por Oscar D'Ambrosio


 

 

 

 
 

POR QUE ESTUDAR LITERATURA?

 Oscar D’Ambrosio

 

SUMÁRIO

1-     A LITERATURA

2-      FUNÇÃO MIMÉTICA: PLATÃO

3-      FUNÇÃO MIMÉTICA: ARISTÓTELES

4-      FUNÇÃO PRAGMÁTICA: AS FÁBULAS

5-      FUNÇÃO EXPRESSIVA: O ROMANTISMO

6-      FUNÇÃO OBJETIVA: MACHADO DE ASSIS

7-      FUNÇÃO SINFRÔNICA: SHAKESPEARE

8-      FUNÇÃO LÚDICA: OS REPENTISTAS

9-      FUNÇÃO EVASIVA: PAULO COELHO

10-  FUNÇÃO DE COMPROMISSO: SARTRE

11-  FUNÇÃO DE IMORTALIDADE: FERNANDO PESSOA

12-  ALTERNATIVAS

13-  ATÉ A PRÓXIMA!

 

1- A LITERATURA

       Alegre e destemido, Letronildo enfrentou um grande desafio ao começar a lidar com letras e páginas.

        Já havia lido diversos livros, mas nunca pensara que existia uma ciência específica para estudar obras e períodos históricos.

        Cabelo despenteado, óculos coloridos e certo desespero em entender o que parece incompreensível transformam nosso desajeitado herói em um agregado de emoções confusas . Precisará sofrer para atingir  a compreensão?

         Já recebeu a lista dos livros exigidos pela escola, mas ainda não sabe direito o que fazer com ela. Será que ler é necessário? Vale a pena realizar resumos? A opinião dele é importante ou deve apenas repetir as idéias da professora?

         Não é fácil ser Letronildo. Sente simpatia pelo mundo das Letras, mas está perdido em um universo onde tudo parece possível.e nada e definitivo. Pelo contrário, a relatividade predomina. Não a de Einstein, mais uma vaguidade intangível.

         Para que ler afinal? Por que estudar literatura? Qual é o sentido de conhecer as numerosas obras mencionadas logo no primeiro dia de aula? Letronildo está quase se afogando nessas e outras perguntas. Só lhe resta uma alternativa. Falar com a pessoa  mais letrada da família, a vovó Literatura.

 

2- FUNÇÃO MIMÉTICA: PLATÃO

       Instalada em um casarão repleto de livros, a  avó de  Letronildo já esperava a visita do neto. Sabia que os membros da família sempre passavam pela mesma crise por volta dos quinze anos. Um pouco mais cedo ou mais tarde, iam procura-la para entender por que as pessoas escreviam e liam livros há séculos.

        Sentada em sua poltrona cor-de-rosa, vovó Literatura não perdeu tempo:

        -- Letrô, a sua pergunta por que estudar literatura. Não é original. Todos os interessados nas Letras já tiveram essa dúvida. A resposta também não é simples. Há diversas teorias. Conhece-las exige um pouco de esforço e bom-humor para enfrentar novos desafios. Você aceita?

        -- É claro. Vim aqui para isso.

___ Você imagina que foi o primeiro a se preocupar com a função da arte? Quem teria sido o primeiro a questionar por que existe a arte, a poesia, o teatro e a literatura?

___ Nem desconfio, vô.

___ Não é difícil. Qual o povo antigo que se caracterizou por uma busca constante as sabedoria, interrogando tudo o que estava ao seu redor?

___ Vô, a senhora está falando difícil. Talvez com alguma pista...

___ Estou falando de um país europeu...

___ Melhorou.

___ ... que sediou os primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna em 1896.

___ Isso é fácil. É a Grécia.

___ Ótimo. Bem antes das Olimpíadas, um filósofo chamado Platão (428 – 348  a.C.) disse que a arte possuía a função mimética.

___ Mimética?

___ Sim. A palavra mimesi significa imitação. Para Platão, a arte apenas imita a realidade.

___ Como assim?

___ É mais ou menos simples. Platão acreditava que havia basicamente dois mundos: o mundo das idéias e o mundo da existência

___ Parece complicado.

___ Mas não inexplicável. O mundo das idéias reuniria a essência de todas as coisas. Seria um mundo de idealismo e perfeição. Lá encontraríamos a mulher perfeita, a cama perfeita. Tudo em um estado de pureza absoluta, certo?

