Possibilidades
da tinta
Num momento em que a arte contemporânea,
para muitos, existe apenas com base em instalações e suportes
tridimensionais e que muitas instituições de ensino superior
praticamente pregam a morte da pintura bidimensional em suas técnicas
mais tradicionais, com óleo, guache ou aquarela, a exposição Tinta,
que fica de 2 de fevereiro a 4 de março na Galeria Leme, em São Paulo,
SP, é um grito de alívio para quem acredita que a pintura não só está
viva, como permite novas visões dos objetos e não apenas um mero
reconhecimento deles.
Qualquer
pintura – e a figurativa
em especial – traz um desafio ao observador: o de não se deixar
encantar pelo que vê, mas procurar mergulhar na forma como aquilo é
feito, seja na cor, na forma ou na composição, vale dizer, no exercício
da pintura propriamente dita e suas conseqüências.
Dos oito
artistas que integram a coletiva, é possível extrair algumas reflexões
sobre a pintura contemporânea. Cada um faz uma pesquisa diferente com
os meios nos quais desenvolve a sua linguagem, estabelecendo perguntas
sobre os caminhos da pintura num mundo cada vez mais dominado pela
imagem, principalmente pela gerada por meios eletrônicos.
Sandra
Gamara, por exemplo, gera um impacto muito favorável com duas telas em
óleo de natureza diferentes, mas com a mesma linguagem contundente.
Peruana, radicada em Madrid, ela oferece tanto uma imagem que evoca
dinamismo e movimento, na ilusão do ato de flagrar um instante numa câmara
fotográfica, como uma pintura em que a linguagem do hiperrealismo se
faz muito presente.
Nos
dois casos, assim como nos trabalhos menores, em óleo sobre papel,
encontra-se uma artista de amplo domínio técnico e que demonstra
recursos para realizar variadas expressões plásticas. A questão da
representação se faz presente pelo questionamento do próprio tempo e
do conceito de veracidade daquilo que julgamos arte e do que
consideramos real.
Igualmente
contundente é a arte do alemão Rigo Schmidt, que atinge uma densidade
difícil de ser alcançada em pequenos formatos. Seus óleos sobre tela
surpreendem não tanto pela temática, com hominídeos primitivos,
imagens humanas bem humoradas e conjuntos inusitados de animais, mas
pela coragem de tratar esses assuntos com soltura, valendo-se de uma técnica
bem amadurecida que faz refletir sobre o poder da pintura quando
instaurada na tela por mãos e olhos hábeis e inteligentes.
Os
mesmos elementos, somados à criação de misteriosos espaços, ocorre
em Neil Rumming. Com guache sobre papel, atinge um resultado intrigante.
Com uma maneira bem pessoal de construir as formas e o uso equilibrado
de cores, principalmente as mais escuras e terrosas, ergue um universo
de perguntas que convida a olhar cada obra com calma e intensidade
redobradas. Trata-se do tipo de raciocínio pictórico que obriga a uma
degustação lenta e saborosa.
Essa
receita de observação vale também para a brasileira Ana Paula Lobo.
Com seus cubos pintados nas seis faces que permitem infinitas combinações
intercambiáveis no espaço da Galeria, oferece a possibilidade de uma
outra discussão. Além do fascínio com as imagens diferenciadas de uma
cidade, como fachadas de prédios e fios telefônicos, surge a chance de
montar esses cubos de modo a sugerir as mais diversas leituras
tridimensionais, criando um ludismo estimulante, já que eles podem
ganhar espaços na horizontal ou na vertical nos mais distintos diálogos
entre si e com o entorno.
Em
se falando de espaço, Paulo Almeida, numa proposta criativa, traz em
suas telas o próprio espaço em que a exposição se realiza. Ele
completa, pouco antes da abertura, seu trabalho, que consiste em pintar,
com acrílica, o espaço da Galeria, com a montagem utilizada no evento
do qual participa, incluindo detalhes das obras observáveis do ponto de
vista escolhido. Há ali o pensar do arquiteto associado ao fazer artístico.
O local é, portanto, remontado em escala bidimensional com referências
a tudo que está à sua volta, num resultado lúdico desafiador.
Surpresa
semelhante oferecem as aquarelas da ucraniana Kristina Solomoukha. A
rigidez urbana é quebrada por recursos próprios de quem lida com a
tinta. A cor e as linhas erguem uma nova realidade: a da obra de arte. O
referente concreto da cidade pouco atraente desaparece perante o talento
da ordenação, e as diferentes perspectivas estabelecem conjuntos
marcados pela harmonia e por uma quase e aparentemente impossível
delicadeza.
A
proposta de Felipe Cama, por sua vez, não é pintar o que se vê de
forma diferente, mas discutir o que é pintar e para que serve.
Questiona, com um livro numa redoma e pinturas em óleo de pequenas
telas que reproduzem as imagens das páginas, a própria significação
da arte: cópia da vida, do que se chama real, da arte, do que se
acredita ser belo? A colocação dessa questão já vale a interação
mental com o trabalho desse artista gaúcho radicado em São Paulo.
Também
propício a análises mais discursivas, é a proposta estética de
Michael Kalki. Alemão como Schmidt, em seus trabalhos em acrílica
sobre tela, tem como tema aparente a vaidade e sua relação com
espelhos e com a própria representação de seres humanos fragmentados
em diversos espaços.
Se
o fazer pictórico é essencial, há ainda uma narrativa em que o
ambiente funciona como cenário para a indagação do ser humano sobre
si mesmo e sobre o ambiente que o cerca. O mundo é visto como um grande
palco, onde o ser humano não se encontra e tenta, de forma agoniada,
achar a melhor forma de se realizar e completar.
Algo
semelhante é encontrado nas aquarelas sobre papel de Gabriel Acevedo,
peruano radicado na Cidade do México. Suas imagens simbólicas
arquitetam, principalmente na arte de erguer mundos com forma e cor, um
império fálico dos sentidos, em que o erotismo alia-se à capacidade técnica,
gerando uma estetização atraente desde o primeiro olhar e molestador,
pois convida a novas visitas em busca da maneira como foi construída
essa realidade pictórica.
Se
considerarmos que o prazer da arte vem da inquietação que ela gera, o
conjunto apresentado na exposição Telas cumpre esse objetivo,
levantando importantes questões que não podem ser esquecidas em nenhum
debate sobre arte contemporânea. Os trabalhos expostos não representam
algo meramente conhecido, mas criam um novo mundo para ser visto e
questionado. Falam, acima de tudo, do que significa pintar neste início
de século XXI.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor,
entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América)
e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).