Os doze princípios do artista naïf
1.
Ter PREOCUPAÇÃO ESTÉTICA, não mágica ou religiosa
2.
Seguir o GOSTO INDIVIDUAL, não o da coletividade
3.
Obedecer a ampla riqueza do MUNDO INTERIOR, não apenas a
emoção
4. Ser um ARTISTA
PROFISSIONAL, não um diletante
5. Praticar INTENSA E
SERIAMENTE, não se acomodar
6. Desenvolver um
ESTILO PESSOAL, não uma imitação
7. Ter espírito VISIONÁRIO,
não conformista
8. Manter traços da
ARTE INSTINTIVA, não repetir o que já existe
9. Ser um AUTODIDATA, não
seguir escolas
10. Buscar sempre uma
PRODUÇÃO MAIS ELABORADA, não estagnar
11. Manter o espírito
NÃO DOMESTICADO, não abrir mão da liberdade
12. Manter a fidelidade
ao INDIVIDUALISMO, não aos modismos
O que não
é arte naïf
Arte Naïf não é arte
primitiva. Essa denominação é mais apropriada para os povos que
vivem num tempo histórico preciso, como a arte pré-histórica,
as culturas africanas ou os criadores de arte cristã do início
da Idade Média. Seus criadores, anônimos, vinculam-se a um
estado preciso de evolução cultural e não têm uma PREOCUPAÇÃO
ESTÉTICA, mas uma função social ritual dentro de suas culturas
particulares, ligada a atividades de caça, pesca, coleta, magia
ou religião.
Arte Naïf
não é arte folclórica, do povo, tradicional, rústica ou
provinciana. Estas, segundo o crítico Arnold Hauser, revelam
influência mínima do GOSTO INDIVIDUAL, pois o artista é um
porta-voz da comunidade, um veículo da visão estética do grupo.
Arte Naïf
não é arte dos Pintores do Coração Sagrado, denominação dada
pelo marchand e historiador de arte Wilhelm Uhde a Louis Vivin,
Camile Bombois, Louis Séraphine e André Bauchant, grupo de
artistas que se caracterizam por forte emoção e a revelação de
um MUNDO INTERIOR muito específico.
Arte Naïf
não é criação de pintor amador, pois estes realizam obras
parecidas às dos ARTISTAS PROFISSIONAIS, mas sem qualquer valor
estético, pois tentam dominar técnicas, formas e estilos,
adquirindo esse conhecimento a partir dos mestres.
Arte Naïf
não é feita pelos chamados Pintores de Domingo ou da Semana de
Sete Domingos, segundo a denominação de Anatole Jakovski, que
tomam a atividade de pintar como uma ocupação ocasional, um hobby,
não uma ATIVIDADE PRATICADA INTENSA E SERIAMENTE.
Arte Naïf
não é arte feita por crianças. O sistema de figuração delas
corresponde a estágio específico do desenvolvimento mental, em
que deformações anatômicas ou falhas de perspectiva não são
expressões de um ESTILO PESSOAL, mas expressões do estado
imaturo da consciência emocional.
Arte Naïf não é criada por mestres populares da realidade,
denominação dada a Maximilien Gauthier àqueles que reproduzem
artisticamente o mundo que os cerca, porque isso exclui os
pintores sonhadores e desligados da realidade, aqueles
considerados VISIONÁRIOS.
Arte Naïf
não é só feita pelos pintores de instinto, nome dado por René
Huyghe, ou pintores de instinto e do coração, de acordo com
Bernard Dorival, denominações muito usadas na Europa central,
onde o termo ARTE INSTINTIVA também é comum. Ele inclui não só
os naïfs, mas também aos artistas gráficos de antigas civilizações
tecnologicamente menos avançadas.
Arte Naïf
não é apenas arte ínsita (inata), termo usado nas Trienais de
Bratislava, na Eslováquia, que valoriza a importância do conteúdo
inconsciente e trata a expressão artística como um dom uma dádiva
dos deuses, excluindo a possibilidade do AUTODIDATISMO, ou seja,
da construção e aquisição e construção de um conhecimento
pelo próprio pintor.
