por Oscar D'Ambrosio


 

 
 
Construção de um projeto plástico

 

            O trabalho de confecção de tapetes é uma arte antiga praticada por povos nômades do Afeganistão durante milhares de anos. Trata-se também de uma autêntica lição de como criar e administrar um projeto, em qualquer área do conhecimento, principalmente na de artes plásticas, onde, cada vez mais, a conquista de espaço em galerias ou museus exige a elaboração de um pensamento que acompanhe a obra. Vamos agora seguir os passos da feitura de um tapete e os ensinamentos para quem deseja apresentar um projeto plástico.

 

            VERDADE INTERIOR         

            Passo I: Para os nômades balúchis, que vivem no Afeganistão, com uma vida errante, num ambiente árido e inóspito, de pouco dinheiro e poucas posses, ter um tapete artesanal ricamente colorido é muito importante. O desenho e a tecelagem dessa obra tem um grande significado.

            Ensinamento I: Elabore um projeto que contenha a sua verdade interior. Se ele não for significativo para você, dificilmente será para os outros.

 

            DISCUSSÃO E PESQUISA

            Passo II: Após algum evento, como uma festa ou aniversário, a família afegã começa a discussão do projeto. O chefe comanda o debate e os mais velhos expressam as suas idéias sobre o desenho, prazo, custo e fonte de finanças, antes de se tomar a decisão sobre o caminho a prosseguir.

            Ensinamento II: A discussão interna e externa é um passo essencial. Ouça e pesquise, mas não se esqueça de que há limitações materiais e prazos a serem cumpridos.

 

            ESCOLHA DO ESCOPO

            Passo III: Um desenhista profissional é pago para  preparar uma seleção de projetos adequados para apreciação. Ocorre uma discussão para a escolha final do desenho e da cor.         Ensinamento III: A escolha do percurso a seguir é a parte mais complexa. É preciso definir claramente o escopo do projeto. Dessa decisão é que vai depender, em boa parte, o resultado.        

 

            PLANEJAMENTO

Passo IV: Quando se chega a um acordo com o desenhista quanto à obra e o preço a ser pago, é o momento de selecionar os materiais: lã, cânhamo, algodão ou algum outro material, além de corante para produzir as ricas cores do complicado desenho.

Ensinamento IV: Decidido o escopo, é preciso ter em conta três fatores a serem planejados: o material a ser utilizado, o custo e o tempo de produção.

 

SELEÇÃO DO MATERIAL

            Passo V:  O desenhista acompanha os aldeões ao mercado para selecionar os materiais. A lã e o algodão são comprados sem que estejam tingidos. Por isso, o grupo, vai a um tintureiro para discutir os tons exatos desejados.

Ensinamento V: A escolha do material adequado à idéia concebida torna-se um momento crucial.

 

GESTÃO DE RISCOS

Passo VI: A primeira fase da confecção consiste no processo de tingimento. Corantes vegetais ou à base de anilina são misturados e a lã é colorida em cada um dos vários tons para completar o desenho. A dificuldade está em que a quantidade correta do material seja tingida em cada cor. Qualquer excesso de produção de uma cor, levará à escassez de outra. A solução é comprar mais lã, mas isso traz dois problemas: maior custo e diferenças da qualidade entre os lotes do produto.

Ensinamento VI: A concepção adequada do projeto reduz problemas. Tente diminuir os riscos para atingir seu escopo. Ser criativo não significa ser desorganizado. Atingir uma cor, por exemplo, é resultado de pesquisa e de um processo, não do acaso.

 

PRODUÇÃO

Passo VII: O tapete é feito num tear, onde a lã é esticada durante o processo manual de estabelecer tramas e urdiduras. Cada felpa é cuidadosamente inserida e  amarrada. Como a madeira não é abundante na região, é preciso ter claro se compensa ter o próprio equipamento, se é possível emprestá-lo de um amigo, alugá-lo ou efetuar algum tipo de negociação. Torna-se necessário ainda possuir ferramentas como a tika,  uma pequena navalha semelhante a uma faca, um pente especial, tesouras e recipientes nos quais a lã será tingida.

Ensinamento VII: A apresentação de um projeto é um trabalho que exige logística. Além da habilidade, é importante verificar as condições técnicas de que se dispõe, saber como encontrar atalhos e ter a humildade de solicitar ajuda.

 

ACABAMENTO

Passo VIII: Quando o tapete está terminado, é lavado em água corrente limpa e levado a um profissional que raspe a penugem excedente, dando um acabamento uniforme.

Ensinamento VIII: O acabamento é, muitas vezes, tudo. Antes de entregar o seu projeto observe atentamente os detalhes. Não descuide da moldura, se julgar necessária, ou de uma base, se considerar fundamental. Essa etapa exige algum tempo e é muito prejudicada se for deixada para a última hora.

 

TEMPO DE RESPIRAÇÃO

Passo IX: Depois, ele é passado a ferro e deixado nos becos e ruelas da aldeia tribal para que o passar dos pés possa realçar sua beleza, permitindo o assentamento das cores.

Ensinamento IX: Mostrar o trabalho a pessoas em quem você confia antes da entrega final é geralmente muito saudável. Ajuda a exercer a auto-crítica e a apreciar melhor as qualidades e defeitos. Entre o acabamento e a entrega, deixe um pequeno prazo para a obra respirar e encontrar seu espaço no mundo.

 

ENTREGA E RECOMEÇO

Passo X: O tapete é finalmente entregue à pessoa para quem foi feito.

Ensinamento X: Nesse momento, o projeto não pertence mais a você. Passa a ser da galeria, de uma banca julgadora, de um júri de seleção ou de um comprador. Ele parte e, a partir da auto-avaliação e dos comentários ouvidos, você já deve estar pronta para recomeçar.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Claudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

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