  ___ Tá bom. E o mundo da existência?

  --  Seria a nossa realidade concreta. É o mundo em que vivemos. Há camas bem feitas e mulheres bonitas, mas nada é perfeito. O sonho dos homens seria exatamente sair do mundo da existência -- que conhecem -- e atingir o da essência -- que desconhecem.

-- Isso é possível?

-- A arte seria exatamente uma tentativa. Mas uma tentativa que, para Platão, não obtém resultados.

-- Por quê?

-- Para realizar uma pintura ou o desenho de uma cama, onde o artista busca seu modelo?

 No mundo das essências, que desconhece, ou na cama concreta do mundo da existência?

-- É fácil responder. Ele parte da cama que conhece para tentar atingir a que não conhece.

-- Exatamente. Essa cama que desenha é perfeita ou não passa de uma imitação da cama do mundo da existência?

-- É uma imitação da cama existente que tenta atingir a essência!

-- Perfeito. Só que, segundo Platão, o esforço é inútil. Cada pintura apenas e tão somente afastaria o homem do ideal. São cópias de segunda mão da realidade do mundo da existência.

-- Sendo assim, vó, a arte não tem sentido...

-- É o que pensava Platão. Acreditava tanto nisso que, ao elaborar sua República, projeto de um governo ideal, os artistas não teriam direito de participar, pois em nada contribuiriam

para a busca constante do mundo das essências.

 

3 - FUNÇÃO MIMÉTICA: ARISTÓTELES

 

-- Sabe Vó, às vezes, tenho também essa impressão de que a arte é inútil. Leio certos textos que não me ajudam em nada.

-- Pode ser Letrô, pode ser. Outro grego, discípulo de Platão, chamado Aristóteles (383 – 322  a . C.), discordava. Também achava que a arte era um mimesi, imitação do real, mas a valorizava.

-- Por quê?

-- Você adora fazer perguntas, menino. Mas isso é bom. Revela curiosidade, característica de todos os integrantes da família.

-- E quanto a Aristóteles?

-- Ele valoriza o mundo real, o mundo da existência. Seu raciocínio é simples. A arte teria a função de desmontar a realidade e remontá-la . Nesse procedimento, o ser humano poderia atingir a essência que Platão tanto almejava.

-- Não entendi.

-- Imagine que um artista vai pintar um pássaro. Precisa estudar cuidadosamente todas as suas partes (desmontar) e organizá-las da maneira que achar melhor (remontar). Fazendo isso, poderia atingir a essência do pássaro.

-- Parece interessante.

-- A regra seria captar o geral no particular. Isto significa o seguinte:  ao examinar o pássaro, o artista tenta verificar o que há nele que o identifica a todos os outros.   Se conseguir,terá encontrado a essência dos pássaros. Não de um em  particular, mas de todos. Um bom livro deve fazer o mesmo. Ao contar a história de um personagem, estaria na verdade mostrando aspectos comuns de toda a humanidade. Entendeu, Letronildo?

-- Não é a coisa mais fácil que já me explicaram, mas acho que sim.

 

4 - FUNÇÃO PRAGMÁTICA : AS FÁBULAS

-- Confio em você. Tanto isso é verdade que até arrisco uma pergunta.

-- Qual?

-- Você já ouviu falar de La Fontaine (1621 – 1695)?

-- Claro era um francês que escrevia fábulas. “A Raposa e as uvas”, por exemplo.

-- Muito bem.

-- Por que essa pergunta, Vó?

-- Platão e Aristóteles acreditavam que a arte era a imitação da realidade. O primeiro a desvaloriza, enquanto o segundo a vê com bons olhos,  certo?

-- Perfeito .

-- O poeta latino Horácio ( 65 a. C. – 8 d. C.) julga a arte de uma forma diferente. Não fala mais em função mimética, mas é o pai da função pragmática

-- Mais um nome difícil ...

