por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

A arte dos presépios

 

Para muitos, Natal sem presépio simplesmente não é Natal. Apesar da correria contemporânea, muitas famílias mantêm o hábito de montar os seus presépios, procurando passar, ano após ano, uma tradição que, em alguns casos, envolve peças que passam de geração para geração por décadas.

            E o presépio não significa apenas Maria, José e o Menino Jesus. Cenários coloridos ambientam a cena da Natividade, que ganha características peculiares em cada país, em cada região, em cada igreja e em cada residência. Cada um dá a sua contribuição para que cada presépio, embora trate de um mesmo tema, tenha algum diferencial.
            Toda essa história de presépios tem uma interessante tradição. Os cristãos celebram a Natividade desde o final do século III, quando peregrinos se dirigiam ao local de nascimento de Cristo, a gruta de Belém. No século seguinte, a cena da Natividade já aparece em relevos de sarcófagos, instrumentos litúrgicos ou afrescos, que mostram a Virgem Maria, a Adoração dos Reis Magos e o Menino a repousar na manjedoura.

            A primeira imagem da Natividade de que se tem notícia é muito curiosa. Esculpida no século IV, foi encontrada em um sarcófago hoje no Museu das Termas, em Roma. É um baixo-relevo em que não há anjos ou estrelas. Também não estão Maria e José. Uma árvore faz o papel de cabana, um pastor medita apoiado em um bastão, o menino está num coxo rústico envolto em panos, ladeado por um burro e um boi.

            A presença desses animais, geralmente explicada pela sua função de aquecer o Menino, encontra uma explicação profética. Em Habacuc, 3,2, lê-se: “Em meio a dois animais te manifestarás”. Além disso, simbolicamente, o boi é identificado ao povo de Israel, que carrega o peso das leis, e o burro, o animal de carga, corresponde àqueles marcados pelo pecado de idolatrar falsos ídolos.

            No meio dessas duas correntes, os que crêem e os que não acreditam em sua chegada, nasce Jesus. A primeira réplica conhecida com a reprodução da cena da Natividade em madeira foi provavelmente executada no século VII e, até hoje, na igreja de Santa Maria Maggiore, em Roma, venera-se um pedaço que se acredita ser uma parte da manjedoura desse presépio inaugural.

            Bem depois, em 1223, na Itália, ocorre um fato marcante na história dos presépios. Francisco de Assis, o futuro santo protetor dos animais, em vez de festejar a Véspera do Natal com os seus irmãos de ordem e cidadãos de Assis, como fazia habitualmente, na igreja, decidiu levar uma manjedoura, um boi, um burro e outros elementos do presépio para uma floresta de Greccio, perto da cidade.
            A idéia era tornar a liturgia mais compreensível e acessível ao povo. Um dos espectadores, porém, disse ter visto o Menino Jesus na manjedoura. Surge assim uma nova Belém na Itália e Francisco levou a fama de ter criado o presépio, o que não é totalmente verdade, já que somente séculos depois os presépios ganharam a forma atual.
            No século XV, houve representações do Natal em forma de esculturas, muitas vezes em tamanho natural, expostas em salas de oração nas igrejas. Isso sem contar os retábulos, peças religiosas em que a cena central era a Natividade e as laterais mostravam o caminho dos Reis, dos pastores e episódios da vida da Virgem Maria.
            Sempre havia uma preocupação didática, e o Menino Jesus, no berço, recebia dos fiéis vestes e jóias. A prática cresceu a tal ponto e ganhou tamanha veracidade, que os espectadores tinham a sensação de, ao olhar o presépio, estar penetrando no palco da História Sagrada, podendo meditar e atingir a Salvação.

            No século seguinte, as figuras se libertam dos altares e começam a aparecer em grupos, podendo ser admiradas por todos os lados. Elas são soltas, muitas vezes articuladas, e independem umas das outras. Nasce assim o presépio como o concebemos hoje: apto a ser modificado por cada artista que o constrói ou por cada pessoa que o monta, em sua casa, ano após ano.

