por Oscar D'Ambrosio


 

 
 


Plaquetas de cultura

 

O dramaturgo espanhol Lope de Vega, em A viúva valenciana, alertava que “Qualquer livro discreto é um amigo que aconselha e repreende em segredo”. A máxima poucas vezes se tornou tão verdadeira como nos livretos da Coleção Plaquetas da Oficina, lançada a partir de acervo da biblioteca da Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes.

Co-editados pela Oficina do Livro e pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), os 12 volumes da Coleção tem muito a ensinar, a alertar e a repreender em termos de falhas humanas, como a vaidade. Os livros, embora pequenos em número de páginas chamam a atenção para obras totalmente esquecidas ou autores muitas vezes lembrados por outros trabalhos.

O primeiro recado da Coleção é dado justamente pelo mestre da crítica literária Antonio Candido, que, na revista Sociologia, em 1948, havia publicado O nobre – contribuição para o seu estudo, texto em que discute justamente a idéia de nobreza. Mesmo considerada pelo autor apenas uma compilação que seria a introdução de mais três textos, apresenta uma interessante reflexão sobre os elos entre o nobre, o senhor feudal e o cavaleiro medieval, entre outros.

A questão da nobreza é ainda brevemente analisada por Candido como um status, ou seja, como uma atitude perante o mundo circundante. Com a modernidade, porém, a nobreza foi perdendo o seu espaço, tornando-se hoje apenas uma abstração. Haveria, no entanto, entre certas famílias tradicionais paulistas um sentimento – se não claramente enunciado, ao menos possível de ser lido nas entrelinhas de certas afirmações – de saudade do seu passado nobre.

O volume antípoda do texto de Antonio Candido é o segundo da Coleção Plaquetas de Oficina. Nele, intitulado Monteiro Lobato e a língua do Jeca, em vez de reflexões sobre o que é ser nobre, é possível encontrar dados essenciais a respeito do que significa ser caipira. O livro inclui o texto “Rosário de Capiá (poemas caboclos)”, de Nhô Bento, com prefácio de Monteiro Lobato.

Nhô Bento é José Bento de Oliveira, autodidata e repentista nascido em São Sebastião, SP, em 1902, e falecido em São Paulo, capital, em 1968. Bastante conhecido devido a um programa na Rádio Gazeta, ele reúne dois textos: o que intitula o livro, que trata do capiá, ou seja, o capim alto que dá umas sementes lustrosas e duras usadas para fazer os rosários e “Riberãozinho”, que conta a história do percurso do fluir de um curso de água.

O mais maravilhoso nesses textos, como acentua Lobato, em seu prefácio, é a linguagem de Nhô Bento, que o autor de Urupês considera “um banho de imersão em poesia” e uma oportunidade “para travar relações com a língua do jeca – muito mais interessante e inteligente que nossa língua de letrudos”.

Se o encontro de Nhô Bento com Monteiro Lobato propicia o diálogo entre o letrado escritor e o autodidata repentista, o volume 3 da Coleção gera um outro tipo de diálogo. Trata-se agora do conto Os caminhos que tomamos” (The Roads We Take), de O. Henry, traduzido pelo poeta português Fernando Pessoa.

Cabe lembrar que O. Henry é o nome pelo qual é conhecido o escritor norte-americano William Sidney Porter (1862-1910). Autor de mais de 300 contos reunidos em obras como Os quatro milhões, publicado em 1906, e A voz da cidade (1908), costuma retratar, em tom satírico e, ao mesmo tempo próximo ao jornalístico, aspectos da vida social norte-americana do início do século XX.

O conto traduzido por Pessoa, nesse sentido, é emblemático e, provavelmente, causou forte impressão nele, que, convém recordar, cresceu, devido ao segundo casamento da mãe, em Durban, na África do Sul, tendo freqüentado a Universidade da Cidade do Cabo. O inglês, portanto, era a segunda língua do poeta que criou escritores como Alexander Search, que se expressavam no idioma de Shakespeare.

De fato, esse nome é grandioso e significativo em si mesmo, pois Alexander evoca o imperador macedônio e o sobrenome remete ao verbo “buscar”, que pode, sem dúvida, ser considerado um dos temas principais da jornada literária e existencial do poeta português, como aliás, ocorre no conto traduzido.

Da ficção de O. Henry, publicada em inglês e na tradução pessoana, a Coleção passa para um texto do escritor brasileiro Alberto Pimentel que homenageia Inocêncio Francisco da Silva. Nascido em Macaé, em 1869 e falecido no Rio de Janeiro, em 1914, Pimentel ficou célebre pela intensa participação na imprensa carioca, principalmente com a seção “Binóculo”, na Gazeta de Notícias, na qual registrava a vida mundana e social da cidade.

