esquecido, a Flona de Ipanema desperta um universo. Muito mais do que a diversificada fauna de mamíferos, aves, répteis, insetos e aracnídeos, a Floresta apresenta, como revelam estas fotos, um dos mais importantes acervos históricos do País, com edificações relacionadas a iniciativas pioneiras no campo da geologia, mineralogia e siderurgia graças às reservas minerais existentes na Serra Araçoiaba (“lugar em que o sol se esconde”).

            As imagens trazem à vida as pessoas que construíram aquela região. Tudo começa próximo ao rio Ipanema (“água que não presta” ou “rio pobre, sem peixes”).  De fato, a área ganharia destaque, já por volta de 1597, não por sua natureza exuberante, mas por sediar as primeiras forjas de ferro construídas no continente americano, fato reconhecido nos EUA. São os chamados fornos rústicos de fundição, conhecidos como “catalães”, edificados por Afonso Sardinha e localizados. nas margens do Ribeirão do Ferro, em 1977, pelo pesquisador José Monteiro Salazar, em achado ratificado pela arqueóloga Margarida Andreatta, que realizou importantes pesquisas na área.

  Se esses fornos – hoje sítios arqueológicos – são de difícil e restrito acesso, o mesmo não ocorre com alguns dos outros edifícios do local, que podem ser facilmente visitados. Mergulhar neles é conhecer um pouco da História brasileira e de algumas das pessoas que a construíram.

A região de Araçoiaba, em 1765, já produzia ferro gusa e, em 1810, pouco depois da mudança da corte portuguesa para o Brasil, foi fundada, por ordem de D. João VI, a Companhia Montanhística das Minas Gerais de Sorocaba, depois nomeada Real Fábrica de Ferro de Ipanema.

A chefia do empreendimento era do engenheiro sueco Carl Gustav Hedberg. Ele partiu, justamente em 1810, de Estocolmo, com 14 trabalhadores e todo o material necessário, inclusive pregos, para estabelecer o que seria a primeira fábrica de ferro brasileira. A tarefa não era fácil, pois ele e a sua equipe não tinham autorização para viajar acompanhados de mulheres e filhos e, para piorar, estavam proibidos de ter contato com estranhos.

Sob o comando de Hedberg, aproximadamente em 1814, foi erguida a primeira represa do País, com as águas do rio Ipanema. Foi também o empreendedor sueco que construiu a primeira roda d´água para fins de serraria do País, uma ponte de ferro articulada ainda em funcionamento, a casa da administração e uma rede de canais para a obtenção de força hidráulica para a fábrica de ferro.

Contemplar as imagens da água serena da atual represa – reconstruída em 1962 e em 1977 –, da ponte de ferro em desuso e da antiga roda d’água evoca uma volta ao século XIX e às milhares de histórias que por esses lugares passaram e que inevitavelmente se perderam no tempo. Olhar pacientemente para as fotos que registram essas lembranças perdidas exige a exploração da própria sensibilidade em busca de um Brasil do qual só temos notícias nos livros.

Ipanema guarda muitas narrativas. Uma delas é a do carpinteiro de foles sueco J. Bergman. Ao falecer, de tuberculose, em 25 de fevereiro de 1811, não tinha onde ser enterrado, pois era protestante e a Igreja Católica não permitia que hereges tivessem a sua última morada em campo sagrado.

A solução foi pedir ajuda a D. João VI, que criou, por Carta Régia, em 28 de agosto de 1811, em Ipanema, próximo à represa, um cemitério – ainda existente – para protestantes e ingleses anglicanos, no qual as sepulturas são erguidas com os pés voltados para o belo pórtico da entrada.

No mesmo local – que depois também recebeu crianças católicas pagãs, ou seja, que morriam sem receber a primeira comunhão – foi sepultado o segundo sueco a falecer, o carpinteiro A. Aglund, que cometeu, provavelmente, pela solidão de não poder sequer se comunicar com os brasileiros, suicídio, enforcando-se em 26 de agosto de 1812.

Histórias tristes, como essas de suecos, alemães e austríacos que vieram ao Brasil empolgados pelo sonho de construir a primeira usina de ferro brasileira, são emolduradas hoje pelas belezas naturais da Floresta, que recebeu, em 1814, um novo administrador. Descontente com a administração Hedberg, o governo português comissionou o major de engenharia do exercito alemão Frederico Guilherme Varnhagen para realizar o projeto de montar a primeira siderurgia nacional de ferro fundido.

Após muito trabalho, em 1818, foi obtido sucesso e houve a modelagem de três cruzes: uma está no Museu de Sorocaba e as outras duas em locais acessíveis de Ipanema: na sede Vila de São João de Ipanema e no alto do Morro de Araçoiaba, numa homenagem a Francisco Adolfo de Varnhagen, o Visconde de Porto Seguro, conhecido como o “Pai da História”.

            Novas mudanças ocorreram em 1865, quando o Coronel Joaquim Antônio de Souza Mursa assumiu a administração geral. Entre as suas realizações, está a instalação de uma estrada de ferro, com vagões puxados por mulas e depois, em caráter pioneiro no Brasil, movidos por locomotivas importadas para transportar o minério.

Foi também Mursa quem edificou, em 1885, o edifício mais bonito do centro histórico de Ipanema: a Fábrica de Armas Brancas. Também ergueu um forno gigante para produzir diariamente sete toneladas de ferro. Os altos-fornos da usina de ferro, inclusive, podem ser visitados – o que dá uma dimensão, infelizmente pálida, do esplendor da indústria no passado.

