por Oscar D'Ambrosio


 

 


   Pop Art no mundo

 

Fábrica de idéias

 

            Se o Cubismo revolucionou a arte de sua época por se debater contra as limitações visuais e mito comportadas dos pós-impressionistas, a Pop Art tinha como referência o excesso de energia dos expressionistas abstratos e suas pretensões filosóficas e até espiritualistas de atingir um mundo melhor por meio das artes visuais.

            Por isso, a Pop Art levou para a tela o dia-a-dia das pessoas comuns, geralmente oriundo da televisão, das revistas de grande circulação e das histórias em quadrinhos que alimentavam o imaginário de toda uma geração, com um conteúdo amplamente acessível.

O movimento, ao contrário do que muitos pensam, surgiu na Inglaterra, nos anos 1950, não nos EUA, mas foi no país do Tio Sam, especificamente em Nova York, que cristalizou as atenções do mundo, dividindo a cena da arte internacional com o minimalismo.

 

Arte reproduzível

            Conceitualmente, a Pop Art recuperou o conceito de que a arte pode partir do cotidiano é que aquilo que é produzido em massa e reproduzível tem o mesmo valor de uma peça única. Nesse sentido, a discussão entre uma arte “elevada” e “popular” perde o sentido

A mídia e a publicidade tornam-se os centros da cena, com destaque para a estética e as atitudes do norte-americano Andy Warhol. Gênio para alguns, falastrão para outros, foi publicitário e utilizou fotos de figuras da mídia de sua época, como Marylin Monroe e Elvis Presly. (Veja box.)

            Valeu-se muito da serigrafia que permitia grande reprodutibilidade e infinitas variações e, em seu ateliê, chamado Factory  (“Fábrica”) seguia um processo criativo que muitos detestavam: concebi obras e transferia o processo de criação para seus funcionários e assistentes.

 

 Consumo de massa

            O próprio nome Pop Art é ambíguo. Não se trata de popular art (arte popular  feita pelo povo, mas manifestações artísticas produzidas para o consumo de massa. O objetivo explicitada, porém, porém, nunca foi alcançado, pois a massa urbana não chegou a consumir essa arte, que ficou cada vez mais restrita a colecionadores do gênero.

O fato é que objetos e assuntos comuns como latas, sanduíches, personagens de histórias em quadrinhos, anúncios, embalagens e cenas de TV foram as fontes de um trabalho que misturava fotografia, pintura, colagem, escultura e assemblage, que permite trabalhos em três dimensões que se apropriam do universo visual que a tecnologia industrial criou nos grandes centros urbanos.

            Muito menos crítica ao consumismo e muito mais preocupação em resgatar a arte como um elemento do cotidiano urbano, a Pop Art tem como marco The Independent Group, cujo principal destaque é Richard Hamilton, com o célebre trabalho  O que exatamente torna os lares de hoje tão diferentes, tão atraentes?

As expressões visuais do mundo moderno – que estavam nas ruas e casas, nas revistas e no cinema – são a matéria-prima de nomes do grupo, como  Eduardo Luigi Paolozzi, Richard Smith e Peter Blake. São artistas que, no pós-Segunda Guerra, têm algum deslumbramento pela prosperidade americana do período.

 

Artistas isolados

Já nos EUA, a Pop Art foi menos grupal e mais isolada até 1963, quando as exposições Arte 1963: novo vocabulário, no Arts Council, Filadélfia, e Os novos realistas, na Sidney Janis Gallery, em Nova York, reúnem obras que tem como ponde partida o material publicitário e da mídia.

Andy Warhol, Roy Lichtenstein, Claes Oldenburg, James Rosenquist e Tom Wesselmann surgem como nomes basilares.Não há programas, manifestos ou mesmo um estilo visual unificador. Temáticas urbanas, desenho simplificado e cores saturadas unem esse artistas.

Longe da carga subjetiva e do gesto lírico-dramático, característicos do expressionismo abstrato, cada um opta por um caminho. Robert Rauschenberg prefere as colagens tridimensionais; Jasper Johns, as imagens planas e emblemáticas; T. Wesselmann, naturezas-mortas compostas com produtos comerciais; Lichtenstein, os quadrinhos; e Oldenburg, as esculturas.

Warhol dá sua grande contribuição ao tomar Marilyn Monroe, Elvis Presley, Liz Taylor e Marlon Brando, ícones da cultura popular, e, pela reprodução mecânica e infinita de suas imagens, esvaziá-las de dimensão humana ao reproduzi-las infinitamente. Elas se tornam tão cheias de humanidade como uma garrafa de Coca-Cola ou uma lata de sopa Campbell.

 

Ícones vazios

            Aliadas às suas experiências cinematográficas, marcadas pela ausência de roteiro e câmera imóvel, o trabalho de Warhol com imagens de ícones de uma época alerta para a falta de real sentido na fama e para a despersonalização e artificialidade dessas pessoas ao serem convertidas em produtos da cultura de massa.

Com duas autobiografias, um programa na MTV em que colocava em prática a própria idéia de “15 minutos de fama” e a atitude de ter sósias que se faziam passar por ele durante conferências e acontecimentos sociais, desenvolveu sua relação com o mundo da arte pela Factory, que também funcionava como escritório de negócios artísticos.

            Vinculado ainda ao sucesso da banda Velvet Underground, atingido por um tiro de uma líder de um movimento feminista, Andy ilustra bem como a Pop Art tinha pouca ou nenhuma preocupação política, no sentido de crítica ou denuncia social. Sua preocupação era trabalhar com a riqueza visual dos centros urbanos. Há, acima de tudo, apropriação do idioma comercial, tornando a arte popular, no sentido de utilizar imagens universais e facilmente reconhecidas por todos.

            Oriundos de uma formação erudita, mas com experiência profissional na pintura de cartazes, criação de anúncios publicitários e desenho de anúncios de produtos, os artistas mais renomados da Pop Art incorporaram o pensamento publicitário ao seu metiê e, entre outros méritos, guardam o de ter dado o pontapé inicial para que filmes e fotogtrafias autorais passassem a ser aceitos em museus e exposições internacionais, fator essencial para a compreensão da atual cena da arte contemporânea.

 

            (BOX)

            Andy Warhol

            Nascido Andrew Warhola (1928-1987), o artista plástico Andy Warhol nasceu numa família humilde de imigrantes tchecos. Freqüentou o Carnegie Institute of Technology, em Pittsburg, onde se formou em desenho artístico. Mudou-se depois para Nova York, onde trabalhou como ilustrador de revistas como Vogue e Harper's Bazaar.

            As suas primeiras pinturas, nos anos 1960, refletiam o estudo da estética das histórias em quadrinhos e tinham como protagonistas personagens mais populares. Produz, em seguida, as séries de quadros de latas de sopa Campbell e outros bens de consumo cotidianos.

As célebres serigrafias coloridas de personagens famosos, como Marilyn, Liz Taylor e Marlon Brando, surgiram em 1962, quando abriu sua Factory,escritório no qual trabalhava com um grande número de colaboradores. Logo conseguiu se tornar famoso, algo que sempre o havia obcecado, transformando-se no convidado natural dos eventos mais importantes de Nova York.

Entre seus principais trabalhos, que provam seu ecletismo, estão quadros como Disasters  e As cadeiras elétricas, além de retratos de judeus famosos. Também atuou como diretor de cinema e apoiou muitos artistas jovens, como Basquiat, chegando a ter uma importante coleção de pinturas e objetos de arte contemporânea.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 



 

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