por Oscar D'Ambrosio


 

 


Projeto Movimentos Urbanos

 

            Do latim urbis, urbe é sinônimo de cidade, entendendo-se esta como um complexo demográfico, social e econômico formado por uma concentração populacional não agrícola dedicada principalmente a atividades industriais e terciárias de comércio e serviços. Ali se concentram também equipamentos destinados à moradia, trabalho e circulação, como habitações, edifícios e ruas.

            No entanto, além dessa fria descrição, que lida com questões geográficas e históricas, em suas múltiplas vertentes, as urbes são autênticos fenômenos sociológicos de facetas quase infinitas e, acima de tudo, dinâmicas, pois, se há algo que caracteriza as cidades na sua essência, esse fator é o movimento.

            O Projeto Movimentos Urbanos, das fotógrafas Christiane Ceneviva e Patricia Bigarelli, busca justamente o que existe de essencial no turbilhão de imagens de uma urbe. Não se trata de desafio fácil, já que o tema permite as mais diversas e mesmo inusitadas abordagens.

O segredo para tornar esse caminho diferenciado está na forma de apreender as imagens. Elas saem preferencialmente à noite pelas ruas de São Paulo e começam a clicar instantes sempre com a preocupação de que o resultado esteja comprometido e mesmo dominado pelo conceito de movimento.

Isso significa que o desenvolvimento progressivo de um conceito de predomínio da universalidade. O que está em jogo não é uma cidade específica e os seus personagens, mas os instantes de uma urbe. Ela pode ser a capital paulista, outra metrópole brasileira ou Paris ou Nova York. O essencial é fixar o movimento.

            Isso é atingido por uma preferência pela procura de atmosferas, onde as cores têm um papel fundamental. Na complexidade urbana, registrar o instante se torna uma missão, uma caça de movimentos repentinos em que a grande arte está em registrar flagrantes. O acaso supera o planejamento no sentido de que lidar com o inesperado é fundamental.

            Cada movimento urbano reside numa condenação da repetição. Assim como um quadro ou uma monotipia é única em seu processo criativo, pincelada ou impressão, cada fotografia que busca compreender o que o movimento urbano carrega em si mesma a expressão de um linguajar sobre a cidade.

            Instaura-se uma poética em que o ambiente é mais forte que as pessoas, e o conjunto se diferencia por partir de uma cidade específica e atingir uma forma de comunicação universal. O coletivo supera o indivíduo nessa busca por uma expressão visual autêntica do que significa ser urbano no século XXI.

            As possibilidades de desenvolvimento do projeto, que inclui numerosos recursos, como o trabalho acentuando as cores do universo citadino e o uso das silhuetas dos personagens escolhidos como maneira de universalizar ainda mais os seres humanos que caminham pelas cidades, são praticamente infinitas.

            O que está em jogo é manter viva a chama original que norteou o projeto, ou seja, a preocupação de perceber o dinamismo metropolitano naquilo que ele tem de mais diferenciador: a presença do homem imerso na multidão anônimo, caminhando apressado com destino aparentemente seguro em passadas firmes que, talvez, sem que ele saiba, levem do nada para lugar algum.

            Ao conseguir registrar fotograficamente – com um lirismo alheio ao fotojornalismo e com as deformações do chamado real que a técnica de captação de imagens permite – os numerosos aspectos do mundo urbano, o Projeto Movimentos Urbanos se afirma como um pensamento que pode constituir uma referência entre as numerosas visões plásticas que buscam desvendar os caminhos paralelos e as encruzilhadas do dinamismo citadino.

           

Oscar D’Ambrosio, mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 
 
 



 

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