por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

Pedro Ursini

 

Proposta pictórica

 

O escritor e ensaísta Italo Calvino (1923-1985), em seu texto já clássico Seis propostas para o próximo milênio, coletânea de cinco das seis conferências que deveriam ter sido pronunciadas por ele na Universidade de Harvard - o que acabou não acontecendo devido ao seu falecimento –, aponta que os caminhos para o homem e para a sociedade contemporânea seriam a exatidão, a rapidez, a leveza, a visibilidade, a multiplicidade e a consistência.

Curiosamente, esses seis aspectos faltam, infelizmente, em boa parte da pintura que vem sendo praticada nos ateliês nacionais. O trabalho de Pedro Ursini constitui exceção pela inquieta busca de uma alternativa que incorpore elementos do olhar próprio da fotografia aos da pintura, mas sem abrir mão dos recursos que a tinta a óleo oferece.

A exatidão se faz presente, no universo imagético de Ursini, pela maneira precisa de trabalhar a matéria. Ele fragmenta a realidade em figuras retangulares, simétricas, pintando cada uma deles com autonomia de forma a realizar composições que vão amadurecendo durante o próprio processo.

Decorre daí uma certa rapidez não no procedimento, mas na forma de absorção do seu trabalho pelo receptor. Principalmente naqueles em que a figura original quase desaparece, o desejo maior é de olhar num relance, captando o movimento propiciado pelo jogo de cores e nuances do diálogo entre as linhas retas e os traços vigorosos.

A leveza se dá pela ausência progressiva de preocupação com o referente concreto. À medida que se dilui a presença do retrato e se entra numa atmosfera marcada pela incerteza e pelo impacto daquilo que a pintura de Ursini tem de melhor em termos de linguagem, ou seja, o fascínio de sua técnica de criar pequenas realidades que se compõem, de forma gestáltica, para gerar indagações no observador.

O uso de menos camadas de tinta, que concede certa leveza, também colabora com a visibilidade das pinturas graças à seleção criteriosa daquilo que se deseja mostrar e pelo aprofundamento, dentro dos limites de cada quadro, das múltiplas relações entre o que mostra e o que se esconde, ou seja, entre a poesia de cada fragmento e a linguagem do conjunto, ainda mais quando ele alcança maiores dimensões.

A técnica da fragmentação escolhida por Ursini conduz a uma convivência constante com a multiplicidade. Embora elas possam ser apreciadas numa visão rápida, o maior prazer está no captar a poética de cada pedaço, verificando como ele foi arquitetado em termos plásticos e suas possibilidades de interação com os fragmentos mais próximos – formando, às vezes, um novo quadro – ou com toda a dimensão da tela.

A consistência da obra de Ursini se dá por ele oferecer um produto plástico cada vez melhor acabado, onde a margem de improvisação, como apontava Calvino, é reduzida, indicando um lúcido pensamento de elaboração, no qual o aprimoramento constante é exigência primordial.

Existe na proposta de pintura do artista um processo de construção plástica de um hexágono virtuoso, que Calvino tão bem soube inspirar, e Ursini coloca em prática, utilizando o quadriculado para gerar um efeito de estranhamento que encanta e fascina, ainda mais quando se preocupa menos com a origem figurativa da imagem, mergulhando na potencialidade de cada retângulo como objeto  a ser desvendado.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

 

 

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Espectador #1
óleo sobre tela 120 x 120 cm - 2006

Pedro Ursini

 

 

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