por Oscar D'Ambrosio


 

 


Projeto Terra à Vista

 

            Dois jovens que moram em Embu, cidade paulista tradicionalmente ligada à arte, com sua tradicional feira artística e nomes que são referências na arte popular como Raquel Trindade, estão embarcando numa jornada que pode mudar as suas vidas e levar a cidade a ter uma projeção internacional.

O projeto de Ronaldo Carvalho de Farias, o Meola, 30 anos, e Eliezer de Souza Cruz, o Teté, 25,  têm como objetivo construir e levar para Portugal réplicas, com aproximadamente 1,20 m de comprimento e 60 cm de altura, feitas de madeira e materiais reciclados, das 13 naus da frota liderada por Pedro Álvares de Cabral, em seu “achamento” do Brasil, ocorrido em 22 de abril de 1500.

            As réplicas das embarcações serão feitas num galpão do Embu, com a participação de ajudantes, e levadas inicialmente para a Casa de Portugal, em São Paulo. Depois, com apoio da Câmara Municipal de Santarém, serão expostas na Casa do Brasil dessa cidade portuguesa, sediada no local onde Cabral morou por algum tempo, sendo que uma das naus ficará, a título de doação, na instituição lusa.

 

            HISTÓRICO

            De origem humilde, autodidatas, Meola e Teté, que está atualmente no terceiro semestre do curso superior de Artes, em Taboão da Serra, começaram a trabalhar juntos em 1999 fazendo uma série de replicas de embarcações egípcias, fenícias e de outras nações, traçando um percurso da maneira como o ser humano, ao longo dos séculos, foi dominando os mares.

            A idéia de construir a frota de Cabral, para celebrar, em abril de 2009, o “achamento do Brasil”, constitui uma iniciativa inédita e uma jornada inversa à ocorrida em 1500, já que seriam agora Meola e Teté, artesãos brasileiros, que construiriam as naus que “desembarcariam” em solo português.

            O projeto constitui ainda uma excelente oportunidade de discutir as circunstâncias da vinda de Cabral ao Brasil, no período das grandes navegações, quando Portugal e Espanha exploravam o oceano em busca de novas terras, riquezas e relações comerciais.

            Afinal, poucos anos antes da descoberta do Brasil, em 1492, Cristóvão Colombo, navegara com apio espanhol, chegando à América, o que  ampliou as expectativas dos exploradores, e, em 17 de abril de 1498, o português Vasco da Gama avistou Calicute, estabelecendo a rota pelo Oceano Índico que permitia chegar às Índias por via marítima.

 

            A FROTA

            A frota liderada pelo fidalgo Pedro Álvares Cabral, filho de Fernão Cabral, alcaide-mor de Belmonte, era patrocinada pelo rei D. Manuel I e tinha como objetivo chegar novamente às Índias. Enquanto a de Vasco da Gama tinha apenas quatro embarcações e 150 pessoas, a sua era composta por 13 navios e mais de mil pessoas – cada um recebendo uma cota diária de 400 g de biscoitos e 1,4 litro de vinho.

A partida foi dia 8 de março de 1500, com o objetivo de concluir relações comerciais com os portos índicos de Calicute, Cananor e Sofala, iniciadas na viagem de Vasco da Gama. Dia 14, a frota estava nas Canárias e, em seguida, chegavam a Cabo Verde, afastando-se, depois, da costa africana.

            Dia 22, Cabral avistou o que viria a chamar Monte Pascoal, dando à terra o nome de Ilha da Vera Cruz, depois Terra de Santa Cruz, atual Porto Seguro, no estado da Bahia. O desembarque foi dois dias depois, na Baía Cabrália. Ali permaneceram até 2 de maio, quando rumaram para a Índia, deixando dois degredados e dois grumetes que desertaram.

 

AS CARAVELAS

A partir de 1441 os portugueses passaram a utilizar caravelas nas suas viagens de exploração atlântica. Tratava-se do tipo de embarcação necessária pelas suas principais qualidades: velejar bem perante os mais diversos tipos de vento e necessidade de percorrer zonas marítimas às vezes de águas pouco profundas.

            De fato, no século XV, a caravela portuguesa foi considerada o melhor veleiro da época. Geralmente tinha dois mastros com velas latinas, embora as maiores pudessem apresentar três mastros. Tinha apenas um castelo de popa e uma coberta. A sua tripulação oscilava entre 15 ou 20 homens, chegando ao máximo de 60. Embora pudessem viajar sozinhas, em grandes missões eram formadas armadas de várias unidades.

 

            CABRAL

            O Projeto Terra à Vista inclui, entre suas preocupações, a discussão também da figura de Cabral. Nascido em Belmonte, por volta de 1467-1468, nono filho de Fernão Cabral, alcaide-mor de Belmonte e regedor da justiça real na comarca da Beira e Ribacoa, e de Isabel Gouveia, ele recebeu refinada instrução intelectual e no uso de armas.

            Prestou serviços no Norte da África e, após o regresso de Vasco da Gama das Índias, em 1499, foi nomeado capitão-mor de uma armada de 13 navios (10 naus e três caravelas) para uma segunda expedição à Índia para estreitar relações de amizade e alianças de comércio com Calicute, de forma a assegurar o domínio da rota e do comércio de especiarias, além de difundir o cristianismo entre os povos do Oriente.

Em 31 de julho de 1501, em seu retorno a Lisboa, após passar por Brasil e pelas Índias, Cabral foi aclamado como herói, embora dez naus tivessem se perdido na jornada. Convidado por D. Manoel para retornar ao Oriente, houve desentendimento quanto ao comando da expedição.

Vasco da Gama assumiu o posto, e Cabral caiu em desgraça, não recebendo mais missões oficiais. Faleceu esquecido e foi sepultado na Igreja da Graça cidade de Santarém, em 1520 ou 1526. Atualmente, há estátuas dele no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Lisboa e em Santarém.

 

            CONCLUSÃO

            Como um todo, o Projeto Terra à Vista retoma a viagem da esquadra portuguesa ao Brasil sob uma nova perspectiva. É uma maneira de artistas brasileiros devolverem a Portugal as naus que acharam o Brasil na forma de um trabalho plástico de estrema qualidade e detalhamento, fruto de intensa pesquisa e motivador de numerosas discussões sobre o significado do dia 22 de abril para brasileiros e portugueses e da maneira como a arte pode – e deve – ser valorizada nessse contexto.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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