por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

Pitágoras

 

            A estética do desnudar

 

            Uma das mais importantes, talvez a principal, funções da arte é desvendar o interior dos seres humanos. O goiano Pitágoras desenvolve essa tarefa com agudeza ímpar. O modo como trabalha suas figuras representa justamente uma resposta estética ao mundo, marcada pela proximidade ao expressionismo.

Isso ocorre no sentido de mostrar as pessoas como elas realmente são em sua essência, não como poderiam ser em vã aparência ou como gostariam de ser em sua viagem egocêntrica megalomaníaca. O belo da poética de Pitágoras reside no discurso visual em que a figura ganha uma dimensão épica.

O que se vê são sombras, manchas, seres fantasmagóricos, marcados pelo uso de uma técnica que tem como maior característica instaurar microuniversos de desnudamento existencial. Se há referências a mestres como Siron Franco, Ismael Nery e Iberê Camargo, elas não estão naquilo que o artista constrói plasticamente.

O diálogo é realizado pelo observador na proximidade de atmosferas indagadoras sobre o papel de cada indivíduo. As deformações de Siron, o lirismo de Ismael e a densidade de Iberê são mais que meras referências. Constituem uma lista de companheiros de viagem.

O mundo se torna uma espécie de palco, no qual Pitágoras compõe suas marionetes, associadas a insetos e ambientes urbanos, em situações às vezes jocosas, sempre repletas de conteúdo crítico, numa espécie de texto visual, em que cada nova imagem funciona como um quadrinho da história do homem contemporâneo, imerso em profunda crise sobre o sentido da civilização que criou.

Seja no uso da cor ou na produção de trabalhos com grisalhas em que pretos, brancos e cinzas estabelecem ritmos próprios, Pitágoras torna suas mulheres e homens caricaturas da vida moderna. Há nelas certa agressividade, já que geram incômodo e uma morbidez mesclada com sensualidade.

Rostos e corpos mantêm o apelo do figurativo, mas progressivamente se diluem para sugerir que a convivência entre figuras e fundos está longe de ser cartesiana. É marcada pela tensão entre o manifesto e o sugerido, conflito do qual o observador sai renovado a cada obra do artista goiano que contempla.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pela Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

 

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Sem título
técnica mista sobre papel 35 x 27 cm sem data

Pitágoras

 

 

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