-- Nada muito complicado. Para Horácio , a arte tem duas funções: educar e divertir. O leitor deve ser levado à ação, refletindo sobre os próprios valores

--- É por isso que a senhora  me perguntou  sobre La Fontaine?

-- Muito bem, Letrô. As fábulas ilustram bem o conceito de Horácio. Elas provocam prazer na leitura e também procuram ensinar lições de moral e comportamento, orientando a práxis (ação, em grego) do leitor. Este não poderia ficar passivo após entrar em contato com o texto.

-- Trocando em miúdos, Horácio achava que as pessoas escrevem para ensinar algo a outras?

-- Certo. O bom texto deveria alterar o comportamento, pois levaria o leitor a repensar certos valores e conceitos. O essencial seria sempre buscar o belo e transmitir uma mensagem repleta de conceitos sobre o real significado da vida e as melhores formas de enfrentá-la.

 

       5- FUNÇÃO EXPRESSIVA: O ROMANTISMO

 

-- E a emoção, Vó? Uns querem imitar a realidade, outros querem passar idéias.   A arte não está também ligada à emoção, ao amor e à paixão?

-- Calma , Letrô. No século XIX, surge o romantismo. Com ele começa-se a falar em função expressiva. Pergunta que você responderá com facilidade: ela brota de dentro para fora dos indivíduos ou é resultado de um movimento de fora para dentro?

-- Função expressiva... Deve vir de expressão... Que bem de expressar. Sendo assim , sem matutar muito... Acredito que seja um movimento de dentro para fora. Quem expressa coloca para fora. Seus sentimentos e emoções .

-- Ótimo. Os românticos não vêem a realidade de uma maneira objetiva. A arte, para eles, é uma revelação e um desnudamento do eu.

-- O que isso significa?

-- O romântico é um artista que se acredita  maior do que o mundo. A emotividade prevalece.      A alegria ou o inconformismo são muito fortes. Cada poeta ou romancista extravasa emoções sem parar. Casimiro de Abreu (1839-1860) ou Fagundes Varela (1841-1875) são exemplos nacionais do predomínio da função expressiva.

-- E a racionalidade?

-- Para eles, fica em segundo plano. O agir é bem mais importante do que o pensar e  o refletir. Na pintura, Van Gogh (1853-1890) mostra bem o universo da função expressiva. Há ímpeto, violência e emoção nas cores e pinceladas.   Sentir antes de pensar. Esse poderia ser o lema das obras que seguem uma vertente expressiva.

-- Mas ela não é muito exagerada, Vó? Não seria possível dosar um pouco essas emoções

todas?

 

6-     FUNÇÃO OBJETIVA: MACHADO DE ASSIS

-- Querido Letrô, suas perguntas ficam cada vez mais precisas.  A literatura também é considerada uma função objetiva da linguagem.

-- Considerada por quem?

-- Em fins do século XIX, a arte sofre uma transformação. Até a invenção da fotografia, os pintores, por exemplo, procuravam, em seus quadros, reproduzir a realidade. Com as fotos, isso não tinha mais sentido.

-- Isso é lógico Vó. Para que gastar dias fazendo um quadro se uma foto, em instantes,

resolve o problema.

-- Perfeito. Os pintores començaram então a realizar uma série de expeiências, perguntando-se qual seria a função da arte agora que a mera reprodução podia ser feita por meios químicos e mecânicos. A arte começou então a se autoquestionar, perguntando-se “para que sirvo?”.

-- Alguém chegou a uma conclusão?

-- Cada artista fez sua tentativa. Mas o principal na função objetiva é a capacidade de estar sempre interrogando a arte e inventando novas formas  de perguntar qual é a sua própria utilidade . As respostas simples, como você sabe, Letrô, nunca são convincentes.

-- Vó, você poderia me dar um exemplo?

-- Com certeza. O pintor francês René Magritte (1898-1967) desenhou um cachimbo em uma tela.  Em baixo, escreveu, em francês, “Isto não é um cachimbo”. Desse modo seu quadro não procurava imitar a realidade. Muito menos educa ou diverte. De jeito algum emociona. Mas questiona para que serve a arte, provocando nos observadores da pintura certa inquietação para também decifrar esse enigma

-- Entendi. E na literatura?

