Regiane Cayre
Reveladora de almas
Originária do italiano ritratto, a
palavra retrato, segundo o Dicionário Aurélio, indica uma
representação da imagem de uma pessoa real, seja pelo desenho,
pintura, gravura ou fotografia. Por esse conceito, um retrato não
é uma mera imitação, mas a recriação de uma pessoa a partir
de sua imagem.
Nessa arte, que é a de desvendar a
alma humana por meio de seus traços, a pintora Regiane Cayre se
destaca pela capacidade de captar traços essenciais das pessoas
que passa para a tela. Ao fazer isso com famílias, crianças,
mulheres e fotos antigas, mostra que a arte do retrato exige
talento e sensibilidade ímpares para não se reduzir a uma mera
cópia do original.
Nascida em São Paulo, Capital, em 11
de novembro de 1961, Regiane Cayre iniciou seu amor pela arte
graças a um livro do pai repleto de fotos. Começou assim a sua
admiração pelas esculturas, principalmente pelas possibilidades
de trabalho que elas oferecem com volumes, luz e sombras,
atributos que admira naqueles que se valem de toda a sua força
psíquica e física no esforço para dominar os mais diversos
materiais.
Seguindo esse caminho, Regiane não
encontra dificuldade para definir seus preferidos: Michelangelo (“pela
grandeza na forma e genialidade incomparável”), Rodin (“pela
maneira que esculpia grupos de pessoas e gerava entrelaçamentos”),
Camille Claudel (“pela paixão”) e Antonio Canova (“pela
limpeza do tema com formas bem definidas”).
Passada a infância, Regiane fez
vários cursos livres, nos quais reuniu as informações
necessárias para pintar e vender camisetas com temas de capas de
discos de rock. Em 1979, a artista ingressou na Fundação Armando
Álvares Penteado (Faap), onde cursou Educação Artística,
graduando-se em 1984.
Após realizar vários cursos de
especialização, a artista abriu, em 1986, a sua própria empresa
de comunicação visual, voltada para o atendimento de agências
de propaganda e empresas estatais e privadas, além de impressões
de gravuras em serigrafias próprias e de outros artistas para
galerias de arte.
Nesse ínterim, Regiane já escolhera
seu ídolo na pintura: Pablo Picasso. Ela admira a forma de viver
e a dedicação ao seu trabalho do artista espanhol e conta como o
retrato que dele fez, em 1989, a auxiliou a ter a coragem de se
dedicar profundamente à arte do retrato, atividade que praticava
desde 1988, utilizando as técnicas da aquarela e da tinta
acrílica sobre tela.
Esse retrato de Picasso permanece no
ateliê da artista, que confessa buscar nos olhos da própria
criação a força necessária para prosseguir na carreira.
Posteriormente, ela trabalhou com outras técnicas, consolidando
seu trabalho, com obras hoje espalhadas por diversos estados
brasileiros e por países como EUA, Itália, Equador e Espanha.
Cayre destaca de sua produção três
aspectos: o retrato (“Por meio da foto como referência, tento
captar algo mais, sem mudar a expressão daquele que estou
retratando”), releituras de esculturas (“Procuro encontrar a
luz o volume pleno da tridimensionalidade e transpô-las para a
tela”) e os temas urbanos livres (“A pintura não segue o
rigor da semelhança e sim a minha intenção”).
O que mais impressiona nos trabalhos
de Regiane é a capacidade de congelar momentos que revelam almas.
Sua habilidade está justamente em saber captar toda a expressão
de uma alma num instante. Isso não significa copiar a realidade,
mas transformá-la em busca de um resultado estético
diferenciado, motivação constante que move os pincéis e a mente
da retratista paulista.
Oscar D’Ambrosio é jornalista,
integrante da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA)
e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp).