por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

Pita Hirs

 

            A jornada do herói

 

            A artista plástica paulistana Pita Hirs tem um talento cada vez mais raro na produção contemporânea nacional. Ela não se embate com os materiais, mas dialoga com eles. O resultado é que a sua escultura surge com uma leveza de concepção plástica que esconde reentrâncias em que o vigor da criadora se manifesta.

            É nas peças em que ela se vale da verticalidade que causa maior impacto. Está ali uma poética que valoriza o desenho, uma das matrizes da sua criação, e, principalmente, a habilidade de trabalhar com os espaços vazios que rodeiam a escultura.

            As curvas de suas peças não costumam ser suaves ou delicadas, mas sim plasmadas de angulações, às vezes até mais drásticas. No entanto, a conquista de um resultado plástico expressivo se dá na forma de articular e cristalizar formas ascensionais plenas de delicadeza.

            Talvez uma das maiores provas da força das esculturas de Pita esteja na necessidade que o observador sente de tocá-las e de realizar giros de 360º para apreendê-las. Isso mostra que elas não estão presas a algum assunto – muitas vezes indicados nos títulos –, mas valem pela forma como a artista se vale do material.

            Quanto mais a artista se liberta das formas mais tradicionais, menos o público fica direcionado a uma única leitura de sua obra. Isso aponta para a possibilidade de criar trabalhos cada vez mais independentes de um tema específico, porém, mais vinculados à preocupação de desenvolver uma linha de pesquisa que brote de uma verdade interior.

            A arte, como forma de manifestação visceral, tem uma trajetória assegurada. Não se trata de terapia por meio de uma pesquisa estética, mas sim de dar-se a liberdade de tomar a habilidade de desenhar, modelar e esculpir como caminhos de expressar os ganhos e perdas da vida.

            Em última análise, o que a vida oferece ao artista é justamente a matéria-prima do mundo, seja no campo das emoções ou dos materiais. Nos dois universos, é fácil ter angústias e incertezas, mas a dificuldade está em transformar esses sentimentos em um pensamento estético – e concretizá-lo.

            Pita Herz tem amplas condições de tomar qualquer tema e torná-lo um trabalho significativo. O desafio não está no ato da escolha do assunto, mas sim na busca da melhor solução técnica para atingir sucesso no ato de transpor a emoção ao material, dando-lhe vida e originalidade.

            A tarefa não é fácil, mas enfrentá-la é dever do artista digno desse nome. Atingir o sucesso na empreitada requer a coragem de mergulhar com densidade em si mesmo para retirar dessa jornada o impulso definitivo que o material aceitará com cândido prazer. Pita conseguiu isso no seu trabalho até aqui realizado e, assim como ilustram as jornadas heróicas em todas as mitologias, ao sair vitoriosa sobre si mesma, conquistará seu espaço na memória coletiva.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 

 

 

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Antropofágico
bronze patinado
80 x 45 x 33 cm 2002

Pita Hirs

 

 

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