-- Basta ler Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1839-1908). O romance constantemente interrompe o fluir da história para realizar reflexões e perguntas sobre como a narrativa está indo, se interessa ao leitor e se tem realmente alguma utilidade. O leitor pode até ficar irritado, mas nunca indiferente.

 

7 - FUNÇÃO SINFRÔNICA: SHAKESPEARE

-- Já ouvi dizer que a arte vence o tempo É mais uma frase de efeito, escrita para impressionar, ou tem fundamento?

-- Letrô, quase tudo na vida tem certo fundamento. Muitos acreditam que uma boa obra é aquela que consegue eliminar uma época (tempo) e um  cenário (lugar) específicos

-- Quem, por exemplo?

-- Você e seus exemplos O poeta inglês John Keats (1795-1821) é um deles Afirmava: “A vida é um vale onde se moldam e configuram as almas”.

-- Uau! Muito chique.

-- Mais chique ainda é o nome que os teóricos dão a essa opinião. Os que concordam com Keats acreditam que a literatura tem uma função sinfrônica.

-- Sinfrônica. Parece nome de poção mágica .

-- Quase isso. Quando se pensa em sinfronismo, significa que se acredita na existência de uma coicidência espiritual entre homens da mesma época ou de épocas diferentes. Seria um autêntico encontro de almas à margem do tempo, além dele.

-- A senhora poderia ser um pouquinho mais clara?

-- Vou tentar. Imagine uma peça de Shakespeare (1564-1616). Romeu e Julieta,  por exemplo. Foi escrita em 1594 e obteve sucesso, ao ser encenada hoje, em qualquer lugar do mundo, ainda é bem recebida. O que isso significa?

-- Que ela continua atual.

-- É isso. Romeu e Julieta tem valor sinfrônico porque não sucumbiu ao passar dos anos. Os valores, problemas e conflitos que apresenta a tornam tão ou mais atual do que era quando foi escrita . Ao vencer a morte do autor e poder ser encenada eternamente, uma obra de arte mostra que a função sinfrônica  é uma realidade apenas atingida pelos que captam as facetas mais complexas e deslumbrantes do ser humano

-- Falou bonito agora, Vó. Senti firmeza.

 

8 - FUNÇÃO LÚDICA: OS REPENTISTAS

 

-- Por falar em falar bonito, Letrô, há autores que acham que basta dizer palavras bonitas para se produzir boa literatura.

-- Lá vem a senhora com essas explicações confusas...

-- Não quero confundir ninguém. Apenas lembrei que existe a função lúdica.

-- Lúdica? Isso me lembra jogo.

-- Você está realmente revelando talento, Letrô. A função lúdica é aquela que considera a literatura apenas um jogo, preocupando-se somente com a estética e com o belo. O importante é que o artista tenha prazer em escrever os versos. A poesia confunde-se muitas vezes com a adivinhação. Os versos são quase incompreensíveis, sendo difícil encontrar verbos, sujeitos e predicados.

-- Quem gosta de ler textos assim?

-- O leitor é o menos importante. Tudo gira em torno do talento do poeta e da sua capacidade de escrever pensamentos em determinados padrões de rimas, com números de   sílabas  e versos preestabelecidos.  As imagens criadas pelos poetas são autênticos quebra-cabeças. A literatura de cordel e os repentistas sabem como isso funciona.

-- Não entendi.

-- Nos desafios entre cantadores, certas normas silábicas e rítmicas precisam ser obedecidas. Isso pode até sacrificar o  conteúdo. O importante é conseguir moldar a idéias a determinados padrões. Tudo não passe de um jogo de intelecto . O essencial é a forma de dizer, não tanto o que se diz. É como ficar brincando com as letras do próprio nome e descobrir quantas palavras é possível formar. O resultado é o de menos. O prazer está no

jogo com as palavras.

 

9-     FUNÇÃO EVASIVA: PAULO COELHO

-- Pelo que entendi, a função lúdica dá grande importância à inteligência.

-- É verdade, Letrô, mas a capacidade de raciocínio também gera outra função da literatura.

-- Qual?

-- É a função evasiva. Consiste na fuga da realidade cotidiana.

