por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

 

Reflexões sobre a modernidade

 

            Logo no começo do texto A modernidade1, Walter Benjamin aponta que, para Baudelaire, a imagem do artista “aproxima-se da imagem do herói” (página 7)2. Isso me faz logo pensar no conceito grego de herói, que inclui uma série de etapas, como nascimento difícil, profecias envolvendo futuro, exposição ao perigo, descoberta de origem nobre, façanhas memoráveis, vingança de humilhações sofridas, casamento com princesa ou heroína, reconhecimento dos méritos e morte trágica.   

            Segundo o filósofo alemão, de fato, Baudelaire aproximava o artista do esgrimista, no sentido de que ambos teriam que lutar muito – e serem heróis – para conquistar seu lugar na sociedade. Surgem assim as figuras, na urbe, do flaneur, com seu evidente prazer de transitar pelo espaço urbano, e do badaud, que, nesse mesmo caminhar, é absorvido pela multidão, perdendo a individualidade.

            Benjamin descreve Baudelaire como o próprio herói das classes trabalhadoras. Perseguido pelos credores, pela doença e sofrendo pelos infortúnios com a amante, ele vivia numa situação miserável tanto no sentido econômico como psicológico. É visto como um ser angustiado, que “possuía poucas condições objetivas de trabalho” (página 10).

            O heroísmo de Baudelaire está na forma como resiste ao mundo mesmo em situações adversas. Assim surge a posição do herói dentro de uma nova realidade, chamada de “modernidade” pelo poeta francês. Incluem-se aí os seres anônimos que vagueiam pela cidade em busca de oportunidades.

            A idéia de suicídio, o predomínio do preto e do cinza na roupa masculina, por exemplo, o andar desengonçado do Albatroz, entre outros elementos apontados por Benjamin, ilustram justamente um espetáculo de vidas mundanas, onde reina o apache, o rebelde que “renega virtudes e leis” (página 15).

            Ainda na concepção de Benjamin, a modernidade enunciada por Baudelaire está associada à “substância e inspiração da obra”. No ato de captar a transitoriedade do mundo que se enunciava, ele escrevia as suas críticas de arte e, sob um ponto de vista geralmente romântico, muito mais focado na biografia do pintor ou em impressões subjetivas do que na obra plástica em si mesma com seus valores intrínsecos.

            É evidente, como ressalta Benjamin, que Baudelaire nunca desenvolveu uma concepção de arte no universo da modernidade. Ele se baseava muito nas idéias de Poe e “nenhuma de suas reflexões estéticas apresentou a modernidade em sua simbiose com a antigüidade, o que sucede em certos poemas das Fleurs du mal” (página 18).

            O fato é que Paris impressionava Baudelaire e seu senso estético era profundamente influenciado por uma cidade em que os problemas sociais se avolumavam. Seu referencial, como bem aponta Benjamin, é a arte romana e os heróis gregos.

Não se tratava de um grande conhecimento da filosofia desses povos ou de análises psicológicas dos mitos, mas de eleger certas figuras, como Delfina e Hipólita. O lesbianismo é eleito como um assunto dessa “modernidade” e o tema é enfocado, por exemplo numa crítica de Baudelaire a um quadro de Delacroix.

Grandeza e desprendimento são, para Benjamin, as chaves da modernidade de Baudelaire. O herói está condenado a sofrer nesse mundo, pois não existe um emprego ou função determinada para ele a não ser tornar-se um dandy; e esse “dandysmo” é, para o escritor francês, “o último brilho do heróico em tempos de decadência” (página 27).

Baudelaire, como pode-se observar, não era fã de seu tempo. Não o admirava, mas não tinha como se deslocar dele. Sua contemporaneidade o levou a pensar no herói como uma espécie de derrotado. O heróico na modernidade está justamente no aspecto trágico de não conseguir se encontrar no mundo.

O herói da modernidade mantém a sua luta de esgrimista para enfrentar um cotidiano adverso, mas não consegue a vitória. Embora, como aponte Benjamin, se valha, pela primeira vez na poesia lírica, de “palavras não só de proveniência prosaica, mas também urbana” (página 30), isso não basta para que se sinta um vitorioso.

O uso das palavras como esgrimista dá uma dimensão estética ao sentimento de Baudelaire em relação a sua contemporaneidade. Sua heróica luta num mundo que vê como adverso resulta num sentimento de “impotência” (página 31). Talvez esse sentimento seja a principal característica da modernidade vivenciada pelo poeta francês.

O herói imaginado por Baudelaire se aproxima do grego no sentido de ter uma existência trágica, marcada pelo sofrimento. Afinal, a própria palavra tragédia significa “canto do bode”, ou seja, ilustra a idéia de um sacrifício perante a vida. Analogamente, o artista seria o herói da modernidade, existindo numa atmosfera de intensa dor, perante um mundo que não lhe dá trégua, espaço ou alternativa de felicidade. O único refúgio seria o da criação estética.  

 

[1] Walter Benjamin. In: A modernidade e os modernos. Rio de janeiro, Tempo Universitário, 1975.

2 Todas as notas referem-se às páginas do texto citado na nota anterior.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA – Seção Brasil).

 

 



 

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