Na maioria das línguas a palavra equivalente a “manjedoura”, por extensão, passa a ser sinônimo de “presépio”. É o que ocorre em alemão, com krippe; e os derivados do latim presépio, como presepe, em italiano; pesebre, em espanhol; e “presépio”, em português. A palavra francesa crèche também se enquadra nessa lógica, residindo a exceção nos países de idioma inglês, nos quais as cenas de Natal, representadas por múltiplas figuras, não têm nome definido, sendo chamadas de nativity scene.
            O primeiro presépio que se conhece numa casa privada foi provavelmente elaborado em 1567 e consta do inventário do Castelo de Piccolomini, em Celano, Itália, segundo o qual a Duquesa de Amalfi, Constanza Piccolomini, possuía dois baús com 116 figuras, utilizadas para representar o Nascimento e a Adoração dos Reis Magos.

No século XVIII, conventos e cortes se dedicaram à construção de presépios, levando os artistas a criar figuras de excepcional qualidade, como em Nápoles, onde o religioso Carlos de Bourbon, coroado em 1734 como Carlos III, Rei das Duas Sicílias, investiu fortunas para construir presépios de madeira talhada ou pedra esculpida caracterizados pelos finimenti, adereços em miniatura que adornavam um elevado número de personagens coloridos e cenas da vida popular.

Se Nápoles, Sicília, Munique e a região alpina alemã estabeleceram uma tradição em presépios, o Brasil não fica atrás. Em 1532, o padre José de Anchieta, ajudado pelos índios, já modelava em barro pequenas figuras representando o presépio, com o propósito de inculcar nos indígenas a tradição de honrar o Menino Jesus no dia de Natal.

Após um período de influência portuguesa, espanhola e francesa, começaram a aparecer cenas com características nacionais, como lavadeiras carregando trouxas, fazendeiros cuidando de animais, mulheres dando milho a galinhas, monjolos, montes, árvores da terra e igrejinhas iluminadas.

No século XX, surgem legítimos representantes nacionais da arte do presépio. Um caso é o Presépio do Pipiripau, atuais bairros de Sagrada Família, Floresta e Santa Tereza, em Belo Horizonte, MG. São 42 cenas, feitas de madeira e com movimento, expostas hoje no Museu da História Natural da Universidade Federal de Minas Gerais, com destaque para a Fuga para o Egito, em que dois homens, para enganar os perseguidores, colocam as ferraduras ao contrário no burrinho que leva Maria e o Menino.

Outro destaque é o trabalho das figureiras do Vale do Paraíba, em São Paulo, principalmente Taubaté. Seus presépios de barro cru pintado são vendidos por todo o Estado, com destaque para a curiosa figura do Galinho do Céu. Altivo e imponente, ele traz, na cabeça, três palitinhos distribuídos em leque, com três bolinhas nas pontas, simbolizando as três vezes que o galo cantou após a prisão de Cristo.

E como esquecer do mestre Vitalino de Caruaru, PE, com suas pequenas figuras modeladas em barro? E as obras realizadas em São Paulo por Evarista Ferraz Salles, pioneira no Brasil em trabalhos de artesanato de palha, milho e bucha, fazendo presépios dentro de cabaças que são reconhecidos nacional e internacionalmente?
            Na Capital paulista, o Museu de Arte Sacra, localizado no Mosteiro da Luz, conta com um setor específico de presépios com cerca de 3.800 peças de diferentes regiões do Brasil e de diversos países, com destaque para um presépio napolitano com 1.500 peças, um dos últimos conjuntos do gênero ainda existentes no mundo.
            O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, em Versiprosa, já alertava para a dificuldade de se escrever poemas originais sobre o Natal: “menino, peço-te a graça/ de não fazer mais poema/ de Natal./Uns dois ou três, inda passa.../Industrializar o tema./Eis o mal”. Quanto à capacidade de escrever sobre os presépios e o infinito poder de ser original em cada operação de montagem, a cada ano, o poeta nada disse. Talvez porque soubesse que desde o século XVI, a graça do presépio é justamente essa: ser criativo, tornando cada um deles diferente, pessoal e único.

 

Oscar D’Ambrosio integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (Aica-Seção Brasil), é editor do Jornal UNESP e autor de Conhecendo a arte de Ranchinho e Conhecendo a arte de Maroubo (Editora Noovha América).

 

 

 

 

 

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