-- Fuga para onde?

-- Para libertar-se das ansiedades do dia-a-dia, o homem cria fantasias e compensações para enfrentar um mundo insatisfatório.

-- A senhora ficaria nervosa se eu pedisse um exemplo?

-- Nunca. A função evasiva tem como objetivo que o leitor esqueça as pressões que sofre da sociedade. Um exemplo são as utopias. Elas criam lugares ideais em que a felicidade e a harmonia predominam. Thomas Morus (1480-1535) é um desses visionários. Em sua ilha paradisíaca, não haveria conflitos. Todos poderiam participar desde que...

-- Sabia que tinha alguma condição.

-- Naturalmente. Para participar da utopia de Morus era necessário acreditar em Deus e na imortalidade da alma.

-- E além das utopias? A função evasiva pode ser encontrada de outra maneira?

-- Há as distopias, o contrário das utopias. São lugares tenebrosos, geralmente imaginados em relação ao futuro da raça humana. Um exemplo disso é 1984, de George Orqell (1903-1950). Ele criou uma sociedade autoritária e violenta para criticar a possibilidade de que qualquer tipo de totalitarismo, seja de esquerda ou de direita, dominasse o mundo.

-- E além das utopias e distopias?

-- Sua curiosidade é insaciável, Letrô. Existe ainda a função evasiva vertical.

-- Parece interessante.

-- Trata-se de misticismo. Autores como  Santa Teresa de Ávila (1515-1582), em Moradas, e São João de la Cruz (1542-1591), em A noite escura da alma são exemplos de como a evasão, via literatura mística cristã, teve --- e ainda tem --- numerosos adeptos.

-- E no Brasil? Há autores que representem a função evasiva vertical?

-- Sem dúvida. Um deles alcança hoje grandes índices de vendagem. É Paulo Coelho. Livros como O Alquimista e Diário de um mago procuram exatamente que o leitor encontre respostas para este mundo através da harmonização de si mesmo ligada a fenômenos muito mais espirituais no futuro do que concretos no presente.

 

10- FUNÇÃO DE COMPROMISSO: SARTRE

-- Mas, vó, Paulo Coelho não prega o autoconhecimento como forma de atingir a harmonia?

-- Veja bem, o texto dele procura uma ação social das pessoas ou está mais voltado para a atitude individual de cada um em relação a si mesmo?

-- Ele acredita que cada um precisa rever-se para atingir um melhor relacionamento com os outros.

-- A função de compromisso penda exatamente o contrário.

-- Que função é essa?

-- O primeiro a falar  nela abertamente foi o filósofo francês Jean Paul Sartre (1905-1980). Em textos como O existencialismo é um humanismo (1946) mostra que o mundo pode ser explicado  pela escrita. Paulo Coelho prepara o homem para o amanhã. Sartre escrevia para mudar  o mundo no presente.

-- Parece fascinante.

-- Ingênuo também. Sartre dizia que a arte é uma responsabilidade social. O conteúdo das palavras seria uma arma. O mundo poderia ser explicado e transformado pela literatura.

-- Não parece simples.

-- Não é. Ele lutou para convencer seus contemporâneos que a arte devia ter uma finalidade fora de si. Era contra a função lúdica, que se basta com o prazer de fazer versos, e contra a função evasiva , que cria outros universos para refletir sobre  este.

-- O que ele queria então?

-- Uma arte do aqui e do agora que falasse dos homens e do tempo presentes.

-- Apenas  Sartre como exemplo? No Brasil ninguém seguiu suas idéias?

-- Todo artista que compromete sua escrita a um determinado movimento político ou ideológico é um exemplo da função de compromisso. Na ex-União Soviética, surgiu até o realismo socialista, estilo de obras que defendiam o socialismo e o comunismo. No Brasil, também há autores comprometidos em transformar o presente com sua arte.

-- Quem?

-- O dramaturgo Plínio Marcos (19351999) é um deles. Embora muito combatido e polêmico,sempre tratou em suas obras de questões sociais de inegável importância, levando ao palco o drama dos marginalizados e, mais recentemente, na peça A Mancha Roxa, a questão da AIDS nas prisões.

