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A arte dos presépios Para muitos, Natal sem presépio simplesmente não é Natal. Apesar da correria contemporânea, muitas famílias mantêm o hábito de montar os seus presépios, procurando passar, ano após ano, uma tradição que, em alguns casos, envolve peças que passam de geração para geração por décadas.
E
o presépio não significa apenas Maria, José e o Menino Jesus. Cenários
coloridos ambientam a cena da Natividade, que ganha características
peculiares em cada país, em cada região, em cada igreja e em cada
residência. Cada um dá a sua contribuição para que cada presépio,
embora trate de um mesmo tema, tenha algum diferencial. A primeira imagem da Natividade de que se tem notícia é muito curiosa. Esculpida no século IV, foi encontrada em um sarcófago hoje no Museu das Termas, em Roma. É um baixo-relevo em que não há anjos ou estrelas. Também não estão Maria e José. Uma árvore faz o papel de cabana, um pastor medita apoiado em um bastão, o menino está num coxo rústico envolto em panos, ladeado por um burro e um boi. A presença desses animais, geralmente explicada pela sua função de aquecer o Menino, encontra uma explicação profética. Em Habacuc, 3,2, lê-se: “Em meio a dois animais te manifestarás”. Além disso, simbolicamente, o boi é identificado ao povo de Israel, que carrega o peso das leis, e o burro, o animal de carga, corresponde àqueles marcados pelo pecado de idolatrar falsos ídolos. No meio dessas duas correntes, os que crêem e os que não acreditam em sua chegada, nasce Jesus. A primeira réplica conhecida com a reprodução da cena da Natividade em madeira foi provavelmente executada no século VII e, até hoje, na igreja de Santa Maria Maggiore, em Roma, venera-se um pedaço que se acredita ser uma parte da manjedoura desse presépio inaugural.
Bem
depois, em 1223, na Itália, ocorre um fato marcante na história
dos presépios. Francisco de Assis, o futuro santo protetor dos
animais, em vez de festejar a Véspera do Natal com os seus irmãos
de ordem e cidadãos de Assis, como fazia habitualmente, na igreja,
decidiu levar uma manjedoura, um boi, um burro e outros elementos do
presépio para uma floresta de Greccio, perto da cidade. No século seguinte, as figuras se libertam dos altares e começam a aparecer em grupos, podendo ser admiradas por todos os lados. Elas são soltas, muitas vezes articuladas, e independem umas das outras. Nasce assim o presépio como o concebemos hoje: apto a ser modificado por cada artista que o constrói ou por cada pessoa que o monta, em sua casa, ano após ano. Na
maioria das línguas a palavra equivalente a “manjedoura”, por
extensão, passa a ser sinônimo de “presépio”. É o que ocorre
em alemão, com krippe; e
os derivados do latim presépio, como presepe, em italiano; pesebre,
em espanhol; e “presépio”, em português. A palavra francesa crèche
também se enquadra nessa lógica, residindo a exceção nos países
de idioma inglês, nos quais as cenas de Natal, representadas por múltiplas
figuras, não têm nome definido, sendo chamadas de nativity
scene. No século XVIII, conventos e cortes se dedicaram à construção de presépios, levando os artistas a criar figuras de excepcional qualidade, como em Nápoles, onde o religioso Carlos de Bourbon, coroado em 1734 como Carlos III, Rei das Duas Sicílias, investiu fortunas para construir presépios de madeira talhada ou pedra esculpida caracterizados pelos finimenti, adereços em miniatura que adornavam um elevado número de personagens coloridos e cenas da vida popular. Se Nápoles, Sicília, Munique e a região alpina alemã estabeleceram uma tradição em presépios, o Brasil não fica atrás. Em 1532, o padre José de Anchieta, ajudado pelos índios, já modelava em barro pequenas figuras representando o presépio, com o propósito de inculcar nos indígenas a tradição de honrar o Menino Jesus no dia de Natal. Após um período de influência portuguesa, espanhola e francesa, começaram a aparecer cenas com características nacionais, como lavadeiras carregando trouxas, fazendeiros cuidando de animais, mulheres dando milho a galinhas, monjolos, montes, árvores da terra e igrejinhas iluminadas. No século XX, surgem legítimos representantes nacionais da arte do presépio. Um caso é o Presépio do Pipiripau, atuais bairros de Sagrada Família, Floresta e Santa Tereza, em Belo Horizonte, MG. São 42 cenas, feitas de madeira e com movimento, expostas hoje no Museu da História Natural da Universidade Federal de Minas Gerais, com destaque para a Fuga para o Egito, em que dois homens, para enganar os perseguidores, colocam as ferraduras ao contrário no burrinho que leva Maria e o Menino. Outro destaque é o trabalho das figureiras do Vale do Paraíba, em São Paulo, principalmente Taubaté. Seus presépios de barro cru pintado são vendidos por todo o Estado, com destaque para a curiosa figura do Galinho do Céu. Altivo e imponente, ele traz, na cabeça, três palitinhos distribuídos em leque, com três bolinhas nas pontas, simbolizando as três vezes que o galo cantou após a prisão de Cristo. E
como esquecer do mestre Vitalino de Caruaru, PE, com suas pequenas
figuras modeladas em barro? E as obras realizadas em São Paulo por
Evarista Ferraz Salles, pioneira no Brasil em trabalhos de
artesanato de palha, milho e bucha, fazendo presépios dentro de
cabaças que são reconhecidos nacional e internacionalmente? Oscar
D’Ambrosio integra a Associação Internacional de Críticos de
Arte (Aica-Seção Brasil), é editor do Jornal
UNESP e autor de Conhecendo
a arte de Ranchinho e Conhecendo
a arte de Maroubo (Editora Noovha América).
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