por Oscar D'Ambrosio


 

 


   Pillon Lulia

 

            Pintura alla prima

 

            O poeta alemão Goethe (1749-1832) dizia que “À liberdade e à vida só faz jus/ Quem tem de conquistá-las dia após dia”. A máxima vale ainda mais para os artistas plásticos, pois, em sua lida constante com os materiais, eles necessitam travar um diário processo de aquisição de novos recursos para transformar as idéias que têm na cabeça em obras de arte solidamente construídas.

            Os trabalhos de Rosa Maria Pillon Lulia são o resultado desse amor supremo à liberdade. Seja na pintura a óleo, na gravura ou no desenho, o valor primordial de sua pesquisa estética está justamente na espontaneidade do gesto. Daí a expressão alla prima ser uma constante, pois alerta para o modo do fazer artístico adotado pela artista, que prefere trabalhar sem esboços para enfrentar o desafio da tela ou da folha do papel em branco.

            Nascida em Laranjal Paulista, SP, em 24 de março de 1952, Pillon Lulia obteve seu diploma de Licenciatura Plena em Desenho e Plástica na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Tatuí, SP, tendo ainda recebido orientações de diferentes artistas, como Manoel Martins Menacho, Rubens Matuck e Evandro Carlos Jardim além de ter realizado oficinas de modelo vivo e participar do Grupo de Pintura Livre no Parque Fernando Costa – Água Branca, São Paulo.

            De toda essa vivência, resulta um processo que, além de retomar a liberdade do desenho, se ancora na revalorização dos grandes mestres do passado. Isso significa investir horas em estudo do passado para incorporar, dos maiores paradigmas da história da arte, elementos que surgirão, mais tarde, de maneira aparentemente espontânea, no seu trabalho.

            Uma progressiva cobrança interior por uma qualidade nos próprios trabalhos dá à estética de Pillon Lulia a possibilidade de realizar experimentações em diversas técnicas. Nesse sentido, observa-se a importância que assume no conjunto de seus trabalhos a figura da palmeira. Ela pode surgir como uma referência próxima ao real em algumas imagens realizadas no Parque da Água Branca ou de maneira bem mais abstrata em certas gravuras.

            A diversidade de imagens e de técnicas apresentada pela pintora encontra um ponto comum na defesa constante da liberdade de imaginar. Essa necessidade vital, nos últimos anos, foi se juntando a uma progressiva prática com modelo vivo, oriunda do desejo interior de colocar a figura humana nos mais diversos ambientes.

            A busca pelo rigor plástico é constante em uma obra que tem na cor um importante meio de expressão, principalmente nas telas de maiores proporções. Assim, imagens do Parque da Água Branca surgem em uma explosão de tonalidades. Paralelamente, a artista, em uma busca que caminha para o minimalismo, também realiza, com poucos traços, imagens inspiradas em personagens do local, como mulheres com carrinhos de bebês ou trabalhadores, como garis ou tratoristas.

            Há nas imagens de Pillon Lulia uma busca pela essência do que ela vê no mundo. A importância do referente concreto pode até ser diluída em algumas obras, mas não se perde completamente, pois a artista parte do que vê para chegar nas essências da realidade, ação acessível aos que tem talento de transformar a sua visão particular em imagens arquetípicas.

            O presidente norte-americano John Fitzgerald Kennedy, ao discursar, em 18 de março de 1963, por ocasião do nonagésimo  aniversário da Universidade de Vanderbilt, declarou que “a liberdade sem o estudo está sempre em perigo, e o estudo sem a liberdade é sempre vão”.

A máxima desvenda a criação de Pillon Lulia. Sua liberdade de criar alla prima se apóia no estudo constante de técnicas do passado e do presente. Esse mesmo conhecimento dos mestres seria inútil se não fosse utilizado de maneira espontânea, sempre pronta a romper paradigmas próprios e alheios. A artista, em seu caminho pelo mundo da arte, apresenta telas em técnica mista plenas de cor, gravuras de extrema delicadeza e poeticidade e trabalhos sobre papel em que predomina a busca do gesto livre em traços cada vez mais precisos e menos numerosos.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (Aica - Seção Brasil). É pós-graduando no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

  

 

 

 

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"Sem título"

  técnica mista sobre papelão 97 x 53 cm 2001

Pillon Lulia

 

 

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