            Com portais em arco, numa construção sem similar no País, e localizada ao lado de uma queda d’água, a Fábrica de Armas Brancas impressiona. Constitui um universo à parte. Fotografias de dentro para fora ou vice-versa mal dão conta de sua grandiosidade estética e importância histórica. No seu interior, permanecem máquinas belgas utilizadas para a fabricação de munição e de armas brancas utilizadas na Guerra do Paraguai.

            Outra atração histórica, hoje reconstruída, é a casa-sede, erguida em 1811, onde nasceu, em 17 de fevereiro de 1816, o já mencionado historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, posteriormente Visconde de Porto Seguro, conhecido como “Pai da História” por ter, entre outros estudos, descoberto a célebre Carta em que Pero Vaz de Caminha relata o descobrimento do Brasil.

O casarão hospedou ainda outras personalidades, como o imperador D. Pedro II, que esteve três vezes no local. Aos 21 anos, em 1846, permaneceu lá de 19 a 21 de março. Depois, em companhia da imperatriz Tereza Cristina, visitou a Fábrica, em 1875, quando recebeu uma réplica da coroa – hoje no Museu Imperial de Petrópolis – ainda incandescente, fundida com o minério de Ipanema, e em 1886. Atualmente, uma porta toda de ferro, restaurada, homenageia justamente os elos do imperador com Ipanema.

            O fascinante é que a Real Fábrica de Ferro de  Ipanema funcionou a pleno vapor por todo o século XIX, produzindo pregos, martelos, arames, arados, vasos, as citadas cruzes, sinos, escadas e gradis, atendendo as mais diversas encomendas. Hoje, ao caminhar próximo – ou mesmo no interior – dos altos-fornos edificados por Frederico de Varnhagen, em 1818, e do alto-forno do Coronel Mursa, erigido 70 anos depois, e da Casa da Guarda, de 1811, respira-se o que sobrou de toda essa história.

            Produtos da Fábrica também estiveram presentes em conflitos bélicos. Em meados do século XIX, perante o governo do caudilho paraguaio Solano López, o governo brasileiro temia a possibilidade de uma guerra. Enviou então, em 1863, o engenheiro Guilherme Schuch de Capanema a Ipanema para avaliar as condições da fábrica, prevendo a possibilidade de necessitar de armas e munições.

Logo ao chegar, Capanema, em sua vistoria, construiu um pilar de alvenaria – com um relógio de sol na parte superior e os números das coordenadas geográficas nas laterais – no local em que passa o Trópico de Capricórnio. Ele promoveu a restauração de Ipanema e, durante o período da Guerra do Paraguai (1864-70), foram produzidas no local munições e armas brancas (daí o nome de um dos mais belos edifícios do local) usadas pelo exército brasileiro e por seus aliados.

            Após a mencionada Guerra, perante diversas dificuldades econômicas, os altos fornos de Ipanema param de funcionar em 1895, mas não sem antes atender todas as encomendas recebidas. Já no século XX, em 1913, o engenheiro Elias Marcondes Homem de Mello, numa tentativa de reerguer o local, constrói cinco fornos de carvão, tipo colméia, fazendo o ferro correr mais uma vez pelos altos fornos.

O empreendimento, porém, não vai em frente. Infelizmente, vítimas da passagem do tempo e da falta de preservação, os fornos de carvão se deterioram. Um deles já ruiu e outro está com a estrutura comprometida. Uma nova oportunidade de reerguer a usina de ferro ocorreu em 1932, quando os paulistas, ao promoverem a Revolução Constitucionalista, pensaram em reativar os altos fornos para produzir armamentos para revolta. A vitória do governo federal, todavia, encerra para sempre as atividades da Real Fábrica de Ferro de Ipanema.

            Além do centro histórico, o ponto mais imponente de Ipanema é o monumento ao Visconde de Porto Seguro, no Morro de Araçoiaba, ao qual só é possível chegar acompanhado por monitores do Parque. De lá, é possível avistar toda a Flona de Ipanema, além das cidades de Sorocaba, Iperó e Boituva. Foi em 1877 que o Visconde, ao visitar a propriedade, escolheu o alto do Morro para construção de um mausoléu que receberia os seus restos mortais. O monumento foi inaugurado em 1882, com uma das mencionadas cruzes da primeira corrida de ferro dos altos fornos de 1818 cravada sobre um pedestal. O Visconde, falecido em 29 de junho de 1878, entretanto, não teve o seu desejo atendido e o seu corpo não foi transportado para local tão privilegiado, com uma vista única.

De lá para cá, muito tempo se passou até que, em de 20 de maio de 1992, o  Decreto nº 530 criou a Floresta Nacional de Ipanema, hoje uma unidade de conservação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), com uma natureza fascinante, mas uma riqueza imagética, narrativa e histórica ainda maior. 

Todas as histórias aqui rememoradas – e aquelas esquecidas nos olhares e gritos dos milhares de trabalhadores que passaram pelos altos fornos e pela fábrica de armas de Ipanema – a partir das imagens registradas pela fotógrafa Regina Agrella, relembram as palavras de Voltaire.

As reflexões motivadas por uma visita à Flona de Ipanema estimulam a fala e o ato da escrita. Trazem, na medida do possível, os mortos e as suas histórias à tona e nos lembram de que a combinação sutil propiciada pelas imagens das fotos e das narrativas perdidas no tempo pode muito bem recompor a história de um local – e por que não? – de um povo.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).

 

 

 

 

 

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"Fábrica de Armas Brancas"

Fotografia
Iperó - SP= 2002

Regina Agrella

 

 

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