Arte Naïf
não é Arte imediata, nome dado por Patrice Walberg a produções
artísticas feitas com espontaneidade rapidez, porque isso exclui
a possibilidade de uma PRODUÇÃO MAIS ELABORADA.
Arte Naïf
não é Arte Bruta, aquela feita por pacientes nas clínicas
psiquiátricas, definida pelo artista plástico Jean Dubuffet como
uma expressão artística selvagem, indomável e NÃO DOMESTICADA.
As manifestações da Arte Bruta, mantém, portanto, pouca relação
com a tradição ou com as tendências da moda. A denominação,
assim, se aplica apenas a autores marginais, com problemas mentais
ou de reduzida inserção social.
Arte Naïf
é atualmente chamada por muitos de Primitiva Moderna, termo
criado por Georges Kasper que recebe o aval de Bihalji-Merin.
Ressalte-se que os naïfs ou primitivos modernos, ao contrário
dos tradicionais primitivos, não são produto de um estado
preciso de evolução cultural e não tem uma função social em
suas culturas particulares, baseando-se sim no INDIVIDUALISMO.
O que é arte naïf
Qualquer definição é
limitadora, mas necessária para evitar uma anarquia de
nomenclaturas. Em linhas gerais, pode-se considerar artista naïf
(ingênuo, em francês) aquele que se caracteriza por ter a si
mesmo como único padrão. Sem referências culturais limitadoras
e sem dominar um conhecimento teórico e dogmático sobre sua
atividade, produz suas telas livremente. Há inclusive aqueles que
começam a pintar tardiamente por falta de tempo, pelo desejo
inicial de dar vazão à criatividade nos momentos de lazer ou
pelo surgimento da vontade, consciente ou não, de inscrever o
nome na posteridade.
Sem
modelos, os naïfs enfocam os temas mais variados, predominando
cenas da vida cotidiana (rurais ou urbanas), geralmente com
minuciosas descrições e precioso detalhismo. Para a historiadora
brasileira Marta Dantas, o segredo da arte naïf estaria
justamente nessa distância entre o objetivo almejado pelo artista
e a sua falta de técnica acadêmica para concretizá-lo.
Surge daí um artista
imerso numa jornada única. Ele não continua uma tradição nem
rompe com uma, pois, simplesmente, não as estudou e não se
preocupa com as normas impostas pelas academias e críticos de
arte. Seu objetivo é representar uma imagem ou pensamento sem
levar em conta qualquer tipo de barreira conceitual ou técnica. O
resultado, portanto, dependerá de sua sensibilidade, talento e
capacidade de ser, acima de tudo, fiel a si mesmo.
O
primeiro a receber a denominação de arte naïf foi o pintor
francês Henri Rousseau, na segunda metade do século XIX. O autor
do batismo foi o escritor Alfred Jarry, que se fascinou com a obra
daquele alfandegário autodidata, capaz de criar imagens fantásticas
como A cigana adormecida.
A partir daí, o termo
foi usado para designar os artistas que não cursaram Escolas de
Belas Artes e não se filiam a nenhum dos movimentos consagrados
na história da arte, como impressionismo, surrealismo ou
expressionismo. A denominação foi consagrada pela crítica e naïfs
podem ser encontrados em todo o mundo, principalmente em países
do Leste Europeu, como Iugoslávia, Hungria e Eslováquia, Haiti,
França, EUA, Brasil, Argentina, Espanha e Portugal.
Desproporções,
cores vibrantes, freqüente ausência de profundidade e
criatividade espontânea, sem a preocupação de seguir padrões,
passaram a ser então as características mais constantes desses
naïfs, artistas não intelectualizados que apresentam justamente
aquilo que falta à chamada arte acadêmica, ou seja, simplicidade
e espontaneidade individual.
Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).