 

11- FUNÇÃO DE IMORTALIDADE: FERNANDO PESSOA

 

-- Vó, se entendi bem, Paulo Coelho preocupava-se com o amanhã em nível individual, enquanto Sartre acreditava que os homens coletivamente deviam alterar a sociedade. O primeiro foge do caos contemporâneo pela espiritualidade. O segundo prega o engajamento, ou seja, uma arte sempre voltada para as questões sociais.

-- Ótimo, Letrô. Quem falou bonito agora foi você.

-- Tive a quem puxar. Mas ainda tenho dúvidas. Por enquanto só falamos de autores famosos. E aqueles que apenas são valorizados após  a sua morte ou quando já são idosos?Como explicar a teimosia deles em escrever enquanto são ignorados pelo jornais e pela crítica?

-- Você  está de parabéns! Sua pergunta nos leva a última função da literatura: a função da imortalidade

-- O que é isso?

-- Trata-se dos autores que escrevem preocupados muito mais com a perenidade do que com o sucesso imediato. Não buscam fama e glória enquanto vivos. Acreditam que serão reconhecidos a longo prazo pela qualidade do que escreveram.

-- E se ninguém reconhecer o seu talento?

-- É um riso que correm. Fernando Pessoa (1888-1935), por exemplo. Embora seja hoje considerado um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos, publicou apenas um livro em vida: Mensagem. Somente após seu falecimento,graças aos amigos e admiradores, sua obra começou a ser organizada, constituindo um patrimônio português e mundial.

-- Essa visão é meio pessimista, não acha, vó?

-- Difícil dizer. Os poetas que escrevem muito mais pensando no sucesso  futuro do que na glória presente tendem a se considerar deuses. O chileno Vicente Huidobro (1893-1948)

afirma: “O poeta é um pequeno deus”. Afinal, os artistas criam personagens e mundos, podendo ser considerados, de certo modo,  divinos.

-- Não é meio exagerado dizer isso?

-- Pode ser. Outros vêem os poetas como intermediários  entre Deus e os mortais. Os seres humanos seriam capazes de três grandes momentos de prazer: o amor, a arte e a morte.

-- Por quê?

-- Nesses três instantes, o homem conseguiria sentir total liberdade. Amando, criando ou enfrentando o enigma da morte seria possível atingir o próprio equilíbrio.

-- Pelo que estou percebendo, a função de imortalidade busca também a felicidade...

-- Mais do que isso. Busca a perfeição, Letrô.

-- O poeta, o sacerdote , o soldado  e o santo teriam em comum o desejo de superação constante dos mais variado desafios.

-- Vó, não fique difícil...

-- Você endenderá. Os quatro têm capacidade de vencer a morte, o maior mistério que o homem enfrenta. O poeta pode-se eternizar pelo talento. O sacerdote procura servir de modelo aos fiéis. O soldado sabe que, em cada batalha, precisa se superar para não perder a vida. Finalmente, o santo, através de uma vida virtuosa voltada a Deus, também pode ser eternamente lembrado e tomado como exemplo de conduta.

-- Entendi. Os quatro trabalham arduamente, hoje, mesmo anônimos, para ganharem a eternidade, sendo lembrados após a sua morte física.

-- É isso mesmo, Letrô. Para os que buscam a imortalidade, o sucesso a longo prazo é mais importante do que glórias passageiras. Esse é o desafio dos que produzem literatura com a intenção de sempre serem fiéis a critérios próprios de qualidade, mesmo que isso signifique o anonimato por muitos anos ou mesmo séculos...

 

12- ALTERNATIVAS

 

-- Vó, a senhora me ensinou muito. Mas não sei se resolvi o meu problema. Ainda tenho aquela lista enorme de livros para ler. Será que vou usar tudo o que aprendi?

-- Antes de mais nada, repasse tudo o que você se lembra sobre as funções da literatura.

-- Que pedido antipático, vó.

-- Só quero saber se a nossa conversa foi proveitosa. Faça um esforço.

-- Está bom. Mas só vou falar porque a senhora pediu com carinho.

-- Vamos Letrô! .Chega de enrolação.

