por Oscar D'Ambrosio


 

 


Quarteto de rastros     

 

            Técnica de gravação que permite a representação de formas, figuras, linhas e símbolos sobre uma superfície dura, a gravura pode ter o seu traçado feito com cinzel, buril, bisel, roseta, agulha ou qualquer outro instrumento. Transposto para o papel adequado por meio de prensas próprias, oferece um sem-número de possibilidades de interpretação do mundo.

            A exposição coletiva Rastros, de Cassiano Pereira Nunes, Ivone Beltran, Luiz Martins e Marina Martinelli, mostra bem como cada artista pode utilizar a técnica com uma linguagem própria. O título do evento, na Bita Art Lofts, em São Paulo, de 25 de outubro a 6 de novembro em 2005, alude, segundo o Novo Aurélio, a um “instrumento para quebrar torrões de terra” ou ainda indício, vestígios e sinais.   

            Nessa perspectiva, cada rastreador se vale das armas poéticas de que dispõe para realizar o seu trabalho. Cassiano, por exemplo, encontra soluções no jogo entre os traços firmes que marcam áreas contornos e jogos espiralados e hachurados que criam enigmáticos portais.

            Em Ivone Beltran, o vigor se faz presente nas diversas imagens criadas graças a, principalmente, dois recursos: o senso de profundidade e o movimento. Assim, as árvores ganham, por exemplo, uma dimensão mágica, como se estivessem conquistando o espaço que lhes é atribuído pela artista. Elas querem se expandir e ocupar o universo físico e mental do observador.

            Luiz Martins trabalha com um universo menos figurativo, mas, ao contrário do que se pode esperar, não menos sensível. Suas curvas perpassam o suporte com fluente delicadeza e elegantes símbolos ancestrais a nos apontar continuamente o efêmero de nossa humanidade.

            A poética de Marina Martinelli se dá pela liberdade. As suas composições revelam uma linguagem relacionada aos grandes espaços. A gravura é utilizada com uma concepção artística sempre muito próxima ao desenho, em que há não há espaço para contenção, mas uma comunicação visual baseada na soltura das imagens e traços.

            De fato, Cassiano Pereira Nunes, Ivone Beltran, Luiz Martins e Marina Martinelli utilizam a gravura para estabelecer seus próprios traços e riscos. Cada qual a sua maneira, realizam um quarteto de rastros, sem perder estilos próprios, acentuando diferenças, mas unidos pelo uso de uma técnica que exige esmerada dedicação e sensibilidade na composição de cada marca a ser impressa.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 
 

 

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