Pilar Sala
O misterioso ato criativo
Um dos elementos mais simbólicos
da arte é a lua. Considerada, desde a Antigüidade, o símbolo
da noite e dos pensamentos mais escuros do ser humano, também
tem conotações ligadas ao amor e à pureza, como aquelas
relacionados com os namorados. Sua imagem, plena de mistérios,
alimenta a imaginação e pode ser a porta de entrada para o
mundo pictórico dae Pilar Sala.
O
universo dessa artista autodidata, nascida em Buenos Aires,
Argentina, em 26 de janeiro de 1944 e formada em Ciências Políticas,
atividade que não exerceu, é marcada pela presença de
diversos elementos oníricos, principalmente pela combinação
de imagens inusitadas, que remetem ao trabalho dos pintores
surrealistas.
Ao
pintar sem realizar esboços e com a utilização muito
particular da cor, principalmente pelas combinações muito
pessoais, diferentes daquelas aprovadas pela academia, Pilar
consegue criar atmosferas singulares. Ao não realizar esboços,
demonstra grande imaginação, acompanhada de uma noção de
conjunto surpreendente, pois as obras revelam muita harmonia e
um grande senso de equilíbrio estético.
Cada
tela estabelece uma magia singular, sendo que, em muitas delas,
a lua, seja cheia ou na forma crescente surge com bastante força.
Seja como elemento integrante da composição ou como
protagonista, parece sugerir justamente a possibilidade que a
pintura oferece de romper barreiras entre o conhecido e o
desconhecido.
O
fato é que real e imaginário ou razão e loucura ganham novas
dimensões quando se contempla uma imagem de Pilar. As figuras
humanas que surgem , muitas vezes ela mesma ou parentes e
amigos, contribuem para dar às suas criações calor humano. Não
se tratam, portanto, de meros jogos retóricos e imagéticos,
muito comuns no surrealismo, mas de criações vigorosas que
alertam para a contínua possibilidade humana de usar a mente
para atingir o inesperado.
O
escritor norte-americano Mark Twain (1835-1910) afirmava que
“cada um é uma lua e tem um lado escuro que nunca mostra a
ninguém”. Ao vislumbrar as telas de Pilar, paradoxalmente,
parece que a artista tem diversos lados claros. Brota de cada
trabalho uma intensa vontade de viver e um profundo amor pelo
ser humano.
As
imagens bem definidas de Pilar e a riqueza de detalhes
surpreendem por se tratar de uma artista autodidata que nunca
freqüentou um ateliê e apontam para a necessidade de uma
observação atenta. Cada detalhe se articula com o todo
formando um conjunto em que a integração imagética é
preponderante.
Prevalece
no trabalho de Pilar a espontaneidade, a liberdade e o
compromisso estético e ético com a própria arte de pintar num
exercício contínuo de busca da qualidade. Suas luas, além de
terem um resultado estético eficiente, estimulam o mistério do
ato criativo. O autodidatismo próprio do naïf e a poética
surrealista se integram com maestria, apontando que a arte
ultrapassa as barreiras do aparentemente possível quando
realizada com espero e sinceridade, atributos que Pilar reúne
em sua vigorosa e imaginativa pintura.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional
de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando
a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora
Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).