por Oscar D'Ambrosio


 

 


Ranchinho: a arte resgata a cidadania

Poéticas telas noturnas com janelas de casas iluminadas em dourado e cenas cinzentas em que as figuras parecem se desfazer em meio à chuva torrencial são constantes no mundo imagético de Sebastião Theodoro Paulino da Silva, celebrizado como Ranchinho, pintor radicado em Assis, interior de São Paulo, onde faleceu em 2 de fevereiro de 2003. Basta observar esse tipo de tela para perceber que se está perante um artista de composições bem definidas, cores marcantes e temas geralmente ligadas ao interior, com numerosas imagens de Assis, como trens, circo, galinhas, caminhões e cenas de colheita e rodeio.

No entanto, em vez de observar esses atributos do artista, a maioria dos jornalistas e críticos que conhece a sua obra prefere acentuar a biografia do pintor, não o seu talento com formas, cores e tintas. Por isso, já foram escritas dezenas de páginas sobre a deficiência mental do artista, seu analfabetismo, dificuldade de falar e exibicionismo sexual, contornado a partir do momento em que ele se dedicou em tempo integral à arte, mas pouco se analisou seu estilo ora impressionista ora expressionista, mas sempre vigoroso, dotado de uma linguagem própria.

Marcado por hábitos, como freqüentar a missa duas vezes por dia, além de acompanhar velórios e casamentos, Ranchinho ganhou a fama de artista exótico, repleto de manias, que decorriam, provavelmente, do fato de essas ocasiões solenes serem as únicas em que o artista podia estar presente sem ser expulso ou humilhado, marginalizado que foi na cidade por fugir aos padrões de normalidade comumente aceitos, tanto em termos de aparência como de atitudes.

Em missas, enterros e casamentos, Ranchinho teve a sua única oportunidade de se inserir numa sociedade que tendia a excluí-lo. Para entender esse alheamento, é preciso conhecer o perfil do artista. Nascido em 1923, na fazenda Santo Humberto Lameu, município de Oscar Bressane, próximo a Assis, Sebastião era filho de um casal de bóias-frias. Sem falar ou ouvir direito, engatinhou até os quatro anos e, quando começou a andar, o fez de maneira desajeitada. Com esse histórico, foi expulso da escola, já que não conseguiu acompanhar as aulas, e só arrumou um trabalho fixo: auxiliar de João Romeiro, vendedor de garapa em Assis.

Para piorar, Sebastião perdeu o pai com dois anos; o irmão mais velho e a mãe, com 25 anos; e o patrão e amigo João Romeiro, conhecido como Garapeiro, com 31 anos. Passou então a morar em pequenos ranchos abandonados, de onde veio o apelido Ranchinho, que detestava no começo, mas o qual assumiu ao perceber que era esse nome com o qual era identificado como pintor de talento. Para subsistir, ele vendia papéis, latas e garrafas, além de receber comida e roupas de alguns caridosos moradores de Assis.

Sebastião, que, desde a escola, costumava realizar desenhos, com tocos de lápis e giz de cera, continuou a criar imagens em cadernos velhos que ganhava de crianças, e entrou definitivamente para o mundo da pintura pelas mãos do corretor de seguros José Nazareno Mimessi, um assissense apaixonado pela arte de raízes populares, que estimulou o então artista em potencial a pintar em guache, promovendo, nos anos 1970, uma série de exposições na cidade, com ampla repercussão, rendendo mostras em São Paulo, uma crônica emocionada e emocionante de Lourenço Diaféria, mestre do gênero, e um artigo exaltando seu talento na revista semanal Veja.

Com esse sucesso da crítica, o artista passou a ser respeitado enquanto pessoa, mas ganhou a incômoda fama de artista excêntrico, que impediu suas telas de serem analisadas por si mesmas, deixando de lado sua biografia. As telas de Ranchinho, que após realizar experiências com óleo, se fixou na tinta acrílica, diluída de modo a acompanhar o tempo de composição do artista, são autênticas narrativas. Isso ficava evidente ao se visitar o seu ateliê, em Assis, onde morava com o sobrinho Juvenil José da Silva, que foi seu curador e tutor.

Ao mostrar os próprios quadros, Ranchinho se entusiasmava. Embora com sérias dificuldades de articulação de sons, identificava figuras (auto-retratos, Mimessi, Juvenil e a esposa, políticos e padres da cidade) e temas (delegacia, igrejas de Assis, a unidade da Universidade Estadual Paulista da cidade), com visível prazer, consciente de que é a arte o livrava da marginalidade e o tornava o centro das atenções.

A obra de Ranchinho merece, portanto, no mínimo, duas leituras. Primeiro, temos admiração pelos seus quadros. Depois, pela sua trajetória de vida. Com a simplicidade de uma criança e o talento de um gênio artístico, suas obras nos fazem refletir sobre a fragilidade da condição humana.

Assim, o Ranchinho pintor reabilitou o cidadão Sebastião. Por meio das telas, o primeiro se comunicou com o mundo e, graças e elas, foi aceito. Antes impedido de entrar na cidade, que visitava à noite em busca de comida, o artista ganhou respeito pelo seu talento. E ele, sabendo disso, mostrava com orgulho as fotos que tirou em São Paulo, quando ali esteve expondo.

Pinceladas firmes, imagens noturnas repletas de vida e alegres circos tiraram Ranchinho da marginalidade e do anonimato. Muito além do batido trocadilho de que é um excepcional artista, não um artista excepcional, o autodidata Ranchinho dominava de forma admirável a técnica da perspectiva, que utilizava em cenas de casamento – um deles, engraçadíssimo, em que é servido ovo frito na festa – , quintais com animais domésticos e moças pulando cercas ao se deparar com bois ou cobras.

Ranchinho, portanto, não é apenas um grande artista. Ele também oferece uma lição de vida. Especificamente no âmbito artístico, ao recriar o mundo com seus pincéis, coloca-se como um exímio pintor. E, enquanto ser humano, com sua simplicidade e sorriso aberto, faz lembrar que a vida pode ser simples, embora nos a compliquemos a cada instante.

 

 

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