por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

 

Portas de água

 

            O escritor francês Marcel Proust, ao contemplar Veneza, fez um depoimento que ilustra bem o quanto essa cidade fascina o estrangeiro, seja pela sua beleza intrínseca, seja pela sua arquitetura, seja pelas pontes que se dispõem sobre os seus canais, seja pelo ar romântico de suas praças e locais mais recônditos: “Quando eu cheguei a Veneza, descobri que meu sonho havia se tornado – inacreditavelmente, mas simplesmente – meu endereço.”

            Poucas cidades do mundo parecem tão próximas da arte da aquarela como esse município italiano. De fato, ele está cercado de água por todos os lados e conta, devido à localização geográfica, com uma luminosidade toda particular. Desse modo, água e luz, dois componentes básicos da aquarela se encontram com rara felicidade.   

            A Exposição Porta dell’acqua, no Cultural Blue Life, em São Paulo, reúne trabalhos de aquarelistas que souberam captar as transparências e os véus mágicos da cidade italiana. Há, nesses trabalhos, diversos elementos artísticos que permitem uma leitura renovada de Veneza.

Cabe lembrar que, situada na região do Vêneto, no nordeste da Itália, Veneza é banhada pelo Mar Adriático e foi construída sobre uma série de ilhas, tornando-se, na Idade Média, uma das maiores potências marítimas mundiais e um importante centro de intercâmbio comercial e cultural do Ocidente com o Oriente.

Essas informações permitem visualizar melhor de que universo estamos falando. Veneza não é somente uma cidade a nos oferecer um espetáculo de luzes e cores. É a Sereníssima República, nome que ganhou, quando se tornou, entre 1140 e 1160, um modelo de convivência pacífica e democrática entre os seus cidadãos.

Em 1797, o local foi tomado por Napoleão Bonaparte e, quase um século mais tarde, em 1866, a cidade foi anexada ao reino da Itália. De toda essa história, resultaram edifícios como o Palácio Ducal, reconstruído nos séculos XVI e XV para ser residência dos doges (governantes da cidade), sede do governo e Palácio da Justiça.

As aquarelistas enfocam não só o Palácio Ducal, mas também outras paisagens tradicionais venezianas. Não se atém, porém, apenas a esses locais. Há imagens oriundas de caminhadas pelas suas pitorescas ruas que captam, por exemplo pombas perto de embarcações ou pequenas vielas. Tudo sempre com a matéria-prima essencial da aquarela: a sensibilidade aliada à técnica.

O Grande Canal surge em diversos trabalhos, mas sempre com uma preocupação: ressaltar velaturas e transparências.  Afinal,  em quantas cidades do mundo o sol, ao entardecer, colore as fachadas dos palácios ao longo de um canal e realça os reflexos na água num jogo multifacetado de infinitas nuances?

O mesmo jogo de luzes e reflexos pode ser encontrado na Basílica de San Marco que, considerada uma das mais belas da Europa, tem, no seu interior, mosaicos fascinantes. As aquarelistas da mostra, embora não se detenham especificamente sobre essa técnica, obtém no seu fazer artístico, efeitos semelhantes, havendo aquelas que dialogam ainda com a luz utilizada pelas obras do mestre Tintoretto, reunidas na Escola Grande de San Rocco.

A Praça San Marco, síntese da cidade, é também tema obrigatório, assim como a Torre do Relógio que, construída no final do século XV, exibe, em azul e dourado, as fases da lua e os signos do zodíaco. Há até uma lenda que conta que, depois que os inventores do relógio terminaram a fabulosa obra, tiveram seus olhos arrancados para que não pudessem repetir tal projeto.

Guardadas as proporções, o conjunto de obras sobre Veneza exposto no Cultural Blue Life gera um impacto semelhante – e inesquecível. Isso ocorre pela qualidade das imagens originais evocadas e pelo talento dos artistas em transformar a realidade veneziana em obras de arte. É o que acontece, por exemplo, nas recriações da Ponte Rialto, um dos locais mais famosos de Veneza que oferece belas vistas do Grande Canal e serve de marco para o centro da cidade,

            O mistério da noite de Veneza, com sua especial luminosidade em canais amplos e estreitos e suas pontes repletas de turistas é outro tema recorrente. Assim, a Rainha do Adriático maravilha de diversas formas, tanto pelo amanhecer como pelo cair do sol, situações em que, uma vez por ano, as inigualáveis máscaras do tradicional carnaval local ganham novas conotações.

            O sonho e o inconsciente vêm então à tona, e as artistas da aquarela, ao mergulharem nesse universo, são capazes de representar as formas arquitetônicas mais variadas, das mais estruturadas as mais livres, num movimento de emoções que vai da nostalgia de algumas paisagens à vibração intensa de cores nas aquarelas mais aparentadas com o expressionismo.

            Cidade marítima por excelência e poética por vocação, Veneza, nos detalhes de suas casas ou na riqueza de seus edifícios, constitui um território imaginário que as aquarelas reunidas na exposição Portas da água expressam com intensidade. Há nelas, como em Proust, a certeza de que, se a aquarela tem alguns endereços certos como campo de atuação artística, um deles é a fluida e enigmática Veneza, cercada de água e de mistério, como o momento mágico em que o artista se coloca perante o papel em branco para, com o domínio da sua técnica e da água, iniciar mais um trabalho.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).


 

 

 

 

 

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