por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

 

Que naïf sou eu?

 

            Desde 1999, a partir de pesquisa para escrever o livro Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus, venho encontrando as mais diversas definições do que seja a arte chamada naïf ou primitivista. Até hoje, sete anos depois, nenhuma me convenceu completamente, já que a maioria provém de críticos ou galeristas interessados mais em defender certos espaços na academia ou no mercado do que em observar de perto os artistas e os seus trabalhos.

            De modo geral, os conceitos mais utilizados concordam em definir o estilo naïf  como marcado pelas cores vivas, imaginação, estilização e um poder de síntese levado para a tela com uma técnica aparentemente rudimentar. Nesses aspectos, poder-se-ia dizer que a arte naïf brota do inconsciente coletivo.

Isso aponta para dois elementos fundamentais: ela estaria em constante renovação e se deixa penetrar por influências eruditas, embora conserve sua natureza própria. Sabedoria popular e imaginação individual e coletiva se irmanariam  em obras difíceis de definir sob uma única catalogação.

            A oportunidade de participar do júri de seleção da Bienal Naïfs do Brasil de 2006 aprofunda minha convicção de que o gênero, fortemente vinculado à arte popular, ainda não é devidamente valorizado internamente, talvez por ser produzida por artistas não-eruditos, a partir de temas populares geralmente inspirados no meio rural, mas progressivamente adentrando no universo urbano, em boa parte dos casos com uma rejeição às regras convencionais da pintura, seja por escolha ou, na maioria dos artistas, por falta de acesso a elas.

            Percorrer o mundo dos naïfs é um grande e fascinante desafio. Mergulhar na arte de origem popular e encontrar talentos obriga a conhecer o maior número possível de artistas,  identificando características que tornam alguns desses pintores expoentes do que há de artisticamente melhor, dando-lhes destaque não somente como naïfs, mas colocando-os entre os principais nomes da arte universal, independente de categorias, estilos, nomenclaturas e temáticas, que podem ser a prevalência do onírico e do imaginário, da crítica social, da violência urbana ou a valorização idílica da zona rural e das suas atividades econômicas e sociais.

            Por tudo isso, após a fase inicial em que a Bienal foi conduzida pelo entusiasta pesquisador Antonio Nascimento, a partir de 2004, a presença de um curador transforma em obrigação a discussão do que vem a ser essa decantada arte naïf. No entanto, permito-me a liberdade de considerar que, mais uma vez, a questão é posta na mesa de forma equivocada.

            Pergunta-se aos críticos o que vem a ser o naïf. Não seria mais lógico inverter a questão e interrogar os artistas do evento por que eles se consideram naïfs? No momento em que artistas, de praticamente todos os Estados brasileiros, decidem enviar os seus trabalhos para avaliação de uma comissão julgadora para participarem de uma Bienal Naïf, cabe indagar o que os leva a isso.

            Por que eles acham que são naïfs? Quando se vêm no espelho e quando olham o trabalho, antes de enviá-lo pelo correio, identificam-se, mais ou menos conscientemente em cada caso, como naïfs e, quando esperam o resultado do júri, seja positivo ou negativo, necessariamente, no íntimo de sua alma, colocam-se face a face com a pergunta: Que naïf sou eu?

A comissão julgadora desta Bienal, com suas limitações humanas e atribuições regulamentares dá a todos a sua resposta, uma das múltiplas possíveis. Durante os próximos dois anos os que foram avaliados, estejam nesta Bienal 2006 ou não, poderão refletir sobre os resultados e – quem sabe – enviar novas obras sobre essa mesma pergunta a acompanhá-los de forma perene:

– Mas, afinal, que naïf sou eu?

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, autor dos livros Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus, Contando a arte de Ranchinho e Contando a arte de Waldomiro de Deus, entre outros, é professor voluntário do Instituto de Artes da UNESP, campus de São Paulo, onde apresentou sua dissertação de mestrado O Van Gogh feliz: vida  e obra do pintor Ranchinho de Assis. Integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

 

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