por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

 

Raul Mourão

 

            O espetáculo do poder

 

Seja em termos de segundos na televisão, minutos de fama ou anos de permanência na mídia, o poder tem a capacidade de  fascinar os seres humanos sob diversos aspectos. Estejamos perto ou longe dele, ninguém fica imune a sua influência e, principalmente, ao charme que provém dos contatos que ele propicia.

A exposição Luladepelucia e outras coisas, do artista plástico Raul Mourão, na Galeria Oeste, em São Paulo, SP, de 3 de maio a 3 de junho de 2006, não só gera uma reflexão sobre as múltiplas facetas do poder, mas também evoca a célebre frase do pensador francês Alain (1868-1951), em Política, “Todo poder sem controle enlouquece”.

Os bonecos de pelúcia com a fisionomia do presidente Lula surgem em janeiro de 2003, logo após a pose, numa visão de como o mandatário tinha se tornado um objeto de consumo que agradava perigosamente a todos, desde aqueles que o apoiaram explicitamente até aos que, embora não tivessem lhe dado a sua confiança nas urnas, viam-no como um inegável e legítimo vitorioso, devido a sua origem humilde, expressiva votação e perseverança após sucessivas derrotas para ocupar o cargo máximo do executivo nacional.

Ao ver os bonecos de pelúcia dentro de caixas de madeira fechadas com vidro, é quase impossível não ver como a exposição exagerada à mídia transforma o ser humano em um simulacro de si mesmo. A pessoa deixa de ser humana para ser um espetáculo, começando a viver numa atmosfera onde a ilusão começa a predominar e o sentido de realidade se perde ou, no mínimo, se dilui.

Ter um bicho de pelúcia significa manter contato estrito com um objeto que se pode agarrar, beijar, conversar e, por que não?, adorar. Assim funcionam ursinhos e outros animais que ganham o status de humanos no convívio com os seus donos. Os Lulas de pelúcia, guardados em caixas, porém, perdem essa intimidade, tornando-se inacessíveis ao toque.

Há o desejo de se brincar com eles, mas as caixas não deixam. Trata-se de um objeto lúdico, mas cercado por uma respeitabilidade que está no terno, na gravata e na dificuldade de acesso. Ele chama para a dança da vida e do compartilhamento de emoções, mas se encerra numa bolha de vidro que o protege e diviniza.

A série de imagens em acrílica sobre papel intituladas Luis Inácio Guevara da Silva geram o mesmo estranhamento. O ícone do líder argentino que se tornou um ídolo pop em Cuba e no mundo, mesclada com a de Lula, explicita a passagem do homem para mito, de combativo para semi-deus. A ponte entre o que se é de fato e o que as pessoas imaginam de alguém é feita por meio da imagem.

Esteja em caixas só ou acompanhado, o boneco de Lula cada vez mais é a permanência do presidente como um ser que não é mais ele mesmo, mas uma representação eterna e cristalizada de um ser a nos observar, como um Big Brother de George Orwell, só que menos ameaçador, embora não menos onipresente, seja como indivíduo seja como manifestação ideologia de um pensamento do operário que veste roupas nobres e chega ao Palácio do Planalto.

Nas imagens de anão de jardim, em pose de jogador de futebol ou de pingüim de geladeira, Lula, pela visão de Raul Mourão, beira o ridículo e o engraçado. Solene na caixa, mas próximo enquanto objeto de afago e de carinho, cada boneco do presidente consegue criar justamente uma dualidade entre o próximo e o longínquo.

Mourão realiza, sem discurso, mas com ação plástica, o sonho de muitos artistas contemporâneos. Gerar pensamentos com uma proposta aparentemente simples e bem-humorada. De fato, os Lulas que ele constrói são uma faceta de nós mesmos que geralmente se deseja esconder.

É aquela face em que o poder, seja o político ou o da mídia, encanta e atrai perigosa e excessivamente, como alertava Fedro (15  a. C. – 50? d.C.), em suas Fábulas, “nunca é segura a sociedade com os poderosos”, sejam eles bichos de pelúcia, imagens na parede, anões de jardim ou pingüins de geladeira.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil

 

 

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Lulacaixa 2
bonecos de pelúcia, madeira e vidro
44 x 49 x 14 cm
2006

Raul Mourão

 

 

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