por Oscar D'Ambrosio


 

 


Possibilidades da tinta

 

            Num momento em que a arte contemporânea, para muitos, existe apenas com base em instalações e suportes tridimensionais e que muitas instituições de ensino superior praticamente pregam a morte da pintura bidimensional em suas técnicas mais tradicionais, com óleo, guache ou aquarela, a exposição Tinta, que fica de 2 de fevereiro a 4 de março na Galeria Leme, em São Paulo, SP, é um grito de alívio para quem acredita que a pintura não só está viva, como permite novas visões dos objetos e não apenas um mero reconhecimento deles.

            Qualquer pintura –  e a figurativa em especial – traz um desafio ao observador: o de não se deixar encantar pelo que vê, mas procurar mergulhar na forma como aquilo é feito, seja na cor, na forma ou na composição, vale dizer, no exercício da pintura propriamente dita e suas conseqüências.

            Dos oito artistas que integram a coletiva, é possível extrair algumas reflexões sobre a pintura contemporânea. Cada um faz uma pesquisa diferente com os meios nos quais desenvolve a sua linguagem, estabelecendo perguntas sobre os caminhos da pintura num mundo cada vez mais dominado pela imagem, principalmente pela gerada por meios eletrônicos.

            Sandra Gamara, por exemplo, gera um impacto muito favorável com duas telas em óleo de natureza diferentes, mas com a mesma linguagem contundente. Peruana, radicada em Madrid, ela oferece tanto uma imagem que evoca dinamismo e movimento, na ilusão do ato de flagrar um instante numa câmara fotográfica, como uma pintura em que a linguagem do hiperrealismo se faz muito presente.

Nos dois casos, assim como nos trabalhos menores, em óleo sobre papel, encontra-se uma artista de amplo domínio técnico e que demonstra recursos para realizar variadas expressões plásticas. A questão da representação se faz presente pelo questionamento do próprio tempo e do conceito de veracidade daquilo que julgamos arte e do que consideramos real.

Igualmente contundente é a arte do alemão Rigo Schmidt, que atinge uma densidade difícil de ser alcançada em pequenos formatos. Seus óleos sobre tela surpreendem não tanto pela temática, com hominídeos primitivos, imagens humanas bem humoradas e conjuntos inusitados de animais, mas pela coragem de tratar esses assuntos com soltura, valendo-se de uma técnica bem amadurecida que faz refletir sobre o poder da pintura quando instaurada na tela por mãos e olhos hábeis e inteligentes.

Os mesmos elementos, somados à criação de misteriosos espaços, ocorre em Neil Rumming. Com guache sobre papel, atinge um resultado intrigante. Com uma maneira bem pessoal de construir as formas e o uso equilibrado de cores, principalmente as mais escuras e terrosas, ergue um universo de perguntas que convida a olhar cada obra com calma e intensidade redobradas. Trata-se do tipo de raciocínio pictórico que obriga a uma degustação lenta e saborosa.

Essa receita de observação vale também para a brasileira Ana Paula Lobo. Com seus cubos pintados nas seis faces que permitem infinitas combinações intercambiáveis no espaço da Galeria, oferece a possibilidade de uma outra discussão. Além do fascínio com as imagens diferenciadas de uma cidade, como fachadas de prédios e fios telefônicos, surge a chance de montar esses cubos de modo a sugerir as mais diversas leituras tridimensionais, criando um ludismo estimulante, já que eles podem ganhar espaços na horizontal ou na vertical nos mais distintos diálogos entre si e com o entorno.

Em se falando de espaço, Paulo Almeida, numa proposta criativa, traz em suas telas o próprio espaço em que a exposição se realiza. Ele completa, pouco antes da abertura, seu trabalho, que consiste em pintar, com acrílica, o espaço da Galeria, com a montagem utilizada no evento do qual participa, incluindo detalhes das obras observáveis do ponto de vista escolhido. Há ali o pensar do arquiteto associado ao fazer artístico. O local é, portanto, remontado em escala bidimensional com referências a tudo que está à sua volta, num resultado lúdico desafiador.

Surpresa semelhante oferecem as aquarelas da ucraniana Kristina Solomoukha. A rigidez urbana é quebrada por recursos próprios de quem lida com a tinta. A cor e as linhas erguem uma nova realidade: a da obra de arte. O referente concreto da cidade pouco atraente desaparece perante o talento da ordenação, e as diferentes perspectivas estabelecem conjuntos marcados pela harmonia e por uma quase e aparentemente impossível delicadeza.

A proposta de Felipe Cama, por sua vez, não é pintar o que se vê de forma diferente, mas discutir o que é pintar e para que serve. Questiona, com um livro numa redoma e pinturas em óleo de pequenas telas que reproduzem as imagens das páginas, a própria significação da arte: cópia da vida, do que se chama real, da arte, do que se acredita ser belo? A colocação dessa questão já vale a interação mental com o trabalho desse artista gaúcho radicado em São Paulo.

Também propício a análises mais discursivas, é a proposta estética de Michael Kalki. Alemão como Schmidt, em seus trabalhos em acrílica sobre tela, tem como tema aparente a vaidade e sua relação com espelhos e com a própria representação de seres humanos fragmentados em diversos espaços.

Se o fazer pictórico é essencial, há ainda uma narrativa em que o ambiente funciona como cenário para a indagação do ser humano sobre si mesmo e sobre o ambiente que o cerca. O mundo é visto como um grande palco, onde o ser humano não se encontra e tenta, de forma agoniada, achar a melhor forma de se realizar e completar.

Algo semelhante é encontrado nas aquarelas sobre papel de Gabriel Acevedo, peruano radicado na Cidade do México. Suas imagens simbólicas arquitetam, principalmente na arte de erguer mundos com forma e cor, um império fálico dos sentidos, em que o erotismo alia-se à capacidade técnica, gerando uma estetização atraente desde o primeiro olhar e molestador, pois convida a novas visitas em busca da maneira como foi construída essa realidade pictórica.

Se considerarmos que o prazer da arte vem da inquietação que ela gera, o conjunto apresentado na exposição Telas cumpre esse objetivo, levantando importantes questões que não podem ser esquecidas em nenhum debate sobre arte contemporânea. Os trabalhos expostos não representam algo meramente conhecido, mas criam um novo mundo para ser visto e questionado. Falam, acima de tudo, do que significa pintar neste início de século XXI.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

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