por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Rebolo

 

            O uróboro artístico

 

Serpente que morde a sua própria cauda num processo de eterna fecundação que representa ciclos sucessivos de vida e de morte, a imagem do uróboro pode ser vista como uma metáfora do trabalho do pintor paulista Francisco Rebolo Gonsales. Conta-se que o símbolo, considerado pelo psicanalista Carl Jung um arquétipo universal e ancestral, foi sonhado, por exemplo, pelo químico alemão Kekulé von Stradoniz (1829-1896), quando este investigava a estrutura da molécula do benzeno, sugerindo-lhe assim a imagem que buscava, uma estrutura fechada, com um anel de ligações simples e duplas.

A analogia se justifica ainda mais perante depoimento do artista concedido em 1973: “No dia em que não pinto, não vivo; é um dia perdido”. O tempo “perdido” então se torna uma necessidade contínua de recuperação, que acelera o movimento do uróboro existencial do pintor.

Isso não significa que a arte de Rebolo seja visualmente um universo pleno de conflitos. Muito pelo contrário.  Se a sua arte é justamente marcada por uma placidez contagiante, há também nela uma consciente e permanente busca de novas técnicas que acompanha a trajetória do artista, para quem a prática pictórica era visceral.

Filho de imigrantes espanhóis, numa geração de artistas plásticos em que predominavam italianos e seus descendentes, Rebolo, nascido em 22 de agosto de 1902, fez seus primeiros estudos no bairro da Mooca, em São Paulo, SP, e trabalhou inicialmente como entregador de chapéus.

Rebolo iniciou seu contato com a arte como aprendiz de decorador, chegando a pintar detalhes das igrejas de Santa Ifigênia e Santa Cecília, em São Paulo, e numerosos frisos decorativos. Paralelamente, em 1917, começou a jogar futebol, atuando no Corinthians até 1934, tendo inclusive sido campeão do centenário. Seu envolvimento com o clube levou até ao desenho do emblema definitivo da agremiação, incluindo a âncora e os remos, no emblema que tornou a equipe conhecida como “Timão”.

Em 1933, Rebolo monta, no Palacete Santa Helena, próximo da Praça da Sé, o seu ateliê de pintura e decoração. O artista-atleta abandona o futebol no ano seguinte, e, em 1935, começa a se estruturar o Grupo Santa Helena, com artistas como Fúlvio Pennacchi, Aldo Bonadei, Humberto Rosa, Manuel Martins, Clóvis Graciano, Alfredo Rullo Rizzotti e Alfredo Volpi.

Os artistas do ateliê, além de realizar desenhos de modelo vivo, começaram a adotar a prática de pintar subúrbios e pequenos sítios de regiões vizinhas à Capital, num trabalho que obteve boa repercussão entre críticos de prestígio, como Mário de Andrade e Sérgio Milliet.

Em 1935, Rebolo estreou oficialmente como artista no Salão Paulista de Belas Artes e, na edição seguinte, recebeu a medalha de ouro. Importantes passos foram a realização da primeira individual em 1944 e a participação na I Bienal de Arte de São Paulo, em 1951, integrando a delegação brasileira.

Três anos depois, no Salão de Arte Moderna – conhecido como Salão em Preto e Branco, porque os artistas só se utilizaram dessas cores, protestando contra os altos impostos que incidiam sobre a importação de tintas, taxadas pelo governo Getúlio Vargas como “artigos de luxo” – Rebolo recebeu o Prêmio Viagem ao Exterior, do qual se originaram significativas telas realizadas na Itália, além da oportunidade, em 1956, de restaurar uma tela de Rafael, no Vaticano.

Após utilizar os pincéis com uma delicadeza sutil; nos anos 1960, passou a tirar sulcos da camada pintada, atingindo uma textura fascinante muito peculiar, sendo que, na década de 1970 realizou também trabalhos com espátula, revelando um amplo domínio dessa técnica.

As idas e vindas técnicas e temáticas do artista levaram o poeta e crítico de arte Walmir Ayala a cunhar, em 1973, a expressão “anel lírico” para interpretar a obra de Rebolo. A idéia foi inclusive retomada em 1978, em um curta-metragem sobre o pintor dirigido pelo critico de arte Olívio Tavares de Araújo.

Falecido em 1980, Rebolo deixou um amplo universo pictórico de paisagens rurais – algumas do bairro do Morumbi, ainda dominado por pequenos sítios – e urbanas, principalmente das imagens que o artista via de seu ateliê, no Palácio Santa Helena, além de naturezas-mortas ou personagens do cotidiano brasileiro, como lavradores de pequenas propriedades.

            O uróboro em Rebolo se manifesta pela busca constante de uma expressão pessoal de seu fazer pictórico. Isso se torna visível nas diversas manifestações temáticas do artista. Nos auto-retratos, por exemplo, o tratamento dado aos pigmentos, a composição de cores e o trabalho técnico oferece resultados variados e – muitas vezes – surpreendentes.

            Geralmente em tons delicados, Rebolo põe em suas telas imagens cotidianas, bucólicas casas em meio a ambientes agradáveis, lenhadores de cabeça baixa, agobiados pelo trabalho num meio idílico, líricos arvoredos que revelam um apurado trabalho pictórico e paisagens em que o rural e o urbano se misturam, como nas telas realizadas a partir do rio Guaíba, em Porto Alegre, RS.

            Girando sobre temas e técnicas, o uróboro artístico de Rebolo se completa em sua busca constante pela perfeição. Desse movimento permanente em torno de si mesmo, resulta uma obra de grande densidade expressiva. Seu maior mérito está não só no lirismo, já apontado pelo crítico Walmir Ayala, mas, principalmente, no prazer estético que suas telas à primeira vista bem comportadas geram.

            Sob imagens dominadas por uma aparente calma e tradicionalismo, há uma energia plena de dinamismo e rebeldia no trato com a técnica. Inquieto, Rebolo sempre buscou, em seu movimento urobórico, novas alternativas, revisitando as que conhecia e pesquisando novas dimensões artísticas.

            Do mergulho em si mesmo, Rebolo tirou a sua energia renovadora. O escritor francês Romain Rolland já dizia que “criar é matar a morte”. É exatamente isso que o artista paulista fez. Com a energia circular do uróboro, transforma suas telas em líricos depoimentos pictóricos e poéticas recriações da realidade. Elas são o resultado de uma vida de pesquisa constante, dedicada, como ele mesmo afirma, ao ato diário de pintar e criar incessantemente.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).

 

 

 

 

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 Lenhadores 
óleo sobre tela 61,5 cm x 50 cm 1950

Rebolo

 

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