Em Inocêncio Francisco da Silva lembrado por Antonio Pimentel, este último presta o seu elogio ao lisboeta Silva (1810-1876), que dedicou boa parte de sua vida ao jornalismo, escrevendo artigos políticos. Amanuense da administração-geral de Lisboa, corrigiu e aumentou a Biblioteca Lusitana, de Barbosa Machado, e, com a realização desse trabalho, teve acesso aos elementos essenciais para o seu Dicionário bibliográfico português – estudos aplicáveis a Portugal e ao Brasil (1858-1913).

A obra celebrizou Silva como bibliógrafo e é sobre ela que Pimentel concentra o seu maior reconhecimento: “Ele tinha a religião, o fetichismo do livro. Era um idólatra, um fanático. Mas naquele templo literário da rua São Felipe Néri abriam-se de par em par as portas para os amigos que queriam estudar. E os que não eram seus amigos pessoais, aproveitavam, mediante a publicação do Dicionário, com a riqueza dos tesouros acumulados por Inocêncio”.

Se Silva nutria um grande amor pelos livros enquanto objetos de desejo, o inglês Holbrook Jackson não ficava atrás. O quinto volume da Coleção publica, de sua autoria, O tato (Uma das cinco portas de amor ao livro), texto extraído e traduzido por Cláudio Giordano da obra The anatomy of Bibliomania.

O prazer de afagar a lombada de um livro, por exemplo, é descrito de uma maneira bem peculiar. O amor por manuscritos raros ou a alegria de tocar um livro longamente desejado são também apontados com minúcias e requinte. Do mesmo modo, é apontado como os bibliófilos gostam de classificar e arrumar os seus livros com o mesmo carinho que o homem acaricia a sua amada.

A conclusão de Jackson é inigualável: “E os próprios livros são os maiores interessados nessas familiaridades. Gostam de serem sentidos; renovam-se, recuperam as forças, ficam radiosos sob o toque carinhoso de seus amantes”. Poucas vezes a relação afetiva com os livros e o ato sexual estiveram tão próximos.

A Coleção Plaquetas também permite conhecer novas facetas de escritores consagrados. É o caso de Domingos José Gonçalves de Magalhães (1811-1882). Embora celebrizado como autor de Suspiros poéticos e saudades, publicado em 1836 e considerado o marco inicial do romantismo brasileiro, pouco é estudado ou lido do resto de seu trabalho.

Ao publicar O pavão, surge a oportunidade de conhecer outra faceta do artista carioca e verifica-se que ele ainda tem muito a ensinar. A partir da observação das belas aves num jardim, o poeta reflete sobre os limites entre a admiração construtiva e a e a vaidade que levam à inveja e à destruição.

Enquanto condena a inveja, o artista valoriza o louvor às grandes pessoas e feitos, considerando essa atitude uma maneira saudável de uma nação admirar os seus homens ilustres e fatos significativos. Para Magalhães, somente os espíritos embrutecidos perdem a capacidade de elogiar aquilo que existe de bom e que merece ser elogiado. Nesse sentido, lembra inclusive as palavras de Camões, nos Lusiadas: “A virtude louvada vive e cresce”.

E se estamos falando de virtudes, no volume 7 da Coleção, a literariamente virtuosa escritora Lúcia Machado de Almeida, autora de textos já clássicos da literatura infantil brasileira, como Aventuras de Xisto, Xisto no espaço, Spharion, A vida é fantástica, O caso da borboleta Atíria e Histórias do fundo do mar, ela, em Um pouco de mim, apresenta a sua experiência como escritora.

Em “Divagando”, investiga como será a literatura infantil e as crianças do ano 3000. Conclui ainda que o livro “bom para criança é o que desperta nela uma curiosidade para o mundo, o conhecimento dos seres e da natureza”. Já em “Palestra”, conta um pouco de seu processo de criação, deixando-nos curiosos para obter maiores informações sobre a sua riqueza interior, celebrada no poema “Para Lúcia Machado de Almeida”, de Cecília Meireles, e numa carta de Mário de Andrade sobre a literatura infantil da escritora, ambos inseridos no volume da Coleção.

Se as Plaquetas estimulam o amor pelos livros e pela literatura de modo geral, elas também são um local de resgate de textos. É o caso do volume 8, Crônica de como Dom Paio Corrêa, mestre de Santiago de Castela, tomou este reino do Algarve aos mouros. O volume recupera um texto escrito há mais de oito séculos e reproduz, em fac-símile, a edição de 1792, inserida em Memórias de literatura portuguesa, série de oito volumes publicada pela Academia Real das Ciências de Lisboa – de propriedade do jornalista e pesquisador Alberto Dines – e também oferece ao leitor menos acostumado com o português medieval o texto em ortografia moderna.

Descoberto em 1788, na câmara da cidade lusa de Tavira, no então Reino de Algarve, pelo Fr. Joaquim de Santo Agostinho, o texto, anônimo e sem data, conta um dos episódios mais complexos da história portuguesa. Por isso, as informações contidas na narrativa, embora possam ser falsas ou meias-verdades, fornecem um valioso material para conhecer melhor o estilo dos primeiros cronistas lusos em seu afã de construir a história nacional.

