por Oscar D'Ambrosio


 

 

 

 
 

Poética visual pancontemporânea        

 

            Criado pelo artista plástico Valdir Rocha, o termo pancontemporâneo ilustra o objetivo desta exposição: oferecer aos observadores a possibilidade de refletir sobre obras do passado a partir de olhares do presente lançados a duas obras clássicas da pintura ocidental por Aline Hannun, Clara Marinho, Lú Salum, Rita Agueira e Silvia Fischetti.

            A primeira obra a ser revisitada é Santana, a Virgem e o menino, pintada por Leonardo da Vinci entre 1508 e 1510. O artista é o que melhor representa o Renascimento italiano. Foi pintor, matemático, escultor, arquiteto, físico, engenheiro, botânico e músico.

Um dos maiores gênios da história, pelo seu talento e criatividade, tinha uma invejável capacidade de projetar inovações. Em Santana, a Virgem e o menino aparecem quatro personagens, Ana, está próxima a sua filha Maria, que fica perto do Menino Jesus, que brinca com um cordeiro.

É interessante observar como os olhares estabelecem uma diagonal do canto superior esquerdo para o inferior direito. Também merece destaque a simbologia, porque o menino Jesus está junto a um cordeiro, que, na liturgia católica, representa  o próprio Filho de Deus pela sua aceitação de ser sacrificado pelo bem da humanidade.

O enterro do Conde Orgaz, de El Greco, de 1588, por sua vez, é uma das mais importantes da humanidade. Ela ilustra uma lenda da cidade espanhola de Toledo. A narrativa conta que Santo Estevão, cujo martírio é representado na borda de sua capa e Santo Agostinho desceram à Terra para levar o corpo do Conde Orgaz para o túmulo.

Vestidos com suntuosos hábitos eclesiásticos, eles não foram reconhecidos. O céu se abriu então para receber a alma do Conde. O pintor coloca Cristo acima dele. Abaixo estão a Virgem e São João Baptista, que intercedem em favor da alma de Orgaz, delicadamente carregada por um anjo. Há um alongamento das figuras celestes, que surgem esguias e iluminadas.

Pintor, escultor e arquiteto grego que desenvolveu a maior parte da sua carreira na Espanha, El Greco assinava suas obras com o esse nome para ressaltar a sua origem grega. Seu estilo dramático foi considerado estranho por seus contemporâneos, mas encontrou grande apreciação no século XX.

Hoje é considerado um precursor do expressionismo e do cubismo, ao mesmo tempo em que sua personalidade e trabalhos eram fonte de inspiração a poetas e escritores. Seu trabalho é tão individual que não é encaixado em nenhuma das escolas convencionais, já que une tradições bizantinas com a pintura ocidental.

            As cinco artistas desta exposição retomam essas obras clássicas à sua maneira. Aline Hannun coloca suas cores e imagens dentro da perspectiva dos grandes mestres. Clara Marinho lança sua técnica refinada para reinterpretar o passado, Lú Salum se vale da técnica da encáustica para criar atmosferas, Rita Agueira mergulha em estruturas micromoleculares para olhar Leonardo e Silvia Fischetti pesquisa possibilidades técnicas e visuais a partir dessas  obras modelares da arte ocidental. Cada uma, assim, respeita a sua própria poética visual e a coloca numa sutil perspectiva pancontemporânea.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 

 

 

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