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Quintessência, de Adriana
Zudin
O vidro, em sua
forma pura, é um material
transparente,
relativamente
forte e
resistente. Inerte e
biologicamente
inativo, formado em geral com superfícies muito lisas e impermeáveis,
ganha, ao ser trabalhado artisticamente, novas conotações, muitas
presentes no próprio ato de confecção do material.
Com a adição de outros
compostos químicos ou
tratamento de calor,
o vidro se multiplica em beleza, formas e cores. A artista plástica
Adriana Zudin pesquisa esse rico universo de possibilidades e, nesta
exposição, faz uma leitura do material focalizada na busca da
Quintessência, conceito que permite, no mínimo, duas leituras.
Para
Aristóteles, a quintessência seria o elemento etéreo que compõe as esferas
celestes. Distinto das quatro propriedades naturais (terra, água, fogo e
ar) que constituem os corpos densos do nosso mundo, seria o éter,
entendido como o fluido imaterial que permearia todo o espaço sideral.
Com a Teoria da Relatividade
de Einstein, essa idéia de éter ficou ultrapassada, mas se mantém a
mística de que a quintessência constitui algo que está além dos quatro
elementos. Por isso, a presente exposição apresenta, em sua parte
principal, trabalhos que lidam, metaforicamente, com os quatro elementos e
com um quinto, que seria a combinação e superação deles todos.
O termo quintessência
comporta, mais modernamente, um outro sentido. Se a ciência,
principalmente a Física, debruça-se sobre estudos de quatro variáveis (o
espaço, o tempo, a matéria e o movimento desta última), a quintessência
lidaria com outros fatores, certas “variáveis desconhecidas” que tanto
agradam aos esotéricos.
Trabalhar com os
conceitos de terra, ar, água e fogo e suas variáveis em termos de espaço,
tempo, matéria e movimento dão a esta exposição seu sentido primeiro: o de
um projeto de pesquisa voltado para a exploração de limites do material e
da capacidade da artista plástica de transformar a abstração das idéias em
objetos concretos de grandes proporções.
Tal pensamento tem seu
complemento na exposição de peças menores, adequadas para ambientes mais
intimistas ou de dimensões reduzidas, que comprovam a versatilidade do
vidro e o poder de Adriana Zudin de lidar com ele das mais variadas
formas.
É possível ainda instalar um
espaço lúdico, onde as pessoas terão a oportunidade de tocar peças e
fragmentos de vidro pintado, assim como conhecer pigmentos, paleta de
cores e estudos a respeito de sobreposições e variações cromáticas.
A horizontalidade da terra,
as ondulações da água, a conquista do espaço do ar ou o movimento
reluzente de uma chama de fogo – palavra que, em grego, alude à
inteligência, ou seja, à capacidade humana de respeitar e dominar os
materiais, por mais imprevisíveis que sejam, como o vidro – são os
desafios a serem vencidos e superados.
Cada peça mostrada nesta
exposição, busca, portanto, em última análise, a Quintessência do existir,
seja em sua versão aristotélica, física ou esotérica ou, acima de tudo,
plástica. Isso significa desconhecer barreiras criativas, valendo-se, o
máximo possível, de toda a liberdade que a arte propicia.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes
da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-
Seção Brasil).
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