Se ler as crônicas exige certo treinamento, principalmente para aqueles menos afeitos às crônicas medievais, uma diferenciada aula de leitura crítica é encontrada em Leitura recreativa, volume 9 da Coleção. Cláudio Giordano relembra a sua formação em seminário católico nos anos 1950 e confessa que somente no final dos anos 1990 se debruçou sobre A carne, de Júlio Ribeiro, obra que conhecia nominalmente desde a sua adolescência.

A leitura de Giordano é especial. Não se trata de uma avaliação literária ou de uma análise das questões sexuais tradicionalmente exaltadas por quem lê a obra preocupado em relacioná-la ao movimento literário conhecido como naturalismo. Ele se atém a aspectos insuspeitados do romance, como a intimidade de Ribeiro com bebidas finas, os detalhes sobre a moagem da cana, a descrição da capital paulista, as danças dos negros no terreiro, os rituais de macumba, as informações sobre a estrada de ferro Santos-Jundiaí e o hábito rural paulista de tomar café com leite após o almoço.

A leitura atenta que Giordano faz de A carne encontra seu paralelo em As minhas conversões, de Rui Barbosa, volume 10 de Coleção. O texto é igualmente ímpar, não agora como análise de texto, mas como exercício de uma oratória voltada para a polêmica. Barbosa escreve seu texto em resposta a críticas recebidas em um artigo de Afonso Celso, que o acusa de ter renunciado “as suas antigas idéias de intolerante irreverência religiosa para ajoelhar-se diante dos altares que outrora tantas vezes conspurcou.”

Com sua célebre verve, seja na fala como na escrita, Rui Barbosa, então residindo na Inglaterra, rebate, com sólida argumentação, não só essa crítica como a de que havia se convertido ao pensamento republicano. Conclui, portanto: “Não me fiz cristão agora porque nunca deixei de sê-lo. Não me faço agora monarquista porque tenho como sonho irrealizável a reposição da monarquia no Brasil”. Barbosa considerava, assim, a república definitiva, mas insistia na necessidade de regenerá-la, “dotando-a com a liberdade”.

Liberdade de expressão, aliás, é o que se encontra no volume 11 da Coleção Plaquetas da Oficina. Nele, intitulado Notas à margem dos Últimos Harpejos, o carioca Valentim Magalhães (1859-1903) reuniu seus comentários publicados na Gazeta de Notícias sobre o livro de versos Últimos Harpejos, de Sílvio Romero.

Poucas vezes no universo da crítica literária nacional, um artigo foi tão pesado e rude. A obra do também crítico literário sergipano é colocada a nocaute com observações que vão desde a inadequação vocabular até falhas na contagem de versos e a acusação de pornográfico em diversas passagens. Com seus comentários, dignos dos melhores momentos do polemista Rui Barbosa, Magalhães encanta o leitor.

A Plaqueta 12, por sua vez, parece nos redimir da sexualidade exacerbada que Magalhães via nos poemas de Sílvio Romero. Trata-se da Bíblia medieval portuguesa (extrato), que contém o texto original e a transcrição modernizada. Temos contato assim com a remontagem reduzida dos episódios bíblicos, numa linguagem extremamente simples de ampla divulgação na Idade Média, especialmente, ao que se sabe, a partir do final do século XIII.

Os 32 capítulos do Gênesis reunidos vão desde a criação do céu e da terra por Deus até o episódio da Torre de Babel, no qual Ele castiga os homens por, com medo de um novo dilúvio, tentaram erguer, com tijolos e betume, uma torre que chegasse aos céus: “E então destruiu nosso Senhor a torre e repartiu a cada um sua própria língua. E esse lugar foi chamado Babilônia, que quer dizer desentendimento”.

Com estes livros discretos, pelo seu número reduzido de páginas e edições sem luxo, a cultura nacional tem muito a aprender. Autênticos amigos, como aponta Lope de Veja, aconselham os bibliófilos, como fazem Alberto Pimentel e Hoolbrook Jackson, e repreendem, como também dizia o dramaturgo espanhol, contra a vaidade, como Gonçalves de Magalhães, em O pavão.

O principal, em todos esses casos, é que os doze volumes da Coleção Plaquetas da Oficina contribuem para a cultura do país. Livros pequenos de poucas páginas, como o próprio nome “plaquetas” aponta, eles são grandes em valor literário, não apenas pelo que dizem, mas, principalmente pela dedicação e amor ao livro que representam e por apontar a possibilidade infinita dos livros – não importa o seu tamanho – contribuírem para formar uma sociedade melhor, mais justa, democrática e melhor informada.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, pós-graduando no Instituto de Artes da UNESP, é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor Waldomiro de Deus (Editora Unesp/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

 

 

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