por Oscar D'Ambrosio


 

 


Projeto Paredes que falam

Fotografias em São Luis do Paraitinga

            Texto: Oscar D’Ambrosio

            Imagens: Patrícia Bigarelli

 

            Quando se olha uma parede, pode-se ver apenas uma estrutura arquitetônica cuja função principal é a divisão dos espaços. Feita de tijolo, gesso, concreto, pedra ou algum outro elemento resistente, para olhares pouco atentos, simplesmente existe. É como se ela fosse atemporal, e sua história e aspecto não fossem importantes.

No entanto, quando quem observa essa mesma parede é um artista plástico, tudo muda. Cada uma delas constitui um universo de diferentes texturas e relações entre as cores num exercício em que o saber olhar ganha uma dimensão criativa e intensa, gerando infinitas possibilidades de entender o espaço.

            Com todo um trabalho pictórico baseado no uso da cor em suas pinturas a óleo, Patrícia Bigarelli vem desenvolvendo há algum tempo pesquisas na área de fotografia nas quais encontra nas paredes detalhes que, de maneira surpreendente e delicada, se assemelham muito à sua própria pintura.

               O foco de seu olhar sobre as paredes coloridas, que oferecem uma riqueza de interpretações próxima ao seu trabalho pictórico, geram o desenvolvimento de toda uma linguagem que tem a cor como objeto primordial se deu, nesta pesquisa, na cidade paulista de São Luis do Paraitinga.

            Localizada a 170 km da capital paulista e 45 km de Taubaté, com aproximadamente 10 mil habitantes em 617 km2, tem seu nome ligado ao rio Paraitinga (“águas claras”, em tupi-guarani), curso d’água onde, desde os tempos dos bandeirantes havia um posto avançado por onde passavam o café e o ouro mineiro.

            Ao ser fundada a povoação em 1769, o nome foi São Luís e Santo Antonio do Paraitinga, sendo mudado depois para São Luís do Paraitinga, quando o padroeiro passou a ser São Luís, Bispo de Tolosa.  Desde 2002,  a cidade se tornou estância turística, tendo na Festa do Divino e no carnaval, caracterizado por marchinhas de origem local, suas principais atrações.

O fato de a cidade ter 90 casarões tombados pelo Condephaat dá um charme todo especial ao município, cujas origens vêm do  final do século XVIII, quando o Vale do Paraíba era a região mais povoada da Capitania de São Paulo e tornou-se uma importante zona de penetração para o interior.

Os bandeirantes iam para o sertão em busca de índios, pedras e metais preciosos e, em conseqüência desse trafego, surgiram vários núcleos de povoamento, como Taubaté e Moji das Cruzes. Por isso, o Capitão Vieira da Cunha e João Sobrinho de Moraes, com a pretensão de povoar a região dos sertões de Paraitinga, solicitaram e receberam do Capitão de Taubaté, Felipe Carneiro de Alcaçouva e Souza as primeiras sesmarias da então Vila de Guaratinguetá.

Dia 2 de maio de 1769, foi fundada, às margens do Paraitinga, entre Taubaté e Ubatuba, a povoação de São Luís e Santo Antonio do Paraitinga. Seis dias depois, o sargento mor Manoel Antonio de Carvalho foi nomeado fundador e governador da nova povoação.

A elevação à Vila ocorreu em janeiro de 1773 e sua instalação dia 31 de março daquele ano. Por lei provincial de 30 de abril de 1857, o local foi elevado à  categoria de cidade e obteve, por título, em 11 de junho de 1873, a denominação de Imperial Cidade de São Luís do Paraitinga.

A vila foi, desde as origens, um entreposto de tropeiros, tendo suas primeiras atividades econômicas ligadas à agricultura de subsistência, como feijão, mandioca, milho e cana de açúcar. Teve rápido progresso no começo, mas depois veio a estacionar na cultura dos cereais e muito mais tarde se deu início à plantação de café e algodão.

São Luís do Paraitinga se caracterizou então pelo desenvolvimento de suas agroindústrias. Essas atividades alimentavam um animado comercio de natureza regional. Na década de 1920 a 1930, por exemplo, a rapadura teve uma importância significativa no mercado urbano da cidade.

            A partir da década de 1930, a pecuária leiteira começou a ganhar importância, e hoje constitui, juntamente com a agricultura de subsistência e o turismo, uma das principais atividades econômicas do município. Na zona rural as fazendas, construídas em taipa e pedra, são ainda conservadas em seus aspectos originais, que representam a fase de prosperidade de São Luís do Paraitinga.

            No centro urbano, os casarões carregados de memórias são atrações à parte. As paredes coloridas transmitem, é claro, alegria, mas isso, que poderia ser apenas um fato de admiração turística e reprodução em fotografias despretensiosas, ganha, neste projeto, uma outra dimensão.

            A seleção de áreas de cor retangulares que parecem falar entre si dão às imagens grande consistência visual. As nuances de sombras com a luz da tarde não funcionam muito bem para ressaltar as cores como também propiciam um intenso jogo visual que contribui para a criação de novos segmentos.

            Certas imagens captadas por Patrícia Bigarelli não recordam momentos criativos que evocam obras de Klee e Mondrian, como remetem a todos aqueles que utilizam a cor como sustentáculo primeiro de seu trabalho plástico, sabendo ver e falar com os pigmentos.

            O envelhecimento das paredes pelo tempo é outro assunto desenvolvido na pesquisa visual. E, nesse aspecto, pode-se de fato dizer que as paredes falam, pois suas ranhuras transmitem toda a história de um tempo nas mais diversas colorações e mesmo na falta delas.

            É possível encontrar em algumas fotografias até quatro texturas diferentes, geralmente com fronteiras bem definidas entre si, como se fossem pessoas desenvolvendo um rico diálogo entre opiniões e temperamentos distintos que se encontram nas paredes de São Luis de Paraitinga.

Com suas imagens, Patrícia Bigarelli dá voz às paredes e as faz falar. Para nossa surpresa, elas têm muito a contar sobre si mesmas, sobre a cidade e, acima de tudo, enquanto objetos plásticos diferenciados. Elas vêm à vida e declaram, com intensidade, que precisam ser vistas sempre com olhos e mente bem abertos.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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