por Oscar D'Ambrosio


 

 


Projeto Workshop Internacional de Artes Visuais

 

            Viajar: a arte de vivenciar

 

            O escritor e ensaísta francês Michel de Montaigne (1533-1592), em “Da vaidade”, alerta que viajar é “proveitoso”:  “A alma exercita-se incessantemente em observar coisas desconhecidas e novas”. Argumenta ainda que não conhece escola melhor do que ser apresentado à “diversidade de outras tantas vidas, costumes e fantasias”.

            Toda viagem é uma mudança não apenas do lugar, mas de elementos internos e externos. A comida, os odores, os ambientes , principalmente, as visões de mundo, são alteradas em cada passo e olhar. Geram, então, um novo ser, capaz de criar outros trabalhos, não melhores ou piores, mas diferentes.

            A presente exposição é o resultado do Workshop Internacional de Artes Visuais de São Paulo, que ocorreu de 21 de março a 9 de abril de 2006, evento realizado em conexão com o Remisen Akademi Workshop da Dinamarca que, desde 2002, inclui a participação de artistas brasileiros.

Estão reunidos nesta exposição dois artistas dinamarqueses, Steen Rasmussen e Finn Have, e um japonês, Rikuo Ueda, que passaram aproximadamente 20 dias em São Paulo. Em contato com os artistas brasileiros Martins de Porangaba, Sergio Lucena e os irmãos Carlos e Rubens Matuck, que conheceram a Dinamarca graças ao intercâmbio, tiveram a chance de vivenciar, dentro e fora dos ateliês, situações que, de uma forma ou de outra, trouxeram novos elementos de reflexão para o trabalho de todos os envolvidos.

            Membro da Sociedade Artística da Dinamarca, Steen Rasmussen, que faz constantes viagens pela Europa, Japão e, mais recentemente para o Brasil, realizou dois trabalhos complementares, unidos pela gestualidade. Um deles inclui obras feitas sobre tampões de mesa e se caracteriza pelo uso de diversos materiais, em negros e ocres, criando uma atmosfera próxima ao expressionismo. O outro, mais delicado, comporta pinturas com interferência de nanquim sobre o cair de folhas do “outono” brasileiro, num exercício de interação com a natureza.      

            Por sua vez, o dinamarquês Finn Have, autodidata especialista em retratar paisagens, considerado um dos principais artistas plásticos de seu país, realizou um curioso trabalho a partir dos fios que preenchem os céus paulistanos. Essa estrutura visual caótica, ausente nos países nórdicos, foi o mote para desenvolver uma combinação entre a composição dos cabos e pássaros sobre eles pendurados, em momentos em que as diferenças do céu se tornam marcantes: cinzento, no universo dinamarquês; em tons de azul, na realidade paulistana.

Coube ainda ao anfitrião dos artistas estrangeiros no Brasil, o percussionista Magno Bisoli realizar uma composição em que transformou em sons a posição dos pássaros nos fios, numa rica interação entre as artes plásticas e a música, num jogo de ritmo, em que a arte, via imagem e som, supera barreiras culturais e permite realizar viagens mentais.

            A natureza, mais especificamente o vento, foi o foco do trabalho de Rikuo Ueda. Ele coloca, na extremidade de galhos, caniços ou de uma vara de pescar, bastões de óleo e outros materiais que, com o balançar sucessivo propiciado pela natureza e, às vezes, estimulado pelo próprio artista, imprime à tela, ao papel ou mesmo a uma das paredes de uma caixa de fósforo, um gesto gráfico.

            Paralelamente, com pequenos galhos, papéis japoneses e objetos de extrema delicadeza, Ueda constrói esculturas de grande poeticidade, marcadas por um aparente esforço mínimo de composição que leva a um resultado plástico encantador pela leveza. Seja na pintura propiciada pelo fluir do vento ou pelas pequenas esculturas, o artista japonês torna-se um meio para a expressão da natureza. Dá uma lição de humildade e de redução do próprio ego perante a dimensão infinita da natureza, não deixando espaço para qualquer pretensão individualista de se sentir o centro do mundo.

            Os artistas brasileiros que receberam os convidados do workshop, por sua vez, apresentam suas próprias linguagens. Martins de Porangaba trabalha, em acrílico sobre tela, com o uso significativo da cor, o universo das relações psicológicas e físicas entre o lobisomen e a donzela. Instaura-se assim um jogo entre sedução, prazer e terror caracterizado pela rica relação entre figuras e fundos.

            Sergio Lucena surge com suas paisagens, plenas de significado pictórico e  simbólico. Ao adotar esse assunto quando esteve na Dinamarca, em 2005, após uma viagem de trem de quatro horas que o levou a refletir sobre o próprio sentido do tempo, do espaço e da arte, o artista oferece, com seus jogos de camadas sobrepostas e técnica acurada, a oportunidade de perscrutar a resposta que cada um dá para a trajetória da vida.        

Carlos Matuck desenvolve uma pesquisa em que parte livremente de fotografias de pessoas presas, tanto no Brasil como nos EUA, de perfil e de frente, para realizar uma complexa, lúdica e infinita relação entre a técnica do retrato, o desenho, marcado pela técnica da hachura, a pintura e a caligrafia. Os rostos são invadidos pelas letras num processo em que a escrita das sentenças e dos processos vai progressivamente anulando a identidade de cada presidiário. Letras se tornam imagens e figuras se tornam textos num casamento entre a técnica e a sensibilidade.

Rubens Matuck apresenta seus dobradinhos. Trata-se do retorno a um desenvolvimento de raciocínio em que o uso da têmpera e do nanquim, em imagens articuladas em “V”s sobre linho, com resultados finais que oscilam entre negros, pretos e cinzas construindo jardins submarinos, em que vegetações e peixes se fundem num universo de sonho, marcado pela capacidade de derrubar os limites entre o real e o imaginário, estabelecendo um universo de pura poesia em que o saber fazer se alia ao sentir instaurando o olhar lírico e imaginativo daqueles que sabem que a arte só tem sentido se consegue se comunicar com o outro.

            O poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) já escreveu que viajar é “Ser outro constantemente,/Por a alma não ter raízes/De viver de ver somente!//Não pertencer nem a mim!/Ir em frente, ir a seguir/A ausência de ter um fim,/E da ânsia de o conseguir”. Os sete artistas que participaram do Workshop de 2006, cada qual a seu modo, realizou essa jornada, transformando em resultado plástico a sua vivência interior.   

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 



 

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