por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

Antonio Poteiro

 

Um primitivista goiano

 

Pode-se considerar o artista primitivista aquele que se caracteriza por ter a si mesmo como único padrão. Sem referências culturais que limitem a sua criatividade e sem dominar um conhecimento teórico e dogmático sobre a sua atividade, ele é um autodidata que produz as suas telas livremente.

            Surgem assim artistas imersos em jornadas únicas. Cada um deles não continua uma tradição nem a rompe, pois simplesmente não estudou as vertentes anteriores, não se preocupando com as normas impostas pelas academias e críticos de arte. Seu objetivo é representar uma imagem ou pensamento sem levar em conta qualquer tipo de barreira conceitual ou técnica. O resultado, portanto, dependerá de sua sensibilidade, talento e capacidade de ser, acima de tudo, fiel a si mesmo.

Sem modelos pré-concebidos, os primitivistas (não confundir com os primitivos desenhos das cavernas da Pré-História) enfocam os temas mais variados, predominando cenas da vida cotidiana (rurais ou urbanas), geralmente com minuciosas descrições e precioso detalhismo.

Antonio Poteiro, oleiro de profissão e ceramista de talento, é um desses artistas. Nascido em Santa Cristina, província de Braga, Portugal, em 1925 – e batizado Antonio Baptista de Souza –, veio com a família para o Brasil com um ano de idade, fixando-se primeiro em São Paulo e depois em Minas Gerais.

            O artista se fixou em Goiânia, em 1955, dedicando-se a atividade de oleiro, herdada do pai. Devido aos potes que fazia, tornou-se conhecido como Antonio Poteiro, nome que adotou artisticamente. Logo trocou a cerâmica utilitária por potes de grandes dimensões que contavam trechos da Bíblia ou sonhos fantásticos, muitas vezes próximos do surrealismo.     

            Poteiro chegou às telas estimulado pelos pintores Siron Franco e Cleber Gouveia. Surgiu assim uma arte marcada pelo dinamismo. Suas telas, que geralmente enfocam cirandas, cavalhadas, cenas de carnaval, jogos de futebol, pessoas em volta de fogueiras ou reisados, caracterizam-se por uma movimentação intensa, num efeito obtido pela representação de aglomerações humanas e pelo uso de cores intensas, como amarelo e verde.

            Os sonhos, passagens da Bíblia e histórias ouvidas ou vistas na rua são o ponto de partida da arte de Poteiro – que alguns críticos não consideram ser primitivista por estar pouco ligada à produção espontânea e revelar uma grande consciência do processo de criação como expressão de idéias. Sob diversos aspectos, de fato, sua arte é racionalmente elaborada, tanto em termos de forma como de conteúdo.

            A criatividade do artista é visível no ritmo das linhas, ora circulares, ora horizontais, mas sempre na fronteira entre um comovente lirismo e um certo deboche da condição humana. Essa horizontalidade e circularidade são oriundas da atividade do artista enquanto oleiro. Suas imagens são, de fato, narrativas com desenhos repletos de marcas imprevisíveis dentro de uma ótica artesiana.

A dinâmica peculiar é harmonizada, no entanto, por uma concepção metafísica da arte que valoriza cada peça, seja um pote ou um quadro, como um instante demiúrgico. Figuras religiosas, lendas, imagens de folclore e mesmo certos momentos de maior misticismo telúrico revelam uma fabulação sempre rica e um potencial de criação e inovação praticamente sem limites.

A arte que surge, portanto, é muitas vezes rude em seu acabamento, mas, ao mesmo tempo, de intensa delicadeza, pois o artista reverencia cada trabalho com suas poderosas mãos de mágico criador e ilusionista de materiais diversos, desde o barro às tintas, não escolhendo matéria-prima para expressar uma única visão de mundo, sem mestres ou seguidores – característica que o insere na vertente primitivista.

 

            Oscar D’Ambrosio é jornalista, integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é autor de Os pincéis de Deus (Editora UNESP).

 

 

 

 

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"Vida na Cidade"
0.S.T -   
90X140cm - 1990  

Antonio Poteiro

 

 

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