Percival Tirapeli
A tonalidade nota 10
O filósofo norte-americano do século
XIX William James dizia que quando duas pessoas se encontram, há,
na verdade, seis pessoas presentes: cada pessoa como se vê a si
mesma, cada pessoa como a outra a vê e cada pessoa como realmente
é”. São pelo menos essas as dimensões que podem ser
encontradas na série “Encontros”, do artista plástico
Percival Tirapeli.
Os encontros, idealizados em 1997, num
envelope de correspondência recebido pelo artista, constituem
aproximações entre artistas que, às vezes, aparentemente não
têm muito em comum. Os resultados dos encontros, no entanto, não
têm valor artístico apenas como ponto de partida para
discussões teóricas que atravessam épocas e tendências. Seu
maior mérito está nas tonalidades alcançadas em algumas das
obras.
Nesse sentido, destaca-se o tríptico
chamado “Pelé encontra os construtivistas”. A tela maior, que
contém as marcações de um campo de futebol, permeadas pela
escritura do número 10 da camisa do craque do século, alcança
um cromatismo praticamente indefinível, um tom entre o azul
ilimitado do céu e o verde da grama dos estádios.
As outras duas partes do conjunto,
colocadas na parte superior da tela maior, têm a forma de
retângulo e círculo, compõem um número 10. O efeito cromático
e a alusão ao esporte mais popular do Brasil interagem, numa tela
que se utiliza da linguagem artística minimal concretista para
valorizar uma das maiores glórias de uma nação que, um dia, foi
o País do futebol.
O intenso ludismo da obra também pode
ser encontrado em outras telas. Duas delas, que relacionam o
pintor francês do século XIX Ingres – um inovador na forma –
e o inglês do século XX Francis Bacon – um mestre na criação
de figuras distorcidas que comunicam pânico.
As telas escolhidas para a recriação
do artista francês – a Odalisca e Banho Turco – ganham uma
nova dimensão ao serem lidas pelos olhos críticos de Tirapeli.
Na primeira, o instrumento da protagonista desaparece, mas a sua
presença continua sugerida pela posição do corpo.
No segundo, a figura feminina central
surge sem a cabeça e a tonalidade quente, mescla de vermelho,
bordô e vinho, que preenche o fundo da tela projeta a imagem para
a frente, numa releitura dos universos desses dois artistas
basilares da História da Arte. Numa atitude antropofágica,
Tirapeli os deglute e os regurgita com sensibilidade.
O dialogo entre o fauvista e cubista
Georges Braque, pioneiro da colagem, e Denis Oppenheim, precursor
da land art, da arte corporal e das instalações gera impacto
visual pela força pictórica e estética expressa num tampão de
mesa de diversas tonalidades, sobre o qual é colocado um pincel
oriental e uma xícara rodeada por pele de animal. O conjunto
impressiona pelo seu diâmetro de mais de um metro e,
principalmente, pela coragem de trabalhar com artistas muito
particulares e originais em sua forma de conceber a arte e o
mundo.
As aproximações de Tirapeli superam
a lógica cartesiana. É o que se verifica na conversa estética
que cria entre o pintor abstrato Man Ray e o herói grego Teseu. A
metáfora do minotauro, preso no labirinto, morto pelo mítico
personagem e retirado do labirinto graças ao fio de Ariadne,
símbolo do amor que “torna todo impossível possível”, como
dizia o professor de literatura grega da PUC-RJ Junito de Souza
Brandão, ganham, na mente e nos pincéis do artista paulista, uma
interpretação que se utiliza do espelho e da serigrafia para
colocar o espectador em meio a essa luta antológica e primordial
entre a inteligência humana e a força instintiva do monstro
encarcerado.
A origem do poder criativo de Tirapeli
certamente está ligada à forma prematura e visceral como ele
tomou contato com a pintura. Nascido em Nhandeara, SP, próximo a
São José do Rio Preto, em 1952, ele recorda que a primeira vez
que viu uma obra de arte foi ainda criança, próximo a sua
primeira comunhão, quando presenciou o trabalho de um padre
decorando a igreja da cidade em que nasceu.
