por Oscar D'Ambrosio


 

 


Prisioneiros das letras de Carlos Matuck

 

            Quando se pensa no nome de Carlos Matuck, logo se associa o artista ao fato de ser um dos precursores do graffiti na cidade de São Paulo. Isso foi no final dos anos 1970, quando, com Alex Vallauri e Waldemar Zaidler, começou a carimbar imagens pela cidade.

Tratava-se então de uma novidade, pois predominavam os textos. A obra teve ampla repercussão e o levou à Bienal Internacional de São Paulo de 1985, momento em que decidiu não mais grafitar na rua, passando a desenvolver trabalhos dos mais variados no ateliê, como carvão, nanquim e aquarela.

            Atuou ainda como ilustrador, capista de livros e publicou histórias em quadrinhos como desenhista e roteirista, além de realizar uma série com estênceis, ou seja, imagens previamente recortadas. Nascido na cidade de São Paulo, em 1958, ele vem progressivamente desenvolvendo um intenso e significativo pensamento de pintura na feitura de painéis para instituições como o SESC e a Livraria Cultura.

            Talvez o seu trabalho mais significativo, no entanto, esteja na série Prisioneiros. A partir de fotos e de sentenças de bandidos tanto dos EUA como do Brasil, realiza, em tinta acrílica e nanquim sobre papel, além de outros materiais, um pensamento atualíssimo que relaciona texto, palavra e letra com imagens.

            O conceito é o de desenhar os retratos dessas pessoas e se valer da caligrafia para escrever quem são elas, o que fizeram e qual é a sua condenação. O branco do papel desempenha então uma função essencial, gerando respiros e propiciando o diálogo entre o texto e a imagem.

            Progressivamente, no entanto, começou a ocorrer um processo de sobreposição, em que os personagens passam a ser apagados pelos seus destinos, pois as letras se sobrepõem às imagens, destruindo e cobrindo os traços. Assim as figuras retratadas sucumbem às próprias vidas.

            Pioneiro, como vimos, no uso das imagens na rua, num momento em que os textos predominavam, Carlos Matuck inova novamente ao dar vidas e mortes sucessivas aos seus retratados. Eles surgem, de maneira mais ou menos visível, de acordo com cada trabalho, em benefício da construção plástica.

            A discussão que se estabelece não é mais a de quem é aquela pessoa e qual foi a sua história de vida. O artista transporta esse questionamento para uma outra dimensão: a da qualidade do trabalho visual em si mesmo. Depois, é que vamos verificar como aquelas imagens têm, em sua matriz, uma narrativa.

            O pensamento de se ver aprisionado e destruído pelas letras que contam o próprio destino, ao mesmo tempo, fascina e assusta. Maravilha, porque as letras têm exatamente esse poder de fixar narrativas, mas também amedrontam, pois ocorre um processo em que o texto, na verdade, a própria história de vida, anula a pessoa, ou seja, faz desaparecer a  própria imagem.

            Carlos Matuck se equilibra nessa corda bamba entre o texto e a imagem com maestria técnica e sensibilidade. Experimenta materiais e os coloca a serviço de uma idéia densa: a que parte de imagens e histórias reais para construir um universo visual imaginário, sem limites, a não ser o do poder do encantamento que o resultado tem de revelar e, simultaneamente, esconder identidades.

           

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 



 

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