-- Tá bem. Platão, o primeiro a tocar no assunto, acreditava que a arte era inútil, pois consistia em uma simples imitação da realidade que cada vez mais se distanciava do mundo ideal das essências.

-- E Aristóteles?

-- Afirmava o contrário. Era através da arte que os seres humanos poderiam atingir o mundo ideal. Observar a realidade e transformá-la por intermédio da arte era uma atividade que valorizava.

-- E a função pragmática?

-- Considera a arte com duas funções: educar e divertir, dando lições de moral e comportamento ao leitor. Quanto a função expressiva valoriza a emoção e o sentimento em situações geralmente exageradas. Amores e ódios são sempre explosivos.

-- Está indo bem, menino. Continue.

-- Na função objetiva, a arte volta-se sobre si mesma, perguntando qual é o seu significado e questionando o seu papel no mundo. O sinfronismo acredita que o sucesso de certas obras é constante quando entram em sintonia com a alma do público. Um texto sinfrônico foi sucesso, é  sucesso e será sempre valorizado.

-- Estou orgulhosa, Letrô.

-- Ainda não terminei. Na função lúdica, o que interessa é o prazer do artista no ato de criar. O público fica em segundo plano. A maneira de fazer é mais importante do que o resultado. A função evasiva busca uma alternativa para o sofrimento na caótica realidade. Abusa da fantasia e do misticismo.

-- Ainda faltam duas  funções.

-- Eu sei, vó. A função de compromisso defende a necessidade de uma arte que estimule as pessoas a tomarem posições concretas para mudar as estruturas sociais. A arte deve falar sobre o presente para modificá-lo. Finalmente , a função de imortalidade tem a convicção de que o importante não é o sucesso presente, mas realizar um trabalho com consistência e valor. Mesmo que isso conduza ao anonimato, o talento, algum dia será reconhecido. O artista é apenas coerente com a qualidade. Não abre  mão dela, certo de que a sua hora algum dia chegará.

 

13- ATÉ A PRÓXIMA!

 

-- Letrô, você se saiu muito bem! Parabéns! Acho que nada mais posso fazer por você. Se novas dúvidas surgirem, me procure...

-- Obrigado por tudo, vó. Mas ainda tenho algumas coisas a dizer.

-- Diga então.

-- Durante a nossa conversa, pensei muito e acho que alguns pontos não ficaram ainda muito claros...

-- Por exemplo...

-- Agora é a senhora quem pede exemplos? Vejam só!

-- Vá direto ao ponto, Letrô!

-- Tá bom! Primeiro: todas as funções têm a mesma característica. A literatura parece que sempre toma a vida como ponto de partida e reflete sobre ela de maneiras diferentes. Isso é verdade?

-- De fato, Letrô. As funções seguem esse ritual. A literatura parte do real, do que conhece e o transforma de diversas formas, sempre procurando entender melhor o mundo que a cerca.

-- Segundo: a arte é dinâmica e individual. Cada autor parece interpretar o mundo  a sei jeito, questionando o que vê e obrigando o leitor também a refletir.

-- É verdade, Letrô. Se a arte transforma a realidade, há infinitas formas de fazer isso, permitindo o surgimento de diversas possibilidades de entender a vida. Não há formas certas ou erradas. Apenas incontáveis maneiras de ver o que está ao nosso redor.

-- Terceiro: a arte, entre elas a literatura, é a expressão mais completa do homem porque lida com a inteligência, a afetividade, a razão e o sentimento. Todo se mistura, permitindo entender melhor a complexidade do ser humano e do mundo em que a gente vive.

-- Nada a acrescentar, Letrô. Como bom discípulo, você está superando o mestre. Agora preciso descansar um pouco. Espero vê-lo em breve por aqui para uma visita com indagações e dúvidas cada vez mais inteligentes.

-- Voltarei antes do que a senhora espera, vó. E com muitos livros lidos. Agora sei que não basta percorrer os olhos pelas páginas. Também é necessário interpretar que visão de mundo o autor passa em cada obre. Somente por entender isso nossa conversa valeu a pena. Até breve, vó.

-- Até, Letrô. E não se esqueça de perguntar sempre...

 

 

 

 

 

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