por Oscar D'Ambrosio


 

 



        Elena Politis

        A magia do cotidiano

        O dia-a-dia é a inspiração para milhares de artistas espalhados por todo o mundo. Poucos, porem, conseguem plasmar as emoções que sentem e aquilo que vem em obras de qualidade artística. Um exemplo de trabalho que extrai do cotidiano grande força e intensidade é o da argentina Elena Politis.

        Nascida em Buenos Aires, em 19 de novembro de 1936, Elena sempre desejou se dedicar integralmente à atividade de pintar, mas esperou que as filhas crescessem e se casassem para tornar seu sonho realidade. Significativamente, elas foram suas primeiras admiradoras, pedindo pinturas para suas casas.

Começou assim um percurso que prossegue até hoje. As primeiras aulas foram no ateliê de Beatriz Anselmi, em 1986, com posterior aperfeiçoamento com as professoras Ileana Rabin e Virgilia Conforti. A primeira exposição coletiva ocorreu em 1989. Nesse mesmo ano, se aposentou, ficando com mais tempo livre para pintar. Em 1991, chegaram dois prêmios: um de Desenho, no Salão de Tango Gente del Arte (Avellaneda) e outro no Apartado Naïf XXII, no Salão Municipal de Lanús.

        Após 34 anos de atuação como professora primária, Politis admite que sua arte é influenciada pelas crianças. "Sem dúvida, elas me contagiaram com sua espontaneidade e frescor", afirma. "Quando pinto, o mundo que me rodeia desaparece. Apenas existe o que estou criando, a meu gosto e com minhas cores."

        Elena pinta geralmente interiores com grande luxo de detalhes e personagens que permitem ao espectador imaginar um sem-número de histórias. A tela En família, por exemplo, impressiona pelo nível de detalhamento. É mostrado o interior de uma casa e diversos integrantes da família aparecem em diferentes atividades, descansando, lendo, conversando junto à mesa ou trazendo uma refeição quente.

Os sofás são incrivelmente trabalhados. O estofado, em fundo amarelo, repleto de flores vermelhas e verdes dão ao quadro um colorido especial. Plantas sobre um buffet e quadros na parede transmitem senso de realismo e intenso colorido. Pela janela, à direita, são vistos uma igreja e o céu que serve como ponto de fuga visual perante a riqueza de informações do quadro.

        Outra obra de destaque é Dos etapas, que obteve o quarto prêmio na III Bienal Naïf Internacional da Fundação Rômulo Raggio, em 1998. Trata-se de mais uma cena de interior, com dois universos bem definidos. À direita, três meninas brincam com bonecas, trocando seus vestidinhos, sendo que uma delas empurra um carrinho de bebê em miniatura.

À esquerda, encontram-se quatro adultos jogando cartas. Há duas mulheres idosas, de cabelo branco, e duas senhoras de meia-idade. As paredes da sala tem um papel de parede rosa com motivos dessa flor em tons mais fortes, enquanto, no centro do quadro, levemente deslocado à direita, na parte superior, há uma porta de vidro que dá acesso a um jardim. Novamente, esse espaço aberto funciona como válvula de escape para os olhos do espectador.

Um quadro muito bem realizado, por evocar diversas possibilidades narrativas é Princípios del novecientos. Ele pode ser dividido em módulos, cada qual isolado, mas que ajuda a compor o todo. No centro, uma cama cor-de-rosa, funciona como símbolo do amor sereno e eterno.

Destacam-se então três cenas. À esquerda da cama, o pai corrige, em pé, a lição do filho; logo abaixo, uma babá coloca um bebê no berço; e, à direita desta segunda cena, a mãe arruma caprichosamente o cabelo da filha, que observa o resultado com um espelho de mão significativamente desproporcional em relação ao seu tamanho.

Estamos assim no mundo naïf, em que as relações reais entre os objetos e as pessoas ficam em segundo plano perante o fascinante e individualizado ponto de vista de cada artista. Sobre o tapete, também cor-de-rosa, espalham-se brinquedos, como uma casa de bonecas.

Novamente, o papel de parede é uma atração à parte. Verde com coroas de flores em tom mais claros da mesma cor e rosa, preenche todo o espaço e atrai o olhar. À esquerda, mais uma vez, há uma janela que descansa a contemplação da cena, rica em elementos e detalhes. Através dela, vê-se uma árvore, em que predomina também o verde de suas folhas. Quadros na parede, um armário ricamente decorado, um antigo relógio e um criado-mudo com abajur compõem a cena.

