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Que
naïf sou eu?
Desde 1999, a
partir de pesquisa para escrever o livro Os pincéis de Deus: vida e
obra do pintor naïf Waldomiro de Deus, venho encontrando as mais
diversas definições do que seja a arte chamada naïf ou primitivista. Até
hoje, sete anos depois, nenhuma me convenceu completamente, já que a
maioria provém de críticos ou galeristas interessados mais em defender
certos espaços na academia ou no mercado do que em observar de perto os
artistas e os seus trabalhos.
De modo geral,
os conceitos mais utilizados concordam em definir o estilo naïf
como marcado pelas cores vivas, imaginação, estilização e um
poder de síntese levado para a tela com uma técnica aparentemente
rudimentar. Nesses aspectos, poder-se-ia dizer que a arte naïf brota do
inconsciente coletivo. Isso
aponta para dois elementos fundamentais: ela estaria em constante renovação
e se deixa penetrar por influências eruditas, embora conserve sua
natureza própria. Sabedoria popular e imaginação individual e coletiva
se irmanariam em obras difíceis
de definir sob uma única catalogação.
A oportunidade
de participar do júri de seleção da Bienal Naïfs do Brasil de 2006
aprofunda minha convicção de que o gênero, fortemente vinculado à arte
popular, ainda não é devidamente valorizado internamente, talvez por ser
produzida por artistas não-eruditos, a partir de temas populares
geralmente inspirados no meio rural, mas progressivamente adentrando no
universo urbano, em boa parte dos casos com uma rejeição às regras
convencionais da pintura, seja por escolha ou, na maioria dos artistas,
por falta de acesso a elas.
Percorrer o
mundo dos naïfs é um grande e fascinante desafio. Mergulhar na arte de
origem popular e encontrar
talentos obriga a conhecer o maior número possível de artistas,
identificando características que tornam alguns desses pintores
expoentes do que há de artisticamente melhor, dando-lhes destaque não
somente como naïfs, mas colocando-os entre os principais nomes da arte
universal, independente de categorias, estilos, nomenclaturas e temáticas,
que podem ser a prevalência do onírico e do imaginário, da crítica
social, da violência urbana ou a valorização idílica da zona rural e
das suas atividades econômicas e sociais.
Por tudo isso,
após a fase inicial em que a Bienal foi conduzida pelo entusiasta
pesquisador Antonio Nascimento, a partir de 2004, a presença de um
curador transforma em obrigação a discussão do que vem a ser essa
decantada arte naïf. No entanto, permito-me a liberdade de considerar
que, mais uma vez, a questão é posta na mesa de forma equivocada.
Pergunta-se
aos críticos o que vem a ser o naïf. Não seria mais lógico inverter a
questão e interrogar os artistas do evento por que eles se consideram naïfs?
No momento em que artistas, de praticamente todos os Estados brasileiros,
decidem enviar os seus trabalhos para avaliação de uma comissão
julgadora para participarem de uma Bienal Naïf, cabe indagar o que os
leva a isso.
Por que eles
acham que são naïfs? Quando se vêm no espelho e quando olham o
trabalho, antes de enviá-lo pelo correio, identificam-se, mais ou menos
conscientemente em cada caso, como naïfs e, quando esperam o resultado do
júri, seja positivo ou negativo, necessariamente, no íntimo de sua alma,
colocam-se face a face com a pergunta: Que naïf sou eu? A
comissão julgadora desta Bienal, com suas limitações humanas e atribuições
regulamentares dá a todos a sua resposta, uma das múltiplas possíveis.
Durante os próximos dois anos os que foram avaliados, estejam nesta
Bienal 2006 ou não, poderão refletir sobre os resultados e – quem sabe
– enviar novas obras sobre essa mesma pergunta a acompanhá-los de forma
perene: –
Mas, afinal, que naïf sou eu? Oscar
D’Ambrosio, jornalista, autor dos livros Os pincéis de Deus: vida e
obra do pintor naïf Waldomiro de Deus, Contando a arte de
Ranchinho e Contando a arte de Waldomiro de Deus, entre outros,
é professor voluntário do Instituto de Artes da UNESP, campus
de São Paulo, onde apresentou sua dissertação de mestrado O Van
Gogh feliz: vida e obra do
pintor Ranchinho de Assis. Integra a Associação Internacional de Críticos
de Artes (AICA-Seção Brasil).
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