por Oscar D'Ambrosio


 

 


Recuérdame: cem anos de Frida Kahlo

 

            Discutir o rico universo de Frida Kahlo é o grande desafio enfrentado nesta  coletiva, que homenageia o centenário de nascimento da pintora mexicana. Ao longo de sua obra, ao desenvolver uma temática essencialmente autobiográfica, a artista suscita uma reflexão sobre o próprio ato de viver.

            Certas características marcantes, como a presença do cabelo como símbolo da feminilidade, as suas terríveis dores físicas, desde o terrível acidente que sofreu na juventude, e a sua complexa relação amorosa e afetiva com o muralista Diego Rivera são recorrentes.

            A catarse propiciada pelos seus diários torna-se outro elemento fundamental,  que levou o presente grupo de oito artistas a refletir sobre os elos entre vida e arte. Acima de tudo, existe o exercício constante de buscar o que mantém a obra de Frida Kahlo tão atual.

Nesse sentido, elementos plásticos e biográficos se entrelaçam. Aline Hannun toma uma parede da célebre Casa Azul, hoje Museu Frida Kahlo, como metáfora das possibilidades que a vida bloqueou à artista. Já Clara Marinho oferece uma nova atmosfera à conhecida fotografia de beijo de Diego em Frida deitada na cama.

            Glaucia Gomes se vale da prática com a cor para construir a visão que tem do percurso existencial da criadora mexicana. Lú Salum, com a técnica da encáustica, fundamentada no uso da cera, traz à tona elementos visuais como flores, vegetação e o sol, essenciais no universo de Frida.

            Rita Bassan exalta o poder da aniversariante de sonhar sobre o áspero cotidiano que vivenciou, utilizando os olhos da artista como ícones a serem destruídos e reconstruídos. Roberta Fialho também discute o poder da artista mexicana de se tornar um mito, com a história construção de uma narrativa sobre si mesma.

            Sandra Scaffide, ao montar um caderno de auto-retratos a partir da homenageada, coloca um espelho na página final, apontando para a Frida que existe em cada observador, enquanto Silvia Fischetti obtém seu melhor resultado quando retrabalha justamente as imagens mentais cristalizadas que se têm da pintora, um paradigma da arte latino-americana

            As oito artistas conseguem, assim, traçar o seu painel interpretativo de Frida Kahlo. Há, nesse processo, uma constante busca pelo aprimoramento pessoal e coletivo, com a certeza de que o melhor conhecimento da artista, em seu centenário de nascimento, leva a um mergulho denso no interior de cada um que visita a exposição.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

           

 

 



 

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