Depois, conheceu a arte do
primitivista José Antônio da Silva, radicado em São José do
Rio Preto, SP, e de outros pintores, que foram formando seus olhos
e sua mente rumo a uma carreira que mescla o saber universitário
com a produção artística. Das visões iniciais da arte
religiosa ao ingênuo em sua mais autêntica expressão, Tirapeli
seguiu carreira acadêmica, doutorou-se na USP e se tornou um dos
maiores especialistas nacionais em arte barroca.
Docente do Instituto de Artes da
Universidade Estadual Paulista (Unesp), em São Paulo, Tirapeli
conhece profundamente a História da Arte. Daí poder fazer
eleições pessoais em que a grande surpresa, para o observador,
está no resultado final, embora, para o criador, o momento
sublime esteja no próprio ato de fazer e descobrir a melhor
maneira de apresentar cores e formas.
O maior exemplo desse processo
pictórico apurado de um profissional que aprende, pelo estudo na
academia e, simultaneamente pela prática com as mais variadas
tintas e suportes, é o encontro promovido por Tirapeli entre o
italiano Giorgio Morandi – mestre da técnica do meio-tom em
suas naturezas-mortas – e o brasileiro Carlos Scliar – com
suas cores fortemente marcadas pela influência do francês Paul
Cézanne.
As cores ocres e o uso do pó de
mármore presentes na obra do artista italiano são utilizadas do
lado esquerdo da tela, enquanto o estilo de Carlos Scliar é
apresentado com força do lado direito. As técnicas de ambos,
reinventadas por Tirapeli, são colocadas lado a lado, num
exercício de busca da tonalidade mais adequada para cada parte do
quadro e para a tela como um todo.
Os suportes de Tirapeli são um
capítulo à parte. Madeiras recortadas em formatos muito
particulares ressaltam o trabalho pictórico. É o caso do
trabalho que aproxima A Negra, de Tarsila do Amaral, e uma nossa
Senhora das Dores barroca ao estilo do Aleijadinho.
A nudez de um dos ícones do
modernismo paulista contrasta com as formas voluptuosas das vestes
da santa, num diálogo entre o plano e o ondulado e entre o
mergulho na alma brasileira proposta pela pintora paulista e o
movimento de ascensão barroca presente no escultor mineiro.
O expressionismo agoniado de Lasar
Segall e os traços precisos de Picasso também são colocados um
de frente para o outro numa clara demonstração de domínio
técnico e de coragem de pesquisar de Tirapeli. Seu único medo é
o de não arriscar e o de perder a inquietação primordial que o
leva a criar.
Ao colocar pintores em encontros
inusitados mediados pela sua capacidade de criar, Percival
Tirapeli desnuda não seis pessoas, como apontava Willliam James,
mais sim oito artistas diferentes: as evocações das obras
originais dos artistas recriados, os enfoques que o artista
paulista oferece de ambos, as visões que o espectador tem da
recriação oferecida e as possibilidades de novas leituras que
surgem a partir dos elos estabelecidos entre os artistas citados.
É criado assim um labirinto de
signos, imagens e cores. Nele falam mais alto as tonalidades, como
as presentes na parte maior do tríptico sobre Pelé e nos dois
encontros entre Ingres e Francis Bacon. Em momentos como esses, a
série “Encontros” atinge nota 10, mesmo número da camisa do
mito do futebol, um homem que, assim como Tirapeli, nasceu com um
dom: o de maravilhar os outros. Se o atleta o fazia com os pés, o
artista plástico o faz com a rara capacidade de mesclar
criatividade, vocação para o ensino, ousadia de criar e talento
para transformar cada tela numa imagem não-cotidiana e
inesquecível.
Oscar D’Ambrosio é jornalista,
integrante da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA),
autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp) e responsável pela página www.artcanal.com.br/oscardambrosio