por Oscar D'Ambrosio


 

 



Arte primitiva hoje

O mundo das imagens do homem primitivo ocorre pelo contato direto com os fenômenos naturais. Ainda hoje, os descendentes desses povos apresentam uma visão mágico-religiosa da natureza, mais intuitiva do que intelectual, caracterizada pelo animismo ligado a fetiches e totens, criando um mundo plástico bem articulado.

        A decoração ornamental, geralmente com intenção simbólica, depende do material e da técnica utilizada. Armas e objetos do cotidiano são adornados com motivos de significação totêmica. Mesmo as formas mais simples de ornamentação (espirais, círculos, linhas onduladas) são comumente signos que conjuram forças protetoras da natureza e impedem a ação dos espíritos do mal que aterrorizavam constantemente o homem primitivo.

        Na África, as tribos bambara e dogon, do ex-Sudão francês, realizam esculturas com decoração de caráter geométrico. Uma das principais regiões artísticas é a Costa do Marfim, onde as tribos dan, guro, senofo e, principalmente, baude, demonstram grande habilidade e desejo de expressar emoções pelo caráter puramente estético e pela sua finalidade mágica.

        Uma das culturas africanas mais interessantes é a dos benin, na Nigéria, destruída pelos ingleses em uma expedição punitiva em 1897. Os invasores encontraram mais de 2500 obras delicadas, realizadas em marfim e bronze. A cultura benin se caracteriza por sua elegante estilização de figuras de animais e de pessoas. As cabeças humanas são geralmente realizadas com ótimo resultado.

        Na Austrália, os aborígenes, hoje vivendo em reservas situadas nas regiões mais pobres, continuam vivendo na Idade da Pedra em termos culturais. Suas pinturas rupestres são o ponto mais alto. Não realizam esculturas, mas há ornamentos geométricos e zoomórficos pintados ou gravados em armas e escudos.

        Na Melanésia, existe uma ornamentação de caráter simbólico e religioso. Predomina o estilo curvo e as linhas de ondulação suave. As casas comunais de Borneo e Sumatra merecem destaque pelos tetos pontiagudos característicos. Na Nova Zelândia, a cultura maori apresenta espirais e volutas. Sua principal obra é o sarcófago de Waata-Rani, atualmente no Museu do Homem, em Paris.

        Na Polinésia, a arte possui um caráter mais aristocrático. Sua função mágica e demoníaca não é tão importante, propiciando uma decoração mais elegante e graciosa, executada com surpreendente precisão e habilidade manual. As extraordinárias estátuas colossais da Ilha de Páscoa são um enigma até hoje, tendo sido realizadas na mesma época de pequenas estátuas de madeira de refinada e rebuscada estilização.

        Na Europa, os lapões, povo nômade, assemelha-se muito às tribos da Ásia setentrional e as suas imagens recordam as pinturas paleolíticas encandinavas; enquanto, na América do Norte, os esquimós, carentes de material, realizam trabalhos de alta precisão em osso, principalmente armas e pequenas estátuas.

Nos EUA, os índios da Califórnia se destacam pela arte de cestos de grande variedade técnica e decorativa. Quanto aos povos indígenas das pradarias, foram praticamente exterminados pela luta desigual contra os aventureiros brancos, restando apenas a decoração geométrica de suas roupas.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

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