Patio de antaño apresenta estrutura semelhante. Crianças brincam no pátio, enquanto o marido lê o jornal, a esposa observa e uma criada permanece pronta a atende-los. Já em Balcón y tango, surge um casal dançando ao som de um gramofone, do qual saem notas musicais. Ao centro, abre-se uma janela, de onde é possível contemplar o porto, o que nos leva localizar a cena no lendário bairro de La Boca, que ainda mantém todo seu tom pitoresco.

        Uma imagem mais mítica pode ser encontrada em El unicornio azul, em que o célebre animal se aproxima garbosamente de uma moça, vestida de branco, índice de sua pureza. O encontro entre os dois está marcado por uma tênue sensualidade ainda mais quando sabemos que, segundo a lenda, o unicórnio somente se permite ser capturado quando descansa sua cabeça e desejado chifre, símbolo de poder espiritual, no regaço de uma mulher pura.

O cotidiano volta a falar mais forte em telas como Plaza Colombia,em que a narrativa possível é diminuída. Vê-se apenas uma família passeando num ambiente aprazível, mas esse clima de alegria contrasta com o principal monumento cercado por grades, o que faz lembrar mendigos e vândalos que destroem o patrimônio público. O cotidiano adquire assim uma sutil crítica social para o observador mais atento.

La sedería de José é um quadro que beira o surrealismo pela força das imagens. A loja que vende seda surge com suas vitrines de vidro quebradas justamente onde estão os manequins. As portas estão abertas e um senhor de olhar espantado, provavelmente o José do título, aparece, impotente, enquanto uma moça sai correndo e entra num ônibus, sendo que seu vestido revela uma longa cauda de tecido, que esvoaça e chama a atenção. Uma criança passa de bicicleta e duas outras, de costas, observam tudo. A menor, de cachecol colorido e com a cabecinha levemente inclinada para a esquerda indicia o seu are de surpresa com a situação inusitada, como se não acreditasse naquilo que vê.

        Después del trabajo transporta o observador à Grécia. Há no quadro cinco rapazes dançando perante uma fogueira. Um homem toca um instrumento de cordas e, ao longe, um padre ortodoxo grego, em suas vestes tradicionais, se aproxima. O nível de detalhamento, mais uma vez, é o ponto forte da obra. É possível ver pessoas bem junto a casa e as cores vermelha e amarela da lenha queimando dão grande força visual à cena. A luz que vem do interior da casa, a lua cheia no céu, as ruínas à direita e os galhos esmeradamente retorcidos da árvore completam a composição.

        Uma tela de Elena Politis que se diferencia pelo tema é Homenagem a Lola, dedicada à escultura argentina Lola Mora (1866-1936). Ela é vista em seu ateliê, cercada de trabalhos. Ao centro, aparece construindo uma nova figura. Nas paredes, estão pintadas cinco janelas, que permitem entrever prédios e árvores, conferindo todo um romantismo à cena. Entre as janelas, nas paredes, há quadros, luminárias ou máscaras penduradas, que colaboram para dar equilíbrio e harmonia à tela.

        Elena utiliza tinta acrílica em seus trabalhos e geralmente retrata o comércio, a escola e a praça que vê. "Essa técnica me oferece a vantagem de secar muito rápido, o que é ótimo, pois às vezes sinto necessidade de me apoiar na tela para realizar certos detalhes", afirma.

        Retomando sua vocação para o ensino, a artista plástica dá hoje aulas de pintura a crianças e adultos em seu ateliê e, a partir de 1996, passou a integrar o prestigiado Museu Austral de Arte Naïf, localizado na cidade de Esquel, província de Chubut, Argentina. "Pintar é uma das felicidades de minha vida", declara.

        As cenas de interiores de Elena Politis mostram situações idealizadas, construídas com harmonia estética e poética magia. Cada imagem retrata um cosmos exemplar e utópico, que transmite calma e felicidade e nos leva a perguntar por que o mundo cotidiano não foi pintado pelas mãos da artista. Se assim o fosse, a realidade seria uma concretização dos sonhos mais belos de cada um de nós.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

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