Projeto Movimentos Urbanos
Do latim urbis, urbe é sinônimo de cidade,
entendendo-se esta como um complexo demográfico, social e econômico
formado por uma concentração populacional não agrícola dedicada
principalmente a atividades industriais e terciárias de comércio e
serviços. Ali se concentram também equipamentos destinados à
moradia, trabalho e circulação, como habitações, edifícios e
ruas.
No entanto, além dessa fria
descrição, que lida com questões geográficas e históricas, em
suas múltiplas vertentes, as urbes são autênticos fenômenos
sociológicos de facetas quase infinitas e, acima de tudo, dinâmicas,
pois, se há algo que caracteriza as cidades na sua essência, esse
fator é o movimento.
O Projeto Movimentos Urbanos,
das fotógrafas Christiane Ceneviva e Patricia Bigarelli, busca
justamente o que existe de essencial no turbilhão de imagens de uma
urbe. Não se trata de desafio fácil, já que o tema permite as
mais diversas e mesmo inusitadas abordagens.
O
segredo para tornar esse caminho diferenciado está na forma de
apreender as imagens. Elas saem preferencialmente à noite pelas
ruas de São Paulo e começam a clicar instantes sempre com a
preocupação de que o resultado esteja comprometido e mesmo
dominado pelo conceito de movimento.
Isso
significa que o desenvolvimento progressivo de um conceito de predomínio
da universalidade. O que está em jogo não é uma cidade específica
e os seus personagens, mas os instantes de uma urbe. Ela pode ser a
capital paulista, outra metrópole brasileira ou Paris ou Nova York.
O essencial é fixar o movimento.
Isso é atingido por uma preferência
pela procura de atmosferas, onde as cores têm um papel fundamental.
Na complexidade urbana, registrar o instante se torna uma missão,
uma caça de movimentos repentinos em que a grande arte está em
registrar flagrantes. O acaso supera o planejamento no sentido de
que lidar com o inesperado é fundamental.
Cada movimento urbano reside
numa condenação da repetição. Assim como um quadro ou uma
monotipia é única em seu processo criativo, pincelada ou impressão,
cada fotografia que busca compreender o que o movimento urbano
carrega em si mesma a expressão de um linguajar sobre a cidade.
Instaura-se uma poética em que
o ambiente é mais forte que as pessoas, e o conjunto se diferencia
por partir de uma cidade específica e atingir uma forma de comunicação
universal. O coletivo supera o indivíduo nessa busca por uma
expressão visual autêntica do que significa ser urbano no século
XXI.
As possibilidades de
desenvolvimento do projeto, que inclui numerosos recursos, como o
trabalho acentuando as cores do universo citadino e o uso das
silhuetas dos personagens escolhidos como maneira de universalizar
ainda mais os seres humanos que caminham pelas cidades, são
praticamente infinitas.
O que está em jogo é manter
viva a chama original que norteou o projeto, ou seja, a preocupação
de perceber o dinamismo metropolitano naquilo que ele tem de mais
diferenciador: a presença do homem imerso na multidão anônimo,
caminhando apressado com destino aparentemente seguro em passadas
firmes que, talvez, sem que ele saiba, levem do nada para lugar
algum.
Ao conseguir registrar
fotograficamente – com um lirismo alheio ao fotojornalismo e com
as deformações do chamado real que a técnica de captação de
imagens permite – os numerosos aspectos do mundo urbano, o Projeto
Movimentos Urbanos se afirma como um pensamento que pode constituir
uma referência entre as numerosas visões plásticas que buscam
desvendar os caminhos paralelos e as encruzilhadas do dinamismo
citadino.
Oscar
D’Ambrosio, mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação
Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).