Pop Art no mundo
Fábrica de idéias
Se o Cubismo
revolucionou a arte de sua época por se debater contra as limitações
visuais e mito comportadas dos pós-impressionistas, a Pop Art tinha como
referência o excesso de energia dos expressionistas abstratos e suas
pretensões filosóficas e até espiritualistas de atingir um mundo melhor
por meio das artes visuais.
Por isso, a
Pop Art levou para a tela o dia-a-dia das pessoas comuns, geralmente
oriundo da televisão, das revistas de grande circulação e das histórias
em quadrinhos que alimentavam o imaginário de toda uma geração, com um
conteúdo amplamente acessível.
O movimento, ao contrário
do que muitos pensam, surgiu na Inglaterra, nos anos 1950, não nos EUA,
mas foi no país do Tio Sam, especificamente em Nova York, que
cristalizou as atenções do mundo, dividindo a cena da arte internacional
com o minimalismo.
Arte reproduzível
Conceitualmente, a Pop Art recuperou o conceito de que a arte pode
partir do cotidiano é que aquilo que é produzido em massa e reproduzível
tem o mesmo valor de uma peça única. Nesse sentido, a discussão entre
uma arte “elevada” e “popular” perde o sentido
A mídia e a publicidade
tornam-se os centros da cena, com destaque para a estética e as atitudes
do norte-americano Andy Warhol. Gênio para alguns, falastrão para
outros, foi publicitário e utilizou fotos de figuras da mídia de sua
época, como Marylin Monroe e Elvis Presly. (Veja box.)
Valeu-se muito
da serigrafia que permitia grande reprodutibilidade e infinitas
variações e, em seu ateliê, chamado Factory (“Fábrica”) seguia um
processo criativo que muitos detestavam: concebi obras e transferia o
processo de criação para seus funcionários e assistentes.
Consumo de massa
O próprio nome
Pop Art é ambíguo. Não se trata de popular art (arte popular
feita pelo povo, mas manifestações artísticas produzidas para o consumo
de massa. O objetivo explicitada, porém, porém, nunca foi alcançado,
pois a massa urbana não chegou a consumir essa arte, que ficou cada vez
mais restrita a colecionadores do gênero.
O fato é que objetos e
assuntos comuns como latas, sanduíches, personagens de histórias em
quadrinhos, anúncios, embalagens e cenas de TV foram as fontes de um
trabalho que misturava fotografia, pintura, colagem, escultura e
assemblage, que permite trabalhos em três dimensões que se apropriam
do universo visual que a tecnologia industrial criou nos grandes centros
urbanos.
Muito menos
crítica ao consumismo e muito mais preocupação em resgatar a arte como
um elemento do cotidiano urbano, a Pop Art tem como marco The
Independent Group, cujo principal destaque é Richard Hamilton, com o
célebre trabalho O que exatamente torna os lares de hoje tão
diferentes, tão atraentes?
As expressões visuais do
mundo moderno – que estavam nas ruas e casas, nas revistas e no cinema –
são a matéria-prima de nomes do grupo, como Eduardo Luigi Paolozzi,
Richard Smith e Peter Blake. São artistas que, no pós-Segunda Guerra,
têm algum deslumbramento pela prosperidade americana do período.
Artistas isolados
Já nos EUA, a Pop Art foi
menos grupal e mais isolada até 1963, quando as exposições Arte 1963:
novo vocabulário, no Arts Council, Filadélfia, e Os novos
realistas, na Sidney Janis Gallery, em Nova York, reúnem obras que
tem como ponde partida o material publicitário e da mídia.
Andy Warhol, Roy
Lichtenstein, Claes Oldenburg, James Rosenquist e Tom Wesselmann surgem
como nomes basilares.Não há programas, manifestos ou mesmo um estilo
visual unificador. Temáticas urbanas, desenho simplificado e cores
saturadas unem esse artistas.
Longe da carga subjetiva e
do gesto lírico-dramático, característicos do expressionismo abstrato,
cada um opta por um caminho. Robert Rauschenberg prefere as colagens
tridimensionais; Jasper Johns, as imagens planas e emblemáticas; T.
Wesselmann, naturezas-mortas compostas com produtos comerciais;
Lichtenstein, os quadrinhos; e Oldenburg, as esculturas.
Warhol dá sua grande
contribuição ao tomar
Marilyn Monroe,
Elvis Presley,
Liz Taylor
e
Marlon Brando,
ícones da cultura popular, e, pela reprodução mecânica e infinita de
suas imagens, esvaziá-las de dimensão humana ao reproduzi-las
infinitamente. Elas se tornam tão cheias de humanidade como uma garrafa
de
Coca-Cola
ou uma lata de
sopa Campbell.
Ícones vazios
Aliadas às
suas experiências cinematográficas, marcadas pela ausência de roteiro e
câmera imóvel, o trabalho de Warhol com imagens de ícones de uma época
alerta para a falta de real sentido na fama e para a despersonalização e
artificialidade dessas pessoas ao serem convertidas em produtos da
cultura de massa.
Com duas autobiografias,
um programa na MTV em que colocava em prática a própria idéia de “15
minutos de fama” e a atitude de ter sósias que se faziam passar por ele
durante conferências e acontecimentos sociais, desenvolveu sua relação
com o mundo da arte pela Factory, que também funcionava como escritório
de negócios artísticos.
Vinculado
ainda ao sucesso da banda Velvet Underground, atingido por um tiro de
uma líder de um movimento feminista, Andy ilustra bem como a Pop Art
tinha pouca ou nenhuma preocupação política, no sentido de crítica ou
denuncia social. Sua preocupação era trabalhar com a riqueza visual dos
centros urbanos. Há, acima de tudo, apropriação do idioma comercial,
tornando a arte popular, no sentido de utilizar imagens universais e
facilmente reconhecidas por todos.
Oriundos de
uma formação erudita, mas com experiência profissional na pintura de
cartazes, criação de anúncios publicitários e desenho de anúncios de
produtos, os artistas mais renomados da Pop Art incorporaram o
pensamento publicitário ao seu metiê e, entre outros méritos, guardam o
de ter dado o pontapé inicial para que filmes e fotogtrafias autorais
passassem a ser aceitos em museus e exposições internacionais, fator
essencial para a compreensão da atual cena da arte contemporânea.
(BOX)
Andy Warhol
Nascido Andrew
Warhola (1928-1987), o artista plástico Andy Warhol nasceu numa família
humilde de imigrantes tchecos. Freqüentou o Carnegie Institute of
Technology, em Pittsburg, onde se formou em desenho artístico. Mudou-se
depois para Nova York, onde trabalhou como ilustrador de revistas como
Vogue e Harper's Bazaar.
As suas
primeiras pinturas, nos anos 1960, refletiam o estudo da estética das
histórias em quadrinhos e tinham como protagonistas personagens mais
populares. Produz, em seguida, as séries de quadros de latas de sopa
Campbell e outros bens de consumo cotidianos.
As célebres serigrafias
coloridas de personagens famosos, como Marilyn, Liz Taylor e Marlon
Brando, surgiram em 1962, quando abriu sua Factory,escritório no qual
trabalhava com um grande número de colaboradores. Logo conseguiu se
tornar famoso, algo que sempre o havia obcecado, transformando-se no
convidado natural dos eventos mais importantes de Nova York.
Entre seus principais
trabalhos, que provam seu ecletismo, estão quadros como Disasters
e As cadeiras elétricas, além de retratos de judeus famosos.
Também atuou como diretor de cinema e apoiou muitos artistas jovens,
como Basquiat, chegando a ter uma importante coleção de pinturas e
objetos de arte contemporânea.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp,
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção
Brasil).