por Oscar D'Ambrosio


 

 


Peça em dois atos e um epílogo sobre a crítica de arte

 

            Oscar D’Ambrosio

 

            (Abre-se a cortina e acendem-se as luzes.)

            Ato I

            Anunciado pela imprensa cearense como um dos principais nomes da arte contemporânea mundial, o artista japonês Souzousareta Geijutsuka inauguraria, em janeiro último, no Museu de Arte Contemporânea do Ceará, em Fortaleza, a exposição Geijitsu Kahuu. Ele apresentaria trabalhos baseados na sua criação, a fotografia Shiitake, que permitiria “a captação dos fenômenos invisíveis ocorridos na atmosfera”. No dia da abertura, Geijutsuka não apareceu. Na verdade, ele nunca existiu! Em seu lugar, estava o artista paulistano Yuri Firmeza, que expôs uma série de e-mail pregados na parede entre ele e um amigo sobre a idéia da criação de um artista imaginário.

            Entreato

            O episódio ilustra a quantas anda a relação entra mídia, galerias e museus. A namorada de Yuri, fazendo-se passar por assessora de imprensa do artista japonês, distribuiu fotos prosaicas de um gatinho na rua como sendo de Geijutsuka. Todos acreditaram.

            A imprensa local não se deu ao trabalho de pesquisar sequer um pouquinho na internet, onde não há referências a algum artista com o nome de Souzousareta Geijutsuka que houvesse feito, conforme informado pela fictícia assessoria de imprensa, exposições de repercussão mundial em Tóquio, Nova York, São Paulo e Berlim.

            Havia pistas dessa inteligente fraude denunciadora de como anda a imprensa cultural, que cobre as artes plásticas, no Brasil. “Souzousareta Geijutsuka”, em japonês significa “artista inventado”; “Geijitsu Kahuu” pode ser traduzido como “arte e ficção”; e “Shiitake” é o nome de um cogumelo que pode ser encontrado em qualquer restaurante japonês.

Infelizmente, boa parte da imprensa, para não dizer quase a totalidade, com exceções que confirmam a regra, escreve sobre as exposições que entram em cartaz na cidade sem ver as obras, baseando-se em releases com informações que não são checadas. Há os que escrevem sobre trabalhos sem nunca os terem visto ao vivo, apenas com base em catálogos e mensagens enviadas por e-mail.

            Ato II

             A 73ª Bienal de Arte do Whitney Museum, em Nova York, EUA, inaugurada em março último, conta com três curadores: o francês Philippe Vergne, a inglesa Chrissie Iles e Toni Burlap – que não existe, embora esteja presente em todos os créditos do importante evento! Perguntado sobre o porquê dessa atitude, Vergne respondeu: “Não se trata de disfarce, mas de camuflagem. A arte está tão sufocada pelo mercado que tudo tem de ter um rótulo. Uma outra identidade possibilita criar com mais liberdade, sem a preocupação de ser tachado de nada específico”.

            Entreato

            O episódio mostra como a questão da identidade se coloca como cada vez mais complexa. Os dois curadores “oficiais” criam um terceiro que funciona como coringa e ao qual pode-se acusar e rotular de qualquer coisa ao mesmo tempo, já que ele não é real.  

            A discussão sobre a validade de criar esse curador fictício deixa de lado, muitas vezes, o que há de mais importante numa exposição: a observação atenta e crítica das obras ali presentes. Para muitos, principalmente para o número cada vez maior de filósofos que adentraram no universo da crítica de arte, a discussão sobre o conceito que envolve a obra é mais importante do que a obra em si mesma.

            Multiplica-se assim o “crítico de arte da etiqueta”. Ele não fala da obra que vê, mas da etiqueta que lê. Se não compreende a obra, talvez por ela ser de qualidade no mínimo discutível ou pela própria incapacidade de pensar – que, logicamente, não deseja admitir – elabora,  a partir de uma dica do título da obra ou dos materiais que a compõem, um discurso ainda mais incompreensível, que afasta o leigo do trabalho plástico, pois ele se impede de ver o que poderia por se sentir diminuído perante um discurso que não entende e que o deixa perdido.

            Epílogo

Entre a obra e o público existem, no mínimo, dois possíveis mediadores: a imprensa e o crítico de arte. Quando ambos esquecem que pinturas, esculturas, instalações e a vídeo-arte são elementos concretos que precisam ser encarados em sua característica de objeto plástico, vistos e discutidos ao vivo, antes de serem transformados em mero espetáculo pelas páginas de jornais ou em fácil trampolim para o discurso filosófico vazio de críticos de arte considerados especialistas que se expressam numa linguagem ininteligível, disfarce de quem tem pouco ou nada a dizer,  alguma coisa está equivocada. Se o poder da assessoria de imprensa, do marchand e da galeria igualmente falam mais alto que a opinião do público em geral, algo está mais errado ainda.

            (Abaixam-se as luzes e fecha-se a cortina.)

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, campus de São Paulo, onde atua como professor voluntário, é crítico de arte e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil). Publicou, entre outros, Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo) e, para a Coleção Contando a arte de..., da Editora Noovha América, livros sobre os artistas plásticos Adelio Sarro, CACosta, Claudio Tozzi, Jocelino Soares, Maroubo, Ranchinho, Rubens Matuck, Peticov e Waldomiro de Deus. É responsável pela página www.artcanal.com.br/oscardambrosio

 
 

 

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