por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

 

Rakel

 

Alegorias de Sísifo

 

O pintor Braque, segundo conta a escritora Lara Vinca Masini, teria dito que “em arte, só uma coisa conta: o que não pode ser explicado”. Essa afirmação, já de grande relevância para o mundo dos criadores, talvez seja de importância ainda maior para aqueles que se dedicam ao universo da cerâmica.

A explicação é simples. O trabalho com a matéria-prima nos fornos, seja de alta ou de baixa temperatura, exige a humildade de lidar sempre com uma parcela de acaso e de imprevisibilidade. E, para isso, é necessária uma grande humildade. A soberba, que não faz bem a nenhum ser humano, é pecado mortal num ceramista.

No trabalho de Rakel, há uma faceta curiosa e outra indagadora. Curiosa, por despertar nossa tenção desde o primeiro momento; e indagadora, por nos motivar a enxergar onde essa linha de trabalho pode chegar em suas mãos, tanto no processo de modelagem como no de pintura.

Trata-se de uma faceta que ela chama de objetos lúdicos, mas que prefiro ver como Alegorias de Sísifo, aquele célebre personagem do mito grego condenado a levar uma pedra morro acima para, eternamente, vê-la rolar para baixo e, pacientemente, ter que recomeçar a tarefa, num exercício sem recompensa.

Os lúdicos de Rakel são, à primeira vista, utilitários com a interferência de um ser humano nas mais diferentes posições. Ele nem sempre surge fazendo algum esforço, mas aparece interagindo de alguma maneira com o objeto. Há entre a pessoa e o meio que a cerca um diálogo, mais ou menos explícito, mas onipresente.

Difícil não ver esse homem junto ao prato ou vasilha como um ser feliz. Está sugerida em cada imagem uma certa pequenez perante uma realidade maior que a dele. É a situação análoga de cada um de nós, constantemente em luta, variavelmente agradável ou agressiva de acordo com o momento existencial e a  realidade que nos cerca.

Rakel comenta que o trabalho com essas figuras escultóricas surgiu inspirado em ações realizadas pelos amigos. As atividades deles, como a de praticar montanhismo, foram transportadas para as figuras humanas em linguagem escultural junto  à cerâmica. A questão é que essa percepção das ações do dia-a-dia aponta para a matriz da própria arte, ou seja, a discussão das origens, do presente e do futuro da humanidade.

Originalidade em arte não significa propor novas questões, mas tratar as de sempre sob uma nova luz, uma nova temperatura, que pode ser a do forno a queimar o barro existencial de cada um de nós. A verdadeira jornada de Sísifo não é a de levar a pedra para o alto, mas a de mergulhar em si mesmo nesse processo.

O inexplicável em arte, como teria apontado Braque, é a grande montanha a ser vencida. Aceitar o desafio da escalada, como se propôs Rakel, é um ato de grandeza existencial e de eterna devoção a uma prática cujo maior ensinamento é um só: cada nova peça é um passo na caminhada de Sísifo no interior de sua alma.

Assim, cada nova peça de Rakel que entra no forno traz um incerto resultado, análogo à aventura humana da artista de amar o seu caminhar, mesmo sem ter a exata certeza de para onde as